Autoestima, Feminismo e contradições de cada dia

Texto de Isabela Casalotti.

Sabe os padrões de beleza? Aqueles que já conhecemos e tanto criticamos. Isso, as capas de revistas, a gordofobia, o racismo, o sexismo, a cis-hetero-normatividade, o capacitismo… Esses estão na ponta da língua de nossas críticas. Nós, feministas, olhamos com admiração as mulheres empoderadas com seus corpos. Depois de um acolhimento, sabemos o que dizer para aquela amiga que diz estar descontente com sua aparência física.

Até que você, feminista, louca de vontade de tirar a roupa e ir a praia, olha no espelho e se desespera. Simplesmente se acha feia porque está fora dos padrões. Isso, aqueles lá: falta aqui, sobra ali, celulite, estria, varizes, pelos, cravos, “defeitos”. Cada detalhe ali, que no discurso é “parte de você, da sua história”, a seus olhos é a autoestima descendo ladeira abaixo.

A julgar pelas postagens cotidianas que vejo nas redes sociais, arrisco dizer que não sou feminista solitária nesse barco. E compartilho meu desabafo de como é encontrar-se nessa contradição. Olho para a amiga gorda e acho linda. Por que, então, me encolho quando uma mão carinhosa se aproxima da minha barriga?

A Kindumba da A.N.A, por Chiquinha no Facebook.

A Kindumba da A.N.A, por Chiquinha no Facebook.

Dia desses, no meio de uma crise de baixa autoestima, com muitos ataques e críticas pesadas a mim mesma, uma pessoa querida disse: “se você se acha feia por ter engordado é porque, de alguma forma, considera que ser gorda é feio”. Eis que a contradição se revelou óbvia. Oras, se esperneio porque meu cabelo está crespo, é porque acho, em algum nível, que cabelos crespos não são bonitos. Isso vale para qualquer parte do corpo.

E a contradição dói. Porque racional e conscientemente acho todas as mulheres bonitas. Para olhar além disso, tem que ter um pouco de coragem para entender o que e por que está sendo reproduzido. Reproduzir os padrões é reproduzir as opressões mais estruturais e isso é feito o tempo todo. Por onde andamos encontramos receitas infalíveis para enquadrar.

Você conta que engordou dez quilos nos últimos seis meses. É o pão, é a cerveja, é emocional, é falta de academia. Você tem usado drogas? É o anticoncepcional, melhor parar. Não pare de tomar anticoncepcional, vai ficar cheia de espinha. Não coma batata, não beba suco de laranja, é calórico, sabia? Use quinoa, linhaça, chá, shake, chia. Foi o que eu ouvi. E fico pensando no que as pessoas obesas ouvem por aí.

Negahamburger por Evelyn no Facebook.

Negahamburger por Evelyn no Facebook.

Essas pressões podem dialogar diretamente com as opressões estruturais e com questões individuais. Existir corpos que são considerados desajustados somado com alguma necessidade de aceitação, aprovação, ou outras tantas questões subjetivas, pode ser o casamento perfeito da baixa autoestima, e vai na contramão do empoderamento.

Voltar a me achar uma mulher linda virou mais do que uma necessidade pessoal: é necessidade política. Amar a mim mesma é amar todos os corpos, todas as pessoas e talvez uma das maiores conquistas feministas. É por mim e por todas as mulheres e corpos não enquadrados. É por liberdade.

Convido tod@s a fazerem esse exercício, o de olhar para seu corpo como a todos, como uma bandeira feminista. E deixo de sugestão alguns textos e trabalhos altamente empoderadores:

Além disso, você pode ajudar o: Projeto Beleza Real por Negahamburger. Essa campanha pretende materializar o sonho de fazer um livro de ilustrações baseado em relatos de mulheres reais que buscam a liberdade de ser, de viver sua própria beleza, livre de padrões e preconceitos.

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Isabela Casalotti

Feminista em formação, paulista na localização, psicóloga por opção, chata por constatação, apaixonada por dedução e não desisto (nem duvido) do ser humano por convicção.

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Sobre: Isabela Casalotti

Feminista em formação, paulista na localização, psicóloga por opção, chata por constatação, apaixonada por dedução e não desisto (nem duvido) do ser humano por convicção.

23 Comentários para: “Autoestima, Feminismo e contradições de cada dia

  1. “Voltar a me achar uma mulher linda virou mais do que uma necessidade pessoal: é necessidade política.” É verdade, uma ótima colocação, é um exercício diário – especialmente difícil com nós mesmas.

    • Isso, um exercício diário. E olha, quando a gente se dispõe a olhar pra isso, acaba fazendo um exercício incrível de autoconhecimento também.

  2. Ah, Isa, estou muito feliz porque esse post foi escrito. Esse ano eu tenho passado muito por esse problema de auto-estima associado a uma auto-condenação por não estar sendo condizente com meu discurso político. Depois de muito pensar, uma das poucas conclusões a que cheguei é que nós, feministas, temos que ter um pouco mais de carinho com nós mesmas, inclusive na hora de cobrar auto-coerência. Como você falou, a gente também está inserida numa lógica opressora. E não é porque nós somos feministas que estamos acima ou fora disso, nós também temos que lidar cotidianamente com a opressão. E a necessidade de ser totalmente livre, totalmente feliz com o próprio corpo, totalmente ~perfeita~ enquanto feminista também é um pouco opressora, né? Não podemos abandonar o pensamento crítico, mas temos que usá-lo como uma arma e um escudo, não como mais uma forma de nos sentirmos mal. Espero que tenha dado pra entender o que estou querendo dizer, hehe.

    • Deu muito Bárbara!! E eu concordo com vc totalmente. Aliás, o que me motivou a escrever esse texto foi justamente substituir a ideia de perfeição (ainda que seja a satisfação com o corpo) pela a ideia de que tá tudo bem, sabe?? Autoestima como arma e escudo, como vc sugeriu… A pressão pela autoestima porque ela é uma contradição para nós também faz sofrer muito. A ideia é o oposto disso :D

  3. Mas você é uma graça, Isabela. Você está dentro dos padrões de beleza exigidos a nós, mulheres. Devo confessar que estou fora dos padrões, por isso não coloco minha foto real no meu perfil. Bjs

    • O que te faz não colocar a foto não é sua aparência, flor. É seu conceito sobre ele, que está baseado nesses padrões. As aparências físicas não são boas nem ruins, os valores que são atribuídos a elas não tem a ver com elas em si, mas com a sociedade. Eu imagino que seja difícil, sabe? Mas, talvez, lembrar disso ajude.
      Eu sou uma graça mesmo hahaha (desculpe o tom de brincadeira, obrigada pelo elogio), mas não porque estou dentro de algum padrão, é só porque nós somos, mesmo, não estou falando isso com intenções, eu definitivamente acredito nisso. Aliás, acho difícil que uma mulher se enquadre em todos os padrões e, ainda que esteja, não significa que está livre das opressões.

  4. Querida Isabela, adorei sua matéria.
    Mas será que seria só uma questão de aceitar o corpo? E a saúde?
    Acaba que comer e beber melhor e exercitar-se minimamente impacta no peso e na boa forma!
    Abraços.

    • Então, é que peso e “””””boa”””” forma não estão diretamente relacionados a saúde, né? Se fosse assim, todas as pessoas magras e/ou musculosas seriam saudáveis. Tem uma série de textos aqui no BF que eu recomendo muito com essa abordagem, se chama “Açougue”, da Marilia Coutinho. Vale a pena conferir ;)

    • partindo dessa premissa toda pessoa magra é saudável. mas será que somente o peso é atestado de saúde ou doença? certamente não, conheço pessoas acima do peso com a saúde super em dia, assim como pessoas magras com doenças crônicas como: diabetes, pressão alta, colesterol alto. acredito que somos mais felizes, quando saudáveis, mas o conceito de “boa forma” vendido tem a ver apenas com a aparência e não com a saúde.

  5. Texto brilhante, é muito bom saber que outras pessoas também se sentem assim, contraditórias em seus discursos. Mas acho que a gente acaba se censurando por ter engordado, ou por ter cabelo assim ou assado, etc., porque sabemos que o mundo lá fora não é feminista. NÓS somos, NÓS achamos que a beleza está em todos os tipos físicos, podemos falar por nós mesmas, mas sabemos que o mundo fora da nossa bolha feminista valoriza o padrão físico excludente, e a sensação de ser excluída pode ser terrível. Por isso nos preocupamos em sermos aceitas pela sociedade. Dessa forma, em minha humilde opinião, grande parte do processo de autovalorização consiste não apenas repetir “eu me amo, eu sou linda”; o que importa – e não é fácil – é não fazer questão de ser aceita por pessoas cuja opinião a gente desaprova e combate em nossos discursos e ideologias.

    • Ótima colocação, Camila! Aliás, “eu me amo, eu sou linda” não dá pra ser um discurso vazio, né? Senão é mais pressão do que posicionamento, né?
      :D

  6. Acho muito triste que nós mulheres somos “treinadas” pra nos acharmos feias ao natural. Eu sempre digo que uma mulher para ser considerada “asseada” ou “bem-cuidada” (do ponto de vista da sociedade tradicional e patriarcal) precisa de pelo menos 10 procedimentos diferentes (banho, escova, fazer as unhas, depilação, roupa passada, maquiagem leve…), o básico para acordar de manhã. Já o homem precisa de dois (banho e gilette).

    Sempre ouvi das mulheres mais velhas da família a seguinte frase “ficar bonita dói e dá trabalho”. Agora me questiono porque??? Se já nascemos bonitas e perfeitas!

  7. O fato é que é mais fácil ser “corret@”, ter um discurso apropriado, condizente, quando se fala do outro. Por isso é que temos de ter cuidado também na hora de cobrar coerência dos outros, pois todos nós temos nossas incoerências, e sofremos com essa lógica opressora.

  8. Pingback: Mulheres: corpos sempre disponíveis

  9. Pingback: Vergonha dos pés? | Biscate Social ClubBiscate Social Club

  10. Inspirador seu texto, ja passei por esses questionamentos tb, inclusive durante o processo de um projeto fotográfico meu que fala exatamente do corpo de cada uma. Se chama “musas de si”, com a ideia de que cada uma tem que ser a inspiração de si. No começo me vi ainda com noias em relação a meus pequenos seios e grande quadril, e heis que, o que eu pretendo com o projeto se revelou em mim :) Atraves de um dos ensaios, onde a mulher fotografada tinha tb seios pequenos e, a meus olhos, incrivelmente bela e forte, e levei aquele tapa na cara. Não é espontâneo, eu ja vinha nessa busca ha anos, mas percebi que, através de exemplos bonitos de corpos parecidos com os nossos, em representações fortes e belas, sem fugir do real, nos traz esse Eu-outro-eu, como se, atraves daquela representação, de alguem “de fora” pudessemos nos ver.
    :)
    Quem quiser conhecer o projeto, ta no face, ou entao me procurem. E parabens mais uma vez pelo texto.

  11. Adorei a frase “reproduzir os padrões é reproduzir as opressões mais estruturais”. É bem isso que fazemos ao buscarmos aceitação por meio de padrões opressores, em contradição ao nosso discurso. Tenho feito muito esforço para me aceitar do jeito que sou, sair de casa sem maquiagem, sem óculos… Aceitar-me feia e saber que não há nada errado nisso, que posso ser valorizada por muitas outras qualidades, como inteligência, senso de humor, generosidade, atitude, etc.

    Algo que tem me ajudado nesse intento é passar a admirar e me inspirar em mulheres que se destacam por outros atributos, que não a aparência, como intelectuais, cientistas, políticas e artistas.

  12. Algumas vezes eu me perguntei como eu poderia ser tão contraditória. Por mais que a gente seja inteligente, pensante e somos racionais sobre o assunto, derrapamos em algumas contradições. Sou super magrinha e desde pequena eu ouvia em casa que eu não tinha peitos. Cresci escutando isso e várias cicatrizes eu levei comigo. Hoje não me troco na frente de ninguém e nem da minha própria mãe, tive dificuldades em ter a minha primeira relação com um homem com medo dele se apavorar com a minha pequena quantidade de peitos. Hoje eu tento mensurar todo esse mal que eu cometi comigo mesma e por mais que eu saiba o quão isso é banal e errado eu ainda tenho dificuldade em aceitar meu corpo.

    A lavagem as vezes é tão grande que nós mesmas caímos nas armadilhas que odiamos!

  13. Mas a gordura é prejudicial a saúde, independente de qualquer coisa, a gordura desencadeia vários tipos de doenças, então devemos sim cuidar de nossa saúde, por isso que devemos emagrecer, não se deixando levar para o lado negativo de padrões de beleza, na minha opinião isso não é válido, devemos fazer aquilo que nos dá vontade, ter cabelo liso e outras coisas…não devemos radicalizar, lembrando que o preconceito parte de nós mesmos, querer mudar não significa que está sendo rebaixada, pelos padrões de beleza, pois cada um faz com seu corpo o que quiser, e lembrando que todos nós somos diferentes, o que pode ser feio para mim, pode ser bonito para outra, seja feliz e faça aquilo que der vontade, sempre haverá pessoas para te criticar, porque somos diferentes em tudo….

  14. Menina, que texto maravilhoso! me encontro na contradição tbm, pois ao mesmo tempo que sou empoderada nas questões do feminismo das “outras” eu tenho vergonha de meu corpo e ainda prefiro transar com à meia luz.. bem fraquinha se possível. Na minha cabeça, eu acho q homem nenhum vai se interessar por mim sendo gordinha. é triste!

  15. Muito bom o texto, tão real e presente em nosso cotidiano.
    Sou muito bem resolvida com meu corpo, meu cabelo e todo o conjunto que me forma, sempre fui magra, nunca passei por dietas, nunca me condenei a comer/provar alguma coisas que achei saborosa, faço graffiti há uns 10 anos, e sempre retratei a imagem de mulheres negras a partir do meu ponto de vista enquanto mulher negra, mas ultimamente esculto muito de muitas amigas feministas, que meus desenhos estão dentro do “padrão de beleza”, e até me chegam para perguntar se não quero “engordar alguns kilinhos”, acredito muito que aceitar seu corpo é algo fundamental, mas sem esquecer de respeitar o corpo da colega. Ser quem se é e deixar que as outras sejam quem querem ser. :)

  16. Gostei do post, sempre achei que contradição faz parte do ser gente, mas algumas são difíceis de entender…como falar da diversidade, do respeito às diferenças e no momento em que se acha fora de algum padrão se questiona, se nega, se julga feia???? Quem não passa por isso que se atire a primeira regra…