Basta de Transfobia no Feminismo!

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Hoje, começamos uma série de textos especiais como contribuição para a Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Trans: Basta de Transfobia! Uma parceria com as Blogueiras Negras, Transfeminismo e True Love.

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O Dia da Visibilidade Trans* existe para dar voz, identidade e cidadania às pessoas trans*, que vem a ser pessoas transexuais, transgêneros, travestis ou outras que não se identificam com a ideia normativa que temos de “masculino” e “feminino”. Qualquer pessoa que fuja aos padrões de nossa sociedade, especialmente dos binarismos, é totalmente excluída, sendo também alvo de violência e apagamento social. Pessoas trans* tem dificuldade para realizar atividades simples para a maioria da população, como ir a um banheiro público. Pessoas trans* precisam de legitimação médica para existirem civilmente. E esses são apenas alguns exemplos da imensa vulnerabilidade que essa população vive.

Em 29 de janeiro de 2004, foi lançada a primeira campanha institucional contra a transfobia no Brasil. A campanha “Travesti e Respeito”, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, foi a primeira campanha nacional idealizada e pensada por ativistas trans* para promoção do respeito e da cidadania. O Dia da Visibilidade Trans* tem o objetivo de ressaltar a importância da diversidade e respeito para com as pessoas trans*.

Transfobia é a discriminação contra pessoas trans*. É o tratamento desigual ou injusto dado a uma pessoa ou grupo, com base em preconceitos. Intencional ou não, sempre causa severas consequências para quem sofre a discriminação. A transfobia gera ódio e não se materializa apenas na violência e nos muitos assassinatos de pessoas trans*, que fazem do Brasil um dos países que mais mata pessoas trans* (95 dos 238 transexuais mortos no mundo no último ano moravam no país, segundo relatório da The Transgender Murder Monitoring Project 2013); também está presente na falta de acesso a serviços públicos, porque o Estado não reconhece sua identidade declarada, negando-lhes inúmeros direitos e fazendo com que essas pessoas vivam completamente à margem da sociedade, com acesso restrito a educação, saúde, trabalho, etc..

O grupo e o blog ‘Blogueiras Feministas’ é formado por pessoas feministas, em sua imensa maioria cisgêneras ou cissexuais. E dentro do feminismo há vários feminismos. Não podemos falar por todos os feminismos. Também não podemos dizer o que é feminismo e o que não é. Porém, achamos importante nos posicionar em relação ao feminismo transfóbico e cissexista.

Há algum tempo, recebemos notícias e vemos atitudes transfóbicas por parte de feministas, especialmente na internet. Esses atos vão desde perseguição virtual, por meio de denúncias em redes sociais, até grupos organizados internacionalmente que divulgam nomes de registro civil, promovem assassinatos de reputação e barram medidas antitransfobia em organismos internacionais que lutam por Direitos Humanos.

Posicionar-se dentro do feminismo é importante, pois mesmo dentro de um movimento social pode acontecer a violência. Ser feminista não é ser imune a reproduzir preconceitos. Acreditamos num feminismo crítico em que o debate de ideias aconteça, pois dessa forma talvez consigamos trilhar um feminismo em que cada vez menos pessoas marginalizadas sofram violência.

A intolerância frequentemente nasce do nosso medo e confusão sobre aqueles cujas identidades não entendemos. Nós temos medo que a diferença deles reflita na nossa semelhança e, na pressa de nos refugiar no conforto da conformidade, nós demonizamos a diferença. Progressistas quase sempre lamentam a intolerância oculta nas práticas e posições políticas dos partidários da direita, mas a triste verdade é que a intolerância existe até mesmo em espaços feministas. E, em nenhum outro caso isso é mais evidente do que na transfobia, tanto na latente quanto na explícita, que estão inseridos nas várias facetas do movimento feminista. Referência: Não há lugar para a transfobia no feminismo, texto de Lauren Rankin.

Se você procurar em nosso site, vai encontrar textos e comentários transfóbicos e cissexistas. Tivemos posicionamentos transfóbicos, pode ser que ainda tenhamos, mas estamos aprendendo junto com o transfeminismo sobre todas as violências que pessoas trans* passam. E que nós temos um papel fundamental para reproduzir ou impedir que atitudes violentas aconteçam dentro ou fora do feminismo.

Repudiamos esse feminismo que para ser uma “mulher de verdade” você tem que provar que tem uma vagina. Repudiamos o feminismo que fala que todos os homens são opressores, mas esquecem dos homens trans* que são violentados e não tem os mesmos privilégios que homens cis. Repudiamos o feminismo que ignora as demandas de mulheres trans, que sofrem também com o machismo e a misoginia

Nos posicionamos contra um feminismo que usa transfobia e cissexismo para lutar pelos direitos das mulheres. Não concordamos com um feminismo que afirma que todas as mulheres tem vagina e todos os homens tem pênis. Não compactuaremos com transfobia e cissexismo dentro ou fora do feminismo.

Glossário

Trans* – Usamos o asterisco na palavra ‘trans’ como um termo guarda-chuva. O termo ‘trans’ pode ser a abreviação de várias palavras que expressam diferentes identidades, como transexual, transgênero. Por isso, para evitar classificações que correm o risco de serem excludentes, o asterisco é adicionado ao final da palavra transformando o termo trans em um termo englobador que estaria incluindo qualquer identidade trans “embaixo do guarda-chuva”.

Cis/Cisgênera/Cissexual – Referem-se as pessoas que não são trans*. Pessoas que se identificam com o género que lhes foi determinado quando de seu nascimento. A tradicional pergunta: menino ou menina? Tem inúmeras consequências futuras para a identidade e cidadania das pessoas trans*. Esse termo foi criado para demarcar politicamente quem é trans* e quem não é, para visibilizar o cissexismo de nossa sociedade. Confira uma lista de “privilégios” da pessoa cisgênera.

Cissexismo/Cissexista – O cissexismo é a estrutura social que corrobora a discriminação de pessoas trans*. Cissexista são os atos e comportamentos diários que reforçam essa discriminação em uma sociedade ciscêntrica e cisnormativa. As relações de poder sociais excluem as demandas das pessoas trans*, negando-lhes poder de decisão e reforçam a heteronormatividade e o binarismo dos sexos.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

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