Feministas ameaçadas

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

A violência contra as mulheres tem diversas formas. E, sendo estrutural, essa violência muitas vezes é dirigida a qualquer mulher que ouse criticar ou assumir uma posição diferente do que a sociedade machista espera. Uma das piores faces são as ameaças, difamações e xingamentos que diariamente encontramos em comentários na internet, especialmente dirigidos a mulheres feministas.

Alguns dias atrás, Lola Aronovich foi difamada por meio de um tweet falso compartilhado rapidamente. Uma falsificação grosseira mas que mostra o quanto há pessoas dispostas a trabalhar apenas para incitar o ódio. Lola já denunciou reiteradamente inúmeras ameaças que sofre, além de fazer registros policiais.

No início do ano, Ana Freitas do Brasil Post falou sobre as absurdas ameaças que recebeu por escrever um texto criticando o machismo em ambientes de fóruns na internet. Ameaçaram não apenas ela, mas também sua família.

Tanto Lola como Ana e tantas outras mulheres feministas tiveram dados pessoais expostos como telefone, endereço, fotos, vídeos, local de trabalho, faculdade, etc. Muitas vezes o objetivo final é que elas sumam ou até mesmo cometam suicídio. Perfis falsos são criados, emails com ameaças e imagens pornográficas chegam diariamente, encomendas com fezes e outros materiais são enviadas. Geralmente o que assusta não é tanto o ato em si, mas a quantidade absurda de ódio recebido, além da perseguição. Grupos misóginos agem como gangues violentas e costumam se esconder no anonimato da internet.

Ato pelo Dia Internacional da Mulher na praça da Sé, região central de São Paulo. Foto de Elisa Rodrigues/Futurapress/AE.
Ato pelo Dia Internacional da Mulher na praça da Sé, região central de São Paulo. Foto de Elisa Rodrigues/Futurapress/AE.

Nos Estados Unidos, o caso GamerGate expôs a guerra contra as mulheres dentro do universo dos videogames, em que programadoras, jornalistas, desenvolvedoras, críticas e atrizes recebem ameaças de estupro e morte. O que as fez tornarem-se alvo foi o desejo de mudar a imagem das mulheres nos jogos. E, tudo começou por meio de uma história bem conhecida de muitas mulheres, um homem não aceitou bem o fim de um relacionamento, no caso um ex-namorado da desenvolvedora Zoe Quinn.

Esse tipo de ameaça muito pesada geralmente é feita a feministas que ganham algum destaque e muitas vezes o objetivo é que elas sejam usadas para assustar e intimidar outras militantes. Isso nós não podemos deixar acontecer. É preciso apoiá-las em suas denuncias, é preciso pressionar os sites que hospedam e dão cobertura a conteúdo misógino para que não sejam coniventes, é preciso criarmos novas maneiras de resistir.

Infelizmente, dentro do próprio movimento feminista também é possível encontrar exemplos de intolerância. Há casos de feministas negras que não foram respeitadas em suas reivindicações de combate ao racismo, que são chamadas de “exageradas” e de “reclamarem de tudo”. Há grupos feministas que excluem mulheres trans*, expõe seus nomes de registro civil e identidades para afastá-las da militância. Esse tipo de tática é inclusive apoiada por feministas famosas mundialmente como a australiana Germaine Greer.

Acreditamos que a tática do ódio e da ameaça não pode ser uma prática do feminismo, mesmo contra homens notoriamente agressores. Se buscam nos calar porque ousamos resistir é preciso procurar maneiras de combater o machismo dentro das próprias instituições que o abrigam, mas sabemos que esse não pode ser o único caminho. Acreditamos que uma das soluções é buscar criar ações em conjunto, porém, o primeiro passo é declarar nosso apoio a quem é ameaçada e contribuir nas barricadas da resistência.