Por uma escola onde se aprenda justiça

Texto de Deh Capella.

Aviso importante: o post abaixo contém doses altas de pessimismo e é muito, muito baseado em experiências bastante individuais. Eu sei que existem casos de sucesso, casos positivos. Mas acho que eles não predominam, sinto muito. Em todo caso vou ficar feliz em poder debater o assunto.

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Mais algumas semanas e o ano letivo começa. Os noticiários vão fazer as reportagens costumeiras sobre o tumulto da volta às aulas, o trânsito, o material escolar, as crianças e jovens vão retornar às salas de aula com aquela expectativa legal ou a ansiedade que antecede a chegada a um ambiente desagradável onde se cumprem obrigações sofridas, alguns professores vão suspirar e se resignar a cumprir mais um ano pra chegar à sonhada aposentadoria e outros vão arregaçar mangas e aproveitar pra colocar projetos em prática, animados, esperançosos. Mais um ano letivo vai começar.

Qual será a escola que os estudantes do país vão encontrar em 2011? Os cadeirantes vão encontrar caminhos desimpedidos e acesso facilitado às instalações, os alunos portadores de quaisquer outras necessidades vão conhecer profissionais preparados para acolhê-los e atendê-los? Os alunos que sofrem bullying e os que vêm de ambientes problemático, os que são jogados no grande balaio da “indisciplina”, o que terão pela frente? E os alunos e alunas homossexuais, como será a escola deles em 2011? O que as famílias desse pessoal todo vão encontrar na escola?

Eu queria ser mais otimista e pensar coisas boas, pensar em esforços conjuntos de toda a comunidade escolar, em boa vontade e compromisso de todos os lados – famílias, poder público, equipe escolar, alunos – e queria crer que as notícias cada vez mais comuns envolvendo violência contra homossexuais e mulheres, racismo, desrespeito a direitos de portadores de necessidades especiais e intolerância em relação à diferença tivessem impacto de forma a fazer com que as pessoas passassem a reavaliar ideias, atitudes e práticas em âmbito pessoal e profissional.

Cena do filme ‘Entre os muros da escola’ (2008).

Infelizmente não foi bem isso que vi enquanto trabalhei em escola. Pra minha surpresa, apesar de o currículo seguido incluir temas como “respeito à diversidade”, “solidariedade”, “ética” e outros, cansei de ouvir colegas fazendo piadas sobre alunos homossexuais ou manifestando seu medo com “a quantidade desse povo que tá aparecendo”. Assim, na lata, zero pudores. Assisti a um monte de episódios de malhação de judas encarnados em meninas de 12 ou 13 anos fortemente sexualizadas: todo mundo tacava uma pedra desgraçada nas “biscates”, mas foram raras as vezes em que eu presenciei o mesmo nível de crítica aos meninos de mesma idade com as mesmas atitudes. “Palavrão na boca de menina é feio”, “o seu caderno nem parece de moça”, “essa aí dá pra todo mundo”, mas os meninos estavam lá passando batido. Não vou nem falar dos casos de gravidez de adolescentes – a ênfase recaindo sobre a menina e sua responsabilidade em primeiro lugar.

O racismo na escola já me pareceu bem mais sutil, surgindo nos pequenos detalhes, na vitimização d@ alun@ negr@ ou na sua invisibilidade, na inexistência de abordagens de valorização do negro e na pouca promoção de exemplos com os quais o alunado possa se identificar – talvez porque haja historicamente um pouco (pouquinho, mas existe) mais de atenção a essa questão. Conheci uma aluna que precisava ser carregada no colo para chegar à sala de aula ou ao banheiro ou a qualquer outro canto onde precisasse ir na escola, e se ela voltasse lá agora passaria exatamente pelos mesmos problemas.

Não recebi qualquer treinamento ou orientação para lidar com alunos cegos, surdos, com qualquer tipo de deficiência mental, não participei de oficinas sobre sexualidade, a questão de gênero jamais foi abordada. As duas únicas iniciativas vindas dos superiores foram um curso sobre valorização da cultura afro-brasileira e uma palestra, já no fim do ano, de uma psicóloga, parente de uma professora, que se voluntariou para falar sobre homossexualidade ao corpo docente e para coordenar um grupo de estudos no ano seguinte. Lembro de presenciar manifestações indignadas de colegas.

Escola é microcosmos. Uma das formas de pensar o ótimo filme ‘Entre os muros da escola‘ é justamente como representação de uma sociedade, e não só do ambiente escolar por si só. Os conflitos que se desenvolvem ali e as reações dos indivíduos são os mesmos que as pessoas enfrentam no ambiente externo à escola. Se a criança vem de um ambiente violento é provável que sua reação na escola reflita as situações que vivencia; o professor homofóbico não vai deixar de lado sua atitude ao conviver com alunos homossexuais em seu local de trabalho. Mas a escola é palco de outras tensões e enfrentamentos, e conflitos são potencializados justamente onde deviam ser atenuados. A injustiça acaba muitas vezes se instalando e se consolidando justamente onde devia começar a ser pensada, diluída, e de onde sua clientela devia levar exemplos que a ajudasse a modificar o mundo “de fora”.

Fico pensando também se as escolas particulares não estariam menos vulneráveis ao desrespeito, ao preconceito, por serem mais vulneráveis às reclamações das famílias “clientes”, enquanto a falta de participação das famílias no cotidiano das escolas públicas acaba as tornando um pouco “terra de ninguém”. Por outro lado penso que o machismo, o preconceito, a violência, a ignorância e a homofobia não dependem de estrato social, de renda.

Uma latinha de cerveja depois suspiro e penso que, se a Educação tem o poder de mudar vidas e mudar uma sociedade, a primeira coisa a ser feita deveria ser mudar a escola como a conhecemos.