A publicidade de latas e corpos

Texto de Carol Fontes.

A Barbara Lopes trouxe para a lista de discussão a latinha de Pepsi lançada na Mercedes-Benz Fashion Week. De início achamos o formato e o rótulo bonitos e criativos, a graça só acaba quando lemos o conceito de refrigerante magro:

Na celebração da mulher bela e confiante, a Diet Pepsi apresenta sua mais alta e fashion lata nova, a Skinny (“magra”) no Fashion Week Mercedes-Benz de Outono de 2011, em Nova York, do dia 10 ao dia 17 de fevereiro. A Nova Pepsi Diet Skinny, disponível aos consumidores a partir de  Março, lançará uma série de celebrações e eventos de moda, incluindo uma instalação de arte realizada pelo comentarista de moda, Simon Doonan, com colaborações das aclamadas designers, Charlotte Ronson e Betsey Johnson….Nossa lata nova e esbelta é o complemento perfeito para os looks mais estilosos dos dias de hoje , e estamos empolgados em lançar sua festa de estréia durante a maior celebração de inovação no design de todo o mundo.

Eles estão celebrando a beleza e confiança das mulheres com latas “magras”? A ideia de “só as magras são felizes” soa familiar? Nos fazer sentir que somos feias e gordas não é nenhuma novidade para o mercado publicitário, eles vivem disso, mas a contradição dentro deste anúncio é quase piada! Nós somos as rainhas da dieta e não existe mulher que não conheça os males do refrigerante. E uma empresa deste produto quer nos convencer que, com a Diet Pepsi Skinny, não ficaremos gordas e com celulites, mas sim belas, magras e confiantes? Estão abusando um pouco de nossa inteligência.

Em contrapartida, temos a lata do Leite Moça e seu formato anatômico. A Nestlé lançou este formato em 2004 como homenagem as mulheres e o conceito de que: “Toda forma de amar vale a pena. Toda forma de amar faz bem”, juntamente com um poema:

Toda forma de amar vale a pena. Não se preocupe com a sua.

Deve ser por isso que existe amor que nasce meio quadrado, meio sem querer.

Que existe triângulo amoroso e amores que andam em círculos.

Porque o amor, não importa a forma, tem o privilégio da juventude.

Amor, não envelhece com a gente. Nunca muda.

Nem na essência e muito menos na alma.

O que às vezes muda é só a forma de amar.

Mas de amar, o amor de sempre.

Nova lata de Moça. Nossa nova forma de amar você.

É? o amor faz maravilhas e como faz bem.

Além de entender que o produto tem consumidoras dos mais diversos tipos, a maioria se sentirá contemplada — o biotipo brasileiro é curvilíneo, independente de ser mais ou menos magra — a campanha não tenta vender o que não pode oferecer, seria quase ofensivo que um dos ingredientes principais das mais calóricas receitas nos enganasse dessa forma!

Isso tudo acabou me lembrando do quanto a magrocracia é machista, não só pelo motivo óbvio de restringir nossos corpos, mas de querer tornar as mulheres responsáveis pela magreza de toda a família.

De acordo com pesquisadores da American University, Cornell University e University of Chicago o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) de crianças entre 11 e 12 anos tem relação com a ocupação de suas mães. Os filhos de mulheres que trabalham meio expediente ou o dia todo tem seis vezes mais propensão a sobrepeso ou obesidade nesta faixa etária. Ou seja, nós somos descuidadas com nossos corpos e com os de nossos filhos também!

Se desistíssemos dessa bobagem de disputar o mercado de trabalho com os homens teríamos muito mais tempo para comidas saudáveis e crianças mais sadias. E nem pensem em perguntar por que o pai não está incluído na pesquisa, é óbvio que situações relacionadas à família são responsabilidades da mulher, o homem já tem muito com o que se preocupar no trabalho!