Me lembro de quando era criança

Texto de Michiru Ann.

Me lembro de quando era criança.

Me lembro das piadas, das pessoas rejeitando meu comportamento feminino que se manifestou bem cedo, me lembro dos garotos — dentro e fora da família — me surrando por ser assim, me lembro dos abusos, me lembro da solidão, me lembro de cada trauma.

Quando pequena, o que eu mais queria era amor, mas não dos meus familiares, queria o amor das outras pessoas. Queria sentir como que era ser mutualmente amada por alguém. Mesmo não sabendo quem eu era ou o que eu era direito, acho que eu já tinha em mente que o amor não foi feito para crianças como eu, crianças transgêneras.

Fui crescendo e as coisas só pioravam, os abusos continuavam, fui agredida de todas as formas possíveis e não tinha ninguém a quem recorrer. A primeira pessoa na vida com quem eu pude realmente contar era eu mesma.

Para mudar minha realidade eu me tornei forte. Adquiri confiança e aprendi a amar minhas feridas. Foi assim que eu consegui morar em São Paulo e mudar a minha vida de vez. Mas antes disso as coisas não iam nada bem.

No primeiro ano do ensino médio tive a minha pior crise de identidade, eu não conseguia mais olhar pro meu corpo, pras minhas pernas, pros meus pelos, pro que tenho entre as pernas. Eu me sentia como a Pequena Sereia que tanto queria fazer parte de outro mundo, que já não via mais graça em suas barbatanas, que queria ter pernas para correr e dançar com gente que ela realmente se identificava.

Em uma das minhas crises eu rezei, acho que foi a minha primeira prece de verdade. Na época eu não tinha tanto contato com outras religiões, apenas as monoteístas. Nunca acreditei no Deus ‘cristão’ e se rezei, não foi para ele. Me lembro de não ter rezado para uma entidade específica, apenas rezei para que alguma “força do alem” ouvisse, porque eu estava tão desesperada que era só isso que me restava.

Rezei para que quando acordasse de novo, acordaria no corpo de uma menina.

Quando acordei, estava decepcionada porque olhava pro meu corpo e ele continuava o mesmo. Naquele dia eu tinha desistido de ser mulher. E com o transfeminismo essa ideia aflorou novamente.

Eu vejo que meu corpo não mudou em nada porque ele não precisava mudar, porque eu já tinha o corpo de uma menina, porque eu já era uma menina e sempre fui. E ninguém, repito, ninguém vai me dizer o contrário.

Foto de Cheryl no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Cheryl no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Ainda bem que no meio do ensino médio eu encontrei amigas que levaria para a vida toda, ganhei irmãs que não troco por nada. Depois, em São Paulo, ganhei uma mãe maravilhosa e com a militância mais e mais irmãs foram surgindo e me acolhendo. E quando digo ‘irmãs’ não digo por causa de um movimento ou de outro, e sim porque elas, vocês, são realmente minhas irmãs porque sou um reflexo de vocês e amo vocês como tal.

Sei que posso ter minhas crises em relação ao amor de todas as pessoas a minha volta e tenho muitas crises por causa da minha imagem também, mas eu finalmente tive a chance de ser feliz.

Quando eu olho pra trás, penso que a criança que um dia fui está orgulhosa de mim agora. Ela tinha finalmente realizado seu sonho: ser amada. Ser uma mulher linda e amada.

Feliz dia das crianças para a criança que eu um dia fui e para a criança que eu sempre serei.

Autora

Michiru Ann é mulher trans, bissexual e demissexual. Mãe dos gatos, futura professora e versão transgênera de Hermione Granger.