Meu abusador é um parente, próximo de sangue e distante de vida

Aviso: Esse é um relato anônimo. Fala sobre abuso sexual e pode ser considerado muito forte para algumas pessoas. Optamos por publicá-lo por acreditar que isso é importante para quem nos enviou e porque esse é um assunto sobre o qual precisamos falar e dar voz as vítimas, por isso avisamos que ele pode ser muito difícil para algumas pessoas.

Foto de storrao no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de storrao no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Às vezes, é verdade o que dizem sobre amor e ódio: que entre eles há uma linha tênue, que talvez nem haja “entre” ambos. Os tais estão na minha práxis física e mental em relação a uma pessoa – digo uma pessoa, pois até agora só tive vida para analisar meus sentimentos por ela. Gosto de falar “pessoa” por ser palavra feminina e querer reforçar a minha (e de todas) existência e potência de mulher, mas, de fato, a pessoa a quem hei de me referir é um homem. Um menino, um homem, um bicho gente. A pessoa que amo e odeio, ou que simplesmente sinto esse algo que não se pode definir em um desses pólos (se existem pólos ou extremos), é meu abusador.

Meu abusador é um parente, próximo de sangue e distante de vida. Distante não geograficamente, mas de vida. Meu avô. Distante de mim, porque pessoas com temperamentos (e não personalidade) semelhantes não se dão bem, geralmente. Será triste se encararem isso como uma mera síndrome de Estolcomo ou coisa parecida. Uma pessoa não é uma coisa só. Até mesmo uma árvore não é uma coisa só, uma parte só, com uma só função. Portanto, aquele homem, é um avô, um amigo de alguém, um conselheiro de alguém, um jogador de poker, um mentiroso, um pacificador, um abusador. Eu prefiro crer que ele é apenas o meu abusador, que ninguém mais conheceu essa outra parte dele (tomara). Então, amo algumas coisas e odeio outras. Ninguém é como a Sininho (a da Peter Pan e não a anarquista) que só pode sentir um sentimento por inteiro de cada vez.

Quando essa pessoa começou a definhar de parkinson, senti uma certa culpa: tantas vezes desejei sua morte, ou mesmo imaginava executando-o, que o meu ódio parecia ter se materializado. É provável que a culpa de nunca contar a verdade à minha mãe tenha me levado a escrever isto. A minha culpa tem uma carga que eu não saberia mensurar: culpa de permitir que, quando criança, ele me tocasse; culpa de desejar a morte dele; culpa de desejar a minha morte; culpa por estar no slekline do que é certo ou errado e por ter demorado a perceber que tantas coisas pelas quais passei seriam diferentes, se eu não passasse por aquele acontecimento fatídico na infância. De forma involuntária, essa culpa faz de mim alguém com problemas que as pessoas devem ter que tolerar, e por elas precisarem me tolerar, sou inferior a elas.

Há um tipo contrato social insano, nunca dito, mas percebido. Apesar de saber que, aos 4 anos, não tive efetiva culpa no ocorrido, a culpa se entranhou em mim, porque alguém precisava sentí-la. Ao contrário de mim, meu avô é um exímio mentiroso. Teria sido um grande agente secreto, mas se tornou um grande jogador de poker. A situação na qual ele está é ainda pior, pois não sabemos discernir o que é mentira e o que é confusão por causa de sua doença. Muitas vezes acredito que é mentira, talvez por esperança de que ele esteja bem ou por não querer sentir mais piedade do que rancor e culpa.

Nos últimos anos, fui massacrada por filmes que contavam histórias de mulheres que sofreram abuso sexual na infância ou adolescência (ex. “Le nom des gens” e “Georgia Rule”) e por notícias de pedófilos sendo presos. Digo que fui massacrada, pois suscitaram lembranças do fato que jaziam na minha memória como lembrança de vida passada. O que se noticia é que abusadores são monstros. Seria mais fácil pensar assim, se a pessoa não fosse meu avô. Também seria mais fácil pensar assim se eu mesma não tivesse abusado de uma criança do mesmo sexo, quando era pré-adolescente, ainda que tenhamos encarado como uma consensual brincadeira proibida, naquele tempo e anos depois de crescidas. Há algum tempo, descobri um segredo de família: meu bisavô abusava sexualmente da irmã do meu avô. O que ninguém sabe, além de mim (por dedução), é que meu avô também sofreu abusos; e isso percebe-se por alguns outros acontecimentos e comportamentos dele, dentre eles o que fez a mim. É então que penso que ele não pode ser um monstro e nem eu, mas que merecemos sofrer.

O que me move a viver é que esse não é o único aspecto da minha vida e não é minha história única. Sou movida por saber e sentir: que sou amada e amo as pessoas da minha vida; que fiz e faço pessoas felizes; que realizei muitas coisas boas. Tenho em mim inúmeras luzes em contraste a este pequeno ponto tão sombrio, que teimo em enxergá-lo como um buraco negro capaz de tragar tudo, às vezes.