Elizabeth, Terezinha, Eduardo e a morte no Complexo do Alemão

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Em 2007, faltando um mês para o início dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, uma operação no complexo do Alemão reuniu 1.350 policiais, entre civis, militares e soldados da Força Nacional. O saldo foram dezenove pessoas mortas. Treze dos corpos foram recolhidos pela própria polícia, outros seis foram deixados à noite numa van em frente uma delegacia. O evento, que tem verbete na Wikipédia mas não nos livros de História, ficou conhecido como o Massacre no Complexo do Alemão.

Infelizmente, não são os moradores do complexo do Alemão quem detém o poder da mídia para contar suas narrativas. Eles sabem de outros episódios como esse. Eles sabem que no Brasil as pessoas e as autoridades negam o extermínio da juventude negra em prol do discurso da guerra contra as drogas. Eles sabem que seus mortos não tem nomes, porque são mortos pelo Estado que seletivamente escolhe a quem protege. Eles sabem que também há policiais que morrem toda semana nessa mítica guerra chamada política de segurança pública.

Na quarta-feira, as manchetes diziam: “Mulher baleada dentro de casa no Alemão”, “Corpo de mulher morta por bala perdida no Alemão”, “Marido de mulher morta no Alemão dá entrevista”. O nome dessa mulher é Elizabeth Alves, 41 anos. Ela foi morta dentro de casa por uma bala perdida. Sua filha, Maynara também foi atingida, mas sobreviveu. Carlos Roberto Moura, viúvo de Elizabeth, afirmou que o momento é de muita dor. “Para a minha família, com uma menina de 14, outro menino e um de seis anos, está mais complicado ainda. A Maynara é vítima duas vezes, por ter perdido a mãe e por ter tomado um tiro no braço”, afirmou, muito emocionado.

É importante para quem se destina a notícia que Elizabeth seja apenas mais um corpo, mais uma mulher morta, sem nome, sem história, sem sonhos. Elizabeth é mais um número para as tantas pessoas, como nós, que abrem diariamente os portais de notícias e vêem ao lado de sua morte, informações sobre futebol, relacionamentos de celebridades, etc. É mais uma notícia trivial. A morte de uma pessoa é apenas mais um número, não motivo de indignação. Afinal, lá no fundo, ecoam vozes que dizem: “se morava numa favela, nunca se sabe o que realmente estava fazendo ali”. Os “cidadãos de bem” sempre sabem se reconhecer pelo CEP que o Estado lhes garante.

Na quinta-feira, Terezinha Maria de Jesus tornou-se “a mãe do menino morto no Alemão”. Diarista de 40 anos, viu seu filho Eduardo, 10 anos, ser morto na porta de casa. “Eu marquei a cara dele. Eu nunca vou esquecer o rosto do PM que acabou com a minha vida. Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’”, contou.

Terezinha Maria de Jesus mostra a foto do filho Eduardo. Morto no dia 02/04/2015 durante uma ação policial no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Foto de Renato Moura/El País.
Terezinha Maria de Jesus mostra a foto do filho Eduardo. Morto no dia 02/04/2015 durante uma ação policial no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Foto de Renato Moura/El País.

Vivemos tempos sombrios em que a morte de uma criança em frente sua casa não é um ato intolerável, pois as narrativas invadem nossas percepções. Para cada tweet saído de dentro do complexo do Alemão pelo jornal Voz da Comunidade, temos milhares de compartilhamentos no Whatsapp de fotos em que um jovem, que aparenta ter idade próxima a de Eduardo, segura um fuzil. Pessoas que estão há quilômetros relativizam a morte de Eduardo por meio dessas imagens. Pessoas que nunca terão a polícia arrombando suas casas sem mandatos judiciais relativizam a morte de uma criança de 10 anos porque ela é moradora do Complexo do Alemão.

A narrativa da guerra contra as drogas e o tráfico combatem um inimigo sem rosto. Porém, sabe-se quem deve morrer. Já que não temos mais divulgados os nomes dos traficantes procurados em ações policiais, o inimigo pode ser qualquer um. E, se por um “acaso” alguém morre, foi um dano colateral da guerra. Afinal, todas as ações dessa guerra visam coibir o mítico tráfico de drogas no futuro, é o que nos dizem as autoridades em suas notas burocráticas de lamento.

Os moradores do Complexo do Alemão vivem o cotidiano da “pacificação”. Vivem à margem da sociedade. Não tem direitos assegurados e mesmo assim há pessoas que os questionam o tempo inteiro sobre suas relações com o tráfico de drogas, porque a narrativa da guerra contra o tráfico é mais forte e real nas imagens da mídia do que a morte das pessoas pelas mãos do Estado. A morte de Claudia Ferreira da Silva, conhecida nas manchetes como “a arrastada”, completou um ano. Amarildo? Até quando perguntar?

Na semana em que a admissibilidade da redução da maioridade penal é aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, temos a pena de morte para uma criança de 10 anos. Eduardo será lembrado como um símbolo da luta contra a impunidade do Estado?

Estimativa do Unicef, indica que apenas cerca de 1% dos homicídios registrados no país é cometido por adolescentes entre 16 e 17 anos. Em números absolutos, isso equivaleria a algo em torno de 500 casos por ano — o total de homicídios registrado no país em 2012, ano base das estimativas, foi de 56.337. De acordo com o Mapa da Violência 2014, durante o período de 1980 a 2011 foram mortos 20.852 jovens negros, um número três vezes maior que o número de homicídios de jovens brancos. Essa é nossa realidade. Para os jovens negros a morte ou o cárcere. Afinal, nesse momento há um “cidadão de bem” proferindo que o racismo não existe no Brasil. A solução é “reocupar o Alemão” com policiais recém-formados, sem experiência e o discurso de que “quem não está conosco, está contra nós”.

Elizabeth e Terezinha são mulheres que tiveram suas vidas destruídas pelo Estado. Um Estado que é seletivo, racista e excludente, mas que também é resultado de uma sociedade que enxerga na polícia, na punição e no extermínio a solução para seus medos. Consequentemente, nossa empatia é seletiva. Não enxergamos em Elizabeth, Eduardo ou nos policiais um de nós, mas sim um outro. Não assumimos ser o Estado que mata e também não assumimos a responsabilidade pela morte de uma pessoa. Somos alheios, distantes e momentâneos. Aí está o pior de nossa sociedade e de nós mesmos.

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Vídeo – Moradores do Alemão realizam protesto, Canal Papo Reto.

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Autor: Blogueiras Feministas

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