A alma do negócio

Texto de Bárbara Lopes.

“Somos capazes de ser tão inteligentes ou estúpidos quanto o mundo quiser que realmente sejamos”.

A frase está no romance Pastelão, do Kurt Vonnegut, numa carta que o narrador e sua irmã, ainda crianças, mandam a seus pais. Crianças são assim: têm uma sensibilidade e uma percepção enormes para descobrir o que o mundo espera delas e se esforçam para se adaptar e se transformar exatamente nisso.

Uma das maneiras como o mundo diz às crianças o que quer que elas sejam é através da publicidade. Tem um vídeo muito bacana mostrando como são diferentes as propagandas de brinquedo para meninas e meninos. Para meninas, são valorizados cuidados domésticos, beleza e popularidade. Para meninos, competição, poder e criatividade. (O vídeo está em inglês, mas aqui tem a tradução do Google pra transcrição; meio tosca, mas dá pro gasto). A conclusão do vídeo, com qual eu concordo, é que a publicidade para crianças deve ser proibida ou, pelo menos, altamente regulada.

A maneira como esses estereótipos de gênero limitam as possibilidades das crianças fica clara no vídeo. Mas eu fiquei pensando em outro aspecto. Nós vivemos uma matança de meninos. Um estudo da UNICEF, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência mostra que o índice de adolescentes assassinados é altíssimo e que a maior parte das mortes é por arma de fogo. Meninos tem risco 12 vezes maior que meninas e negros 2,6 mais que brancos.

Não dá pra simplificar o problema, que inclui uma série de outras questões – racismo, acesso fácil a armas, violência policial são algumas. Não é uma relação direta, de acreditar que uma imagem, sozinha, é culpada por toda a violência. Mas propagandas e preconceitos não são inocentes nessa história, são o mundo dizendo que quer que meninas sejam bonitas e meninos lutem. Quando isso se junta com outras condições, o resultado é explosivo.

A gente pode querer bem melhor.

Autora

Bárbara Lopes é lépida e fagueira.