As avós e minhas memórias proustianas

Texto de Mari Moscou.

João Garcia era filho de escravos. Isabel era filha de pequenos comerciantes espanhóis da zona rural da cidade de São Paulo (da época em que isso existia em grandes proporções). Ela branca, ele negro. Formaram uma família e trabahavam em suas pequenas terras para ter o que comer, o que vender (mas não muito) e o que trocar. Era uma família pobre de alguns irmãos e uma irmã, Zulmira.

Aliviando o peso de mais uma boca para alimentar para a família, aos 14 anos, Zulmira aceitou uma proposta de emprego como babá de uma família rica em São Paulo. Seu pai a emancipou e ela foi morar com esta família. Alguns anos depois a bela, branquinha, magra e alta mulher-violão recebeu uma proposta para trabalhar como modelo. Sozinha como era, embarcou na profissão. De repente uma proposta nova: a televisão que estava em seu auge de glória dos programas gravados e ao vivo, nos final dos anos 50. Mudou-se para o Rio onde conheceu seu primeiro marido, que trabalhava na TV e se converteu a uma nova religião para casar com ela. Pouco tempo depois engravidou, saiu do trabalho na TV e passou a cuidar do filho, que também se chamou João.

Durante o segundo ano de vida de Joãozinho uma fotografia da jovem família publicada em revista de circulação nacional (Caras da época, só não me lembro qual foi) causa escândalo ao revelar que Simão, pai de Joãozinho, tinha outra família já com dois filhos mais velhos no sul do Brasil. Num ato de bravura, Zulmira decide assumir o peso de ser mãe solteira, sobretudo em solidariedade à primeira mulher de Simão, que nada tinha de culpa no cartório e não podia criar dois filhos sozinha. Pelo menos o dela era um só.

João não conheceu o pai. Zulmira casou-se mais quatro vezes na vida e teve mais um filho que chamou de José. Zé. Zezinho. Não teve filhas mulheres. Por isso quando eu crescia ela me acompanhava de perto praticamente todos os dias. Foi com minha avó que tive conversas incríveis sobre namorados, paqueras, sexo, casamento, gravidez… Minha avó me deu um colar de pérolas legítimo, sua última jóia, que ganhara da mãe após se emancipar. Fui sua primeira neta. Foi ela quem me deu um pequeno enxoval de louças, toalhas, leçóis, quando eu entrei na universidade e fui morar pela primeira vez fora de casa, em Campinas. A neta aqui em plena juventude de galinhagem e o câncer descoberto, ela (se é que não sabia) ao menos desconfiava que não viveria para ver meu casamento.

Me caso em Março. Passamos as últimas duas semanas montando o que temos da casa. Anteontem eu trouxe meus enxovaizinhos de solteira, tão queridos, que estavam guardados com minha mãe.

Hoje, assim, desastradamente, quebrei um prato. Um pires e um prato. De todos os pratos e pires, derrubei com as mãos molhadas e um tequinho de desatenção, o prato que acompanhava a xícara gigante e amarela, cheio de flores amarelas, que minha avó me deu sabendo que logo morreria. Fiquei estarrecida na cozinha e meu amor foi varrendo os caquinhos. Eu não me lembrava da história do prato. Foi só quando olhei pra ele que entendi meu estarrecer.

E desabei.

Fiz o almoço chorando incontrolavelmente e sem ter de fingir que era a cebola que eu cortava. Macarrão com linguiça de frango. Meu amor me abraçou e ficou assim comigo enquanto a água evaporava devagar. Mais salgada que a água do macarrão só minhas lágrimas jorrando desesperadas de saudades da minha avó. De saber que, de todos os momentos da minha vida, um que ela aguardava com ansiedade ela já perdeu.

Antes dela morrer passei uma tarde no quarto dela sozinha. Entre confissões de medo da morte e desejo de morrer para encerrar a dor, já muito doente, ela me contou com detalhes diversas passagens da sua vida que até então pareciam meio obscuras pra todo mundo. Pois sabia que morreria logo e que as histórias não poderiam parar ali com ela.

Enquanto eu puder contar a história da minha avó, ela vive. Quero contar essa história em cada dia da minha vida.

Zulmira foi minha heroína.