Mulheres nas apresentações de tecnologia

Texto de Anderson Peres com contribuições de Jussara Oliveira.

Dias atrás estava assistindo à tão esperada apresentação do iPhone 6/6+ e do AppleWatch. Acompanhei tudo em tempo real, vi cada um dos três produtos ser apresentado junto com tantos outros entusiastas de tecnologia, isso que fiz com o iPhone, fiz também com o Samsung Galaxy S5 e também para outros produtos de tecnologia como o Xbox One, Playstation 4, WiiU e tantos outros.

Pude perceber alguns padrões em todas essas apresentações. Primeiro, o requinte na escolha de suas exibições multimídia, enquanto uma começa a apresentação com orquestra, outra termina com um bom show de rock e, no meio disso tudo, ótimos gráficos e animações bem trabalhadas. O segundo padrão é a escolha de frases de impacto sempre muito bem aplicadas nos momentos mais apropriados. O terceiro é a exibição de tudo como se fossem incrivelmente únicos, valiosos e necessários. O quarto — e último — padrão foi a ausência de mulheres nas apresentações, vistas apenas nos videos dos consumidores ou então como modelos — como também é feito nas feiras de automóveis — que se apresentam com os produtos, apenas para “agradar aos olhos”.

Toda essa preparação se faz para atrair novos clientes, consumidores, usuários e até novos trabalhadores para as empresas… todos homens. A presença das mulheres nesses grupos é completamente ignorada. As modelos tem seu papel restrito a um item de decoração cujo objetivo é prender a atenção de olhares masculinos (heterossexuais).

No Afeganistão, um cibercafé foi criado apenas para receber mulheres. Foto de Mohammad Ismail/Reuters.
No Afeganistão, um cibercafé foi criado apenas para receber mulheres. Foto de Mohammad Ismail/Reuters.

Outro ponto a destacar é que, comumente, essas apresentações são feitas pelos gestores de cada departamento envolvido com aquilo que é exibido. Por exemplo: 1. Se falam do hardware de um produto, o gestor de engenharia fará a apresentação; 2. Se falam das novidades do software, o gestor de desenvolvimento fará a apresentação; e por ai vai. Tudo conduzido pelo gestor de marketing ou CEO/CTO da empresa, ou seja, possivelmente não há mulheres colaborando com a direção destas empresas já que elas não estão presentes nas suas apresentações — com raras exceções. Cenário que se espalha também aos seus fornecedores já que nVidia, Intel, Qualcomn, etc. também levam seus gestores para falar de suas novidades e inovações e, veja, mais homens brancos (exceto na condução do último Google I/O).

Vemos que essa exclusão digital das mulheres está instaurada em escala global se olharmos os países de origem dessas empresas, mas a segregação tecnológica começa bem antes dos mais altos postos de trabalho do mercado de TI, nasce nas faculdades, nos cursos técnicos e até mesmo na divisão de brinquedos das crianças. Tudo isso ligado à idéia — machista — de que mulher não é boa para exatas, que são melhores em humanas (sendo que mesmo nessas áreas têm dificuldades para ascensão profissional) ou que não precisam ou merecem o mesmo espaço que os homens no ambiente de trabalho.

Um claro exemplo de como isso ocorre se deu com a fala de Satya Badella, presidente da Microsoft, em uma das apresentações que tinha como objetivo celebrar a participação das mulheres na computação (às véspera do Ada Lovelace Day). Neste evento, ele afirmou que “Mulheres que não pedem aumentos salariais possuem “superpoderes” e aquelas que se submetem caladas a um cenário de defasagem salarial para seus colegas homens têm “karma bom” e são dignas de confiança”.

O que tudo isso leva a crer é que, ainda hoje, mesmo as mulheres tendo — aparentemente — conseguido mostrar que o sexo não faz diferença no ambiente de trabalho, ainda temos essas claras segregações e há áreas que as excluem continuamente.

Autor

Anderson Peres é um geek de plantão. 

+ Sobre o assunto:

[+] A diversidade interessa. Por Márcia Santos Almeida em Mulheres na tecnologia.

[+] Ada lovelace day: ou parem a violência de gênero dentro da área tecnológica. Por Gloria Celeste no LuluzinhaCamp.

[+] Tecnologia, uma área ainda pouco receptiva às mulheres.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.