Gravidez Indesejada

Texto de Mari Moscou.

Nas últimas duas semanas tudo que é relacionado a aborto, gravidez e anticoncepcional parece de certa forma ter emergido com força, tanto na nossa lista de discussão quanto em meu querido bloguinho. Aí me toquei de um assunto que tem a ver com o feminismo das palavras.

Feminismo das palavras é a noção crítica que temos, nós feministas, assim como militantes de outro movimentos sociais, de que as palavras que escolhemos para expressar o que pensamos têm significado, têm história, têm sentido. Desta forma, escolher uma determinada palavra entre muitas para designar um fato, característica ou sentimento automaticamente nos alia a certas formas de pensar e nos afasta de outras.

Estava escrevendo um post pro meu blog a partir de uma discussão aqui do grupo, sobre fatores que diminuem a eficácia da pílula anticoncepcional e como além de ninguém disseminar essa informação entre mulheres, nós ainda somos culpabilizadas se engravidamos mesmo que tenhamos tomado o anticoncepcional direitinho e que seja necessário um espermatozóide pra concluir o procedimento. Mas enfim, o fato é que durante a revisão do post fui escrever “gravidez não-planejada”e falei: pe-pe-pe-pe-peraí! Não é “não-planejada”, é indesejada! e comecei a perceber algumas coisinhas. Estas reflexões vieram daí.

Quando eu era adolescente sempre ouvi falar em gravidez indesejada. “Gravidez indesejada” para cá, “gravidez indesejada para lá”. Quando fiquei mais velha parece que todos os discursos trocaram o adjetivo “indesejada” por “não-planejada”, como se simplesmente por ter ficado mais velha a gravidez já não pudesse mais ser indesejada.

Ora pipocas, se eu não planejo naquele momento X da minha vida ficar grávida, é porque naquele momento uma gravidez é indesejada, ué! E mesmo que eu opte por não descontinuá-la (e para muita gente isso nem é opção, dada a educação religiosa ou o medo de ir para cadeia ou a falta de condições financeiras) naquele exato momento em que eu não planejava ficar grávida e fiquei ela foi indesejada. Ponto.

Quer dizer, uma coisa não é sinônimo nem correspondente direta da outra. São duas noções diferentes, ainda que caminhem juntas em certo momento para algumas (ou muitas) pessoas. O que incomoda é ver como as pessoas relutam em aceitar que uma gravidez muitas vezes é, sim, indesejada. Como se não fosse possível uma mulher não desejar uma gravidez.

E vocês, já se pegaram refletindo sobre o que significa usar um certo termo a que estamos super acostumadas?