Um discurso em nome das jovens mulheres brasileiras

Texto de Priscilla Brito.

No dia 01/03/2011, discursei no Senado Federal, na sessão solene do Dia da Mulher. Sou feminista, estudante de ciência política e integrante do DCE da UnB. Fui convidada para representar e falar em nome das jovens mulheres brasileiras que sonham com um país mais justo e igualitário, com oportunidades e respeito para homens e mulheres.

Meu discurso busca representar muitos de nossos desejos e nossas esperanças. Pois, quando a vida da mulher muda, toda a sociedade se beneficia com as mudanças. A eleição de Dilma representa uma grande conquista para as mulheres, mas sabemos que isso nos traz novos desafios e novas lutas pelo reconhecimento dos direitos das mulheres.

 

Primeiramente,  quero agradecer o convite da senadora Marta Suplicy, vice-presidenta do Senado, para a participação nesta sessão solene tão importante, em homenagem às mulheres. Quero manifestar também minha admiração pelo trabalho das cinco vencedoras do Diploma Cidadã Bertha Lutz, homenageadas nesta sessão.

A todos os presentes, agradeço antecipadamente a paciência de me ouvir por alguns instantes.

A tarefa que me foi dada é realmente muito difícil. Fui convidada para falar em nome das mulheres jovens deste país. Representá-las neste breve discurso, quanto às suas expectativas de futuro, o que esperam, o que desejam. Mas como falar em nome das tantas mulheres jovens deste país que lutam diariamente contra formas de violência diversas, explícitas ou não, contra uma opressão silenciosa, que as impede de realizar seus sonhos?

Eu talvez tenha algumas respostas, formuladas pela reflexão sobre a minha trajetória pessoal, a minha militância no movimento estudantil e no movimento feminista. Tive a oportunidade de conhecer, ao longo dos meus poucos 21 anos de vida, mulheres fantásticas, que me ensinaram muito e me sensibilizaram para a condição feminina.

A primeira delas foi a minha mãe. Cabeleireira, enfrentou com garra e coragem o desafio de criar três filhas sozinha. Contra tudo e contra todos, fez da sua vida um exemplo de disposição, não só para as filhas, mas para as que a cercam. Lembro até hoje da militância dela no sindicato, na prefeitura comunitária, mas também na luta no dia-a-dia do trabalho, incentivando as mulheres para lutarem por seus direitos.

Na escola, sempre pública, foram as minhas professoras, as colegas com quem convivi. Decidi fazer Ciência Política, pensando ser esse o caminho para de alguma forma conseguir mudar as coisas, entender como o sistema funciona para melhorá-lo.

Bom, imaginem o choque para uma adolescente, filha de cabeleireira, moradora de Samambaia, chegar à universidade, um mundo completamente diferente daquilo a que eu estava acostumada. A forma de me adaptar foi através da militância no movimento estudantil. Nele eu percebi que o meu desconforto com as formas de “zuar” alguns tipos de pessoas, tinha nome e se chamava preconceito. Descobri que a minha mãe é uma feminista autodidata, mas que também haviam outras que estudam e escrevem sobre a condição das mulheres. Eu comecei a perceber que essa forma de violência chamada machismo estava tão enraizado que eu precisava lutar contra ele inclusive dentro de mim mesma. Quantas vezes eu não caía na explicação “Ah, mas homem é assim mesmo…”…

O movimento estudantil me ajudou a formular aquilo que eu pensava, mas não conseguia compartilhar. E isso ainda no Centro Acadêmico. No DCE, nós já tínhamos bancado a discussão de gênero antes mesmo da chapa ser eleita, garantindo a paridade entre homens e mulheres no grupo de coordenação geral. Mais recentemente, quando decidimos enfrentar a discussão sobre o trote violento, vieram as ovadas. Para quem não acompanhou, um curso da universidade resolveu “radicalizar no trote” (eles acham que ficou mais tranqüilo, eu acho que sempre foi péssimo) e colocaram uma menina para lamber uma lingüiça lambuzada de leite condensado. Depois disseram que a gente exagerava, que era só uma brincadeira. Ok, e qual é o limite de uma brincadeira “saudável” para uma forma de violência? Nessa lógica, eu teria que perdoar quem agride a companheira porque ele também diz que ama. Eu aprendi a enfrentar essas coisas enquanto membro do DCE. E, de alguma maneira, eu sinto que concretizo minha disposição de ir mudando as coisas nesse trabalho de formiguinha…

Através desse trabalho em fui aprofundando, me sensibilizando com as histórias das pessoas. Afinal, através dele eu conheci outras pessoas, igualmente fantásticas, dispostas a lutar por todas as mulheres. Mulheres negras, brancas, indígenas, jovens, velhas, ricas e pobres.

Aliás, cabe lembrar que se hoje as lutas são diversas é porque há mais de cem anos o movimento feminista passou a reivindicar o direito ao voto para as mulheres. Embora tenha se propagado a história do incêndio em uma fábrica dos Estados Unidos como origem do 8 de março, a história verdadeira é que esta foi a data escolhida pelas mulheres socialistas, em homenagem às diversas manifestações sufragistas ao redor do mundo. Não que a história do incêndio não seja de todo mentira, e nem as greves contra as condições precárias de trabalho foram, mas talvez devamos lembrar que as motivações para a data partiram daquelas que acreditavam que a transformação do mundo passava pelo reconhecimento do direito político das mulheres. Apenas às vésperas dos cem anos dessas mobilizações começamos a conquistar postos de comando na política. Há exatos 74 anos as mulheres conquistaram o direito ao voto.

E somente passado todo esse tempo, temos a nossa primeira presidenta.

Mas a luta feminista se diversificou, senhoras e senhores. Hoje lutamos também pelo fim da violência. Pelo fim da criminalização do aborto. Pelo fim da discriminação contra homossexuais. Pelo direito à concepção, ao acompanhamento e ao parto humanizado. Lutamos também pela igualdade dos salários e pelo incentivo à ascensão aos postos de comando.

Em um país onde mais da metade da população é formada por mulheres, é muito estranho que sequer alcancemos 30% de candidatas. Será que somos só nós, feministas, que achamos que tem alguma coisa errada? Que forma de ignorância é essa, que nada tem a ver com o nível educacional, que insiste em tentar convencer as mulheres de que elas são inferiores? Ou pior, que são superiores nos seus lugares “naturais”, que se limita à casa e aos cuidados com a família.

Hoje, eu falo em nome de tantas mulheres que não podem estar aqui, neste plenário, para reivindicar de alguma maneira os seus direitos. Para mim e para muitas dessas mulheres, um bom futuro é a possibilidade de viver uma condição feminina de igualdade, onde possamos ser reconhecidas pelas nossas competências, não tendo que lidar com o machismo que nos oprime de diferentes maneiras. O futuro que eu e minhas companheiras queremos é o de um país capaz de entender que somos cidadãs, que podemos decidir sobre o nosso corpo, que podemos lutar pelos nossos direitos e chegar de forma digna aos altos postos de comando.

Eu falo em nome das mulheres jovens e de tantas outras que lutam por um mundo melhor.

Obrigada!

Autora

Priscilla Brito é brasiliense é escritora e cientista política formada pela UnB. Atualmente mora no Rio e faz mestrado em sociologia e antropologia na UFRJ. Também constrói o projeto colaborativo da Universidade Livre Feminista, de formação feminista online, e apoia o Agora Juntas, proposta de uma casa feminista na cidade do Rio.