Mulheres são sempre vítimas?

Texto de Daniela Andrade.

Quanto a esses discursos teóricos de que as mulheres serão sempre vítimas da sociedade, jamais agentes de opressão, tenho a dizer que:

Minha mãe me bateu a vida inteira para eu virar homem, ela me expulsou de casa por eu ser mulher trans* — ela não tinha qualquer culpa disso?

Mulheres me arrancaram de dentro de um banheiro dizendo que eu não tinha direito de usá-lo pois eu não era mulher, quem teve culpa disso, eu?

Professoras durante a minha vida disseram que jamais iriam me tratar por Daniela na escola, inocentes, de certo!

Mulheres também me impediram de usar banheiros femininos durante 11 anos na escola, logo, desenvolvi incontinência urinária, quem teve culpa já que não foram elas?

Foram também mulheres que me xingaram de toda ordem de nomes pejorativos durante muito tempo pois eu me dizia mulher, Elas eram todas inocentes?

Foram mulheres com a profissão de psicólogas de Recursos Humanos que decidiram que eu não tinha o perfil para a vaga, após descobrirem que eu era uma mulher trans*, curioso, não?!

E no judiciário não há apenas homens, vi sentenças de juízas mulheres que escreveram toda sorte de transfobia e cissexismo para negar direito à mulheres e homens trans* terem a cidadania plena reconhecida pelo estado.

Essa história da mulher sempre vítima e jamais motor de qualquer opressão trata as mulheres todas como se fossem seres sem vontade, sem legitimidade, que nada sabem sobre a sociedade e as violências, sempre fracas demais, sem agência. Portanto, devemos nós que sofremos transfobia considerar que a transfobia é uma opressão imaterial, que não precisa de agentes para acontecer e se tiver algum agente, sempre deve ser apenas e tão somente o homem cisgênero.

Todas inocentes, mulheres jamais podem causar qualquer mal a ninguém. Que mundo fantástico seria um apenas com mulheres, nenhuma violência por certo existiria! Mulheres não são capazes de causarem violência racista, homofóbica, classista, transfóbica, gordofóbica, capacitista. É tudo culpa dos homens.

Em 1957, nos Estados Unidos, nove jovens negros  foram selecionados pela direção do principal colégio da cidade, o Central High School, para cumprir a ordem judicial de integração racial no país.  Foto de Will Counts.
Em 1957, nos Estados Unidos, nove jovens negros foram selecionados pela direção do principal colégio da cidade Little Rock, o Central High School, para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. Na imagem, a jovem negra Elizabeth Eckford é hostilizada por mulheres brancas. Foto de Will Counts.

Na hora de sermos agredidas com transfobia e cissexismo, naquele momento em que estamos tendo o respeito à nossa identidade de mulher negado, em que estamos sofrendo violências que nos deixam muitas vezes marcas profundas por muito tempo, não está importando qual a gênese daquela violência, se ela se deu início na Idade da Pedra Lascada, da Pedra Polida ou na Idade Média. O que me importa nesse momento é que uma pessoa, que por um acaso pode ser uma mulher cisgênera, está me desrespeitando e, inclusive, muitas vezes sabendo que está desrespeitando, discriminando pelo sabor de discriminar.

Eu sou feminista mas não sofro de cegueira intelectual. Sou a favor das mulheres mas jamais vou passar a mão na cabeça de mulheres que discriminam pessoas pertencentes à populações historicamente discriminadas e marginalizadas. Todas as vezes que eu me calo, a discriminação não deixa de existir, a violência não deixa de acontecer.

Eu não tenho qualquer problema com nenhum tipo de feminismo realmente libertador e includente, mas tenho todos os problemas do mundo com feminismos transfóbicos — pois eles fazem o que a sociedade inteirinha está fazendo: retirando o meu direito de ser pessoa, pois se eu quero ser tratada como mulher, se eu me reivindico como mulher, isso significa que a minha identidade de gênero faz parte da minha humanidade; e ter minha humanidade respeitada é ter a minha dignidade assegurada.

Não vou respeitar feminismos que me negam o respeito à minha individualidade, à minha dignidade, à minha humanidade.

Não estou isentando aqui as mulheres trans* e demais pessoas trans* dos erros que cometem, jamais corroborarei discursos que dizem que devemos combater mulheres, que devemos atacar mulheres, que devemos odiar mulheres. Mas farei tudo isso contra discursos que pregam ódio contra as mulheres trans*, que inflam e asseguram o combustível da transmisoginia dentro da sociedade.

Minha luta é contra a transfobia também, pois eu sei o que é a transfobia na minha carne, no meu cotidiano: parta de quem partir, venha de onde vier — ainda que camuflada dentro de supostos movimentos libertadores e emancipadores de pessoas oprimidas, movimentos esses que se acham muito corretos ao não pensarem duas vezes para colocar em curso a opressão e marginalização de outras populações oprimidas.

A pessoa que errou precisa ser advertida do seu erro, precisa se conscientizar que quem sofre a transfobia é que tem mais legitimidade e autoridade para anunciar que a transfobia está ocorrendo, e é preciso o respeito à essa pessoa. Transfobia não é violência menor, transfobia retira direitos muito básicos nossos todos os dias, como o direito a ter um nome respeitado. Transfobia mata pessoas, as empurra para o desemprego e para a prostituição, transforma pessoas em cidadãs de segunda classe.

E se a pessoa que errou é advertida e prefere continuar errando — não, não vou apoiar, não há qualquer chance de ter sororidade com quem escolheu a sororidade seletiva, com quem se acha no direito de decidir quem pode se dizer mulher ou não. Com quem tem ou não o selo cisgênero de qualidade para ter o direito de se dizer mulher.

Dizer que mulheres trans* não são mulheres não é divergência teórica, isso é violento, isso é cissexista, isso é discurso de ódio contra a dignidade de seres humanos.

Ninguém precisa ter lido livros de teóricos e teóricas para descobrir que o respeito à individualidade, à intimidade, à privacidade e a dignidade de cada ser humano são pressupostos básicos para que uma sociedade funcione de forma exitosa. Pessoas analfabetas conseguem entender o significado da palavra respeito.

E respeito não é uma escolha, não é você que decide como vai nos tratar para que nos sintamos respeitadas — se a mulher trans* não se sente respeitada sendo tratada como homem, como macho, como XY, RESPEITE! Se você deseja o mesmo respeito para você, coloque em curso o respeito às outras mulheres.

Autora

Daniela Andrade é uma mulher transexual que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou. Escreve em seu blog pessoal: Alegria Falhada. Administra a página: Transexualismo da Depressão.

Esse texto foi publicado originalmente em sua página pessoal do Facebook no dia 05/06/2014.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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