A poetisa dos inconfidentes

Texto de Barbara Manoela.

Barbara Heliodora. Imagem: Wikimedia Commons.

Tinha pensado em escrever um texto falando sobre algumas poetisas. Imaginei que fosse interessante compreender como elas, enquanto mulheres e poetisas, lidavam com suas perdas e dores… Porém, devo dizer que Barbara Heliodora foi uma mulher à frente do seu tempo.

Quando criança, minha avó leu a história dela para mim e me apaixonei por aquela mulher forte e inteligente, que trazia o mesmo nome que o meu. De algum modo, sabia que ela era uma mulher à frente do seu tempo: ousada, valente, determinada. Barbara Heliodosa Guilhermina da Silveira foi uma poetisa brasileira, casada com um dos Inconfidentes, Alvarenga Peixoto, também poeta.

Para começar, Barbara e Alvarenga viveram juntos durante algum tempo, atitude por si só absolutamente transgressora para o século 18. E só casaram (por uma portaria do Bispo de Mariana) em 1781, quando a filha mais velha do casal, Maria Ifigênia, estava com 3 anos de idade.

Alvarenga Peixoto foi  preso em 1789, levado para a fortaleza da Ilha das Cobras e depois para a África, onde morreu. Na prisão, escreveu um de seus mais belos e conhecidos poemas: Barbara Bela, que fala sobre a dor e a saudade da companheira.

Bárbara Bela (por Alvarenga Peixoto)

Bárbara bela,

Do norte estrela,

Que o meu destino

Sabes guiar,

De ti ausente,

Triste, somente

As horas passo

A suspirar.

Por entre as penhas

De incultas brenhas,

Cansa-me a vista

De te buscar;

Porém não vejo

Mais que o desejo

Sem esperança

De te encontrar.

Eu bem queria

A noite e o dia

Sempre contigo

Poder passar;

Mas orgulhosa

Sorte invejosa

Desta fortuna

Me quer privar.

Tu, entre os braços,

Ternos abraços

Da filha amada

Podes gozar;

Priva-me a estrela

De ti e dela,

Busca dois modos

De me matar!

Bárbara participou ativamente do movimento Inconfidente, apoiando o marido em todos os momentos. Segundo Aureliano Leite, no livro “A Vida Heróica de Barbara Heliodora”, a presença de Bárbara foi fundamental na vida de Alvarenga Peixoto:

…Ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalento o seu sonho da inconfidência do Brasil…quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade fez com que a posteridade lhe desse tratamento de Harmonia da Inconfidência.

Durante muito tempo, Bárbara foi retratada, em livros de história inclusive, como demente louca, que andava esfarrapada pelas ruas de São João Del Rei falando bobagens e loucuras. Neste século alguns escritores como Aureliano Leite, lutaram para resgatar a verdade de sua vida. Leite afirmava que Bárbara viveu seus últimos vinte e tantos anos em perfeito juízo, nesse período cuidou dos negócios da família, foi admitida da ordem 3a. do Carmo, de São João Del Rei e morreu em São Gonçalo do Sapucaí, aos 60 anos, vitima de tuberculose: “A uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa”.

Para Aureliano Leite, houve uma criação em torno da figura de Eliodora. Lendas que escondem dos brasileiros a verdade e que são desmentidas em palavras como a do escritor Uruguaio Rodrigues Fabregat, que qualifica Bárbara Eliodora de Mulher do Novo Mundo, colocando-a entre as mães da epopéia do Novo Mundo:

…e esta outra, também de sua carne vem, grande e profética: que traz em seus lábios de Mulher, gladiadora ardente, clamores de despertar; que traz em suas mãos uma bandeira nova e alça sobre multidões estremecidas; que traz em sua mensagem um desejo de liberdade, um credo republicano que, com ele sobe até a cúpula de seu calvário e da história: que junto às minas de ouro das rapinas imperiais, fala com voz de brasileira,  gente a proclamar direitos e conquistá-los; esta, de Vila Rica, em Minas Gerais companheira da inconfidência revolucionaria na saga heróica de VGRT e na morte mártir, esta mulher do novo mundo – oh, mãe epopéia do Novo Mundo!- cravada em seu madeiro de sacrifício com quatro escravos ardentes de Cruzeiro do Sul… Bárbara Eliodora !

Bárbara foi a primeira mulher poeta do Brasil, umas das ideólogas organizadoras da inconfidência Mineira, teve uma filha antes do casamento e, mesmo depois de casada, fez questão de continuar com seu nome de solteira. Após a morte do marido, Bárbara ainda administrou os negócios da família e cuidou da educação dos seus 4 filhos.

O sonho (por Barbara Heliodora)

Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n’esta,
Feliz, ditosa e socegada sésta!
Eu vi o Pão de Assucar levantar-se
E no meio das ondas transformar-se
Na figura de um indio o mais gentil,
Representando só todo o Brazil.
Pendente ao tiracol de branco arminho
Concavo dente de animal marinho
As preciosas armas lhe guardava;
Era thesoiro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
As hásteas d’oiro, mas as pennas pretas;
Que o indio valeroso altivo e forte
Não manda seta, em que não mande a morte,
Zona de pennas de vistosas côres
Guarnecida de barbaros lavores,
De folhetas e perolas pendentes,
Finos chrystaes, topazios transparentes,
Em recamadas pelles de sahiras,
Rubins, e diamantes e saphiras,
Em campo de esmeralda escurecia
A linda estrella, que nos traz o dia.
No cocar… oh que assombro! oh que riqueza!
Vi tudo quanto póde a natureza.
No peito em grandes letras de diamante
O nome da augustissima imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento
Das saudosas palhetas, que afinava,
Pindaro americano assim cantava.

Sou vassallo e sou leal,
Como tal,
Fiel constante,
Sirvo á glória da imperante,
Sirvo á grandeza real.
Aos elysios descerei
Fiel sempre a Portugal,
Ao famoso vice-rei,
Ao illustre general,
Ás bandeiras, que jurei,
Insultando o fado e a sorte,
E a fortuna desigual,
Qu’a quem morrer sabe, a morte
Nem é morte, nem é mal.

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Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.