Feminista e negra, Jenyffer Nascimento estreia com ‘Terra Fértil’

Poeta lança obra pelo coletivo Mjiba, que fortalece publicações negras e femininas em São Paulo

Livro de poesias: “Terra Fértil” de Jenyffer Nascimento. Organizado pelo coletivo Mjiba.
Livro de poesias: “Terra Fértil” de Jenyffer Nascimento. Organizado pelo coletivo Mjiba.

Texto de Jéssica Balbino.

Nesta segunda-feira (10/11), a escritora negra e feminista Jenyffer Nascimento lança o livro de poesias “Terra Fértil”. Desafiando os padrões impostos, a poeta pernambucana fala sobre amor, cidade, diferenças sociais e orgulho da própria origem nas 170 páginas da obra que teve a organização de Carmen Faustino e Elizandra Souza,  o projeto gráfico de Nina Vieira e a ilustração de Lucimara Penaforte. O livro integra o Projeto Mjiba: Espalhando Sementes e  visa o fortalecimento da escrita negra e feminina e que teve inicio com o evento Mjiba em Ação e a antologia Pretextos de Mulheres Negras.

Para ela, ser negra, escritora e militante do feminismo no Brasil de 2014 é um desafio e Jenyffer se recorda de quando foi questionada, pela primeira vez, sobre quantas escritoras negras ela conhecia e já tinha lido. Na época, a resposta foi mínima: apenas duas ou três aprendidas no bê-a-bá do colonizador da escola. “Em casa eu nem sabia que era negra. Faz algum tempo que estou a buscar a minha própria história, aquela que não foi contada. Não quero a história que inviabiliza os negros, as mulheres, as mulheres negras. Não quero me reconhecer na história somente pelo viés do escravizado, subjugado.  Eu quero a história que me deixa protagonizar e não aquela que me faz querer negar minha origem, minha cor”, pontua.

Jenyffer Nascimento, autora de “Terra Fértil”. Foto de Chaia Dechen.

Pernambucana, a escritora nasceu em um dia quente de 1984 e teve contato com a poesia na adolescência, a partir do hip-hop. Desde 2007 frequenta os saraus da periferia paulistana e se considera “definitivamente arrebatada pela força transformadora da poesia”.

A inspiração vem das cenas vividas no cotidiano, especialmente as que envolvem machismo e racismo. “Trabalho em escola pública e vejo que o racismo continua se alastrando levando os alunos a negar e se envergonhar da própria identidade. Quem é negro, quer ser moreno. Quem é moreno, acha que é branco e se vê no direito de zoar os colegas.  Estamos em 2014 e tudo isso ainda acontece. Arcaico não?”, desafia.

Por isso, Jenyffer milita e escreve como forma de resistência, afim de protagonizar uma história diferente da que o opressor espera. “Precisamos desconstruir as mentiras que marcam nosso corpo e nossa autoestima, seja pelo estigma da pobreza, do racismo, machismo, homofobia, xenofobia, etc”, acrescenta.

‘Despedida’

É madrugada
Reviro de um lado pro outro
Eu sei bem o que me tira o sono.

Ouço vozes,
Num programa de TV
Gal e Caetano cantam
“Recanto Escuro”.

As evidências denunciam
Esse grampo colorido na penteadeira
Não parece em nada com os meus.

O leite estragado na geladeira
Previa o gosto da despedida.

A inevitável conversa acontece
Com justificativas vãs que toda mulher
Já deve ter ouvido centenas de vezes:
“Eu não queria que fosse desse jeito”
“Desculpa, se eu te magoei”
“Não fica assim, vai ficar tudo bem”
“Uma hora vai passar”.

Eu odeio frases feitas.
Disfarço aquela inevitável vontade de chorar
Por raiva, desprazer e ironia.

Até parece que o amor não deu.

Engraçado, você é cheio de manias.
Parece que é só no fim
Que nos damos conta de algumas coisas.
Senta sempre do mesmo lado do sofá
Só usa camisetas de cor clara e
Nunca esquece de apagar as luzes.

Eu vou sentir saudades
Das conversas filosóficas
Das discussões ideológicas
Das músicas bregas que você ouvia
E até do que eu mais reclamava
De levantar e fazer o café pra você.

Eu já tinha até escolhido
O seu presente de Natal.
Um livro do Galeano
E uma camiseta de Ogum pintada à mão
Que encomendei num ateliê em Olinda.

Eu vou e deixo pra trás
As incertezas das minhas poesias
Que sempre quiseram te devorar.

O começo se parece com o fim.

Quando nos olhamos e
Não nos reconhecemos.
Da porta pra dentro
Da porta pra fora.

Jenyffer Nascimento. Terra Fértil (Coletivo Mjiba, 2014).

Lançamento “Terra Fértil”

Dia 10 de novembro de 2014 (segunda-feira), a partir das 20h. Sarau do Binho – Espaço Clariô – Rua Santa Luzia,96. Taboão da Serra. Informações: coletivo.mjiba@gmail.com

Autora

Jéssica Balbino é jornalista.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.