UFC e MMA com outros olhos

Texto de Mari Moscou.

Pense na noção tradicional de artes marciais, onde cada uma delas tem um tipo característico que dá forma e estilo aos golpes, sequências e lutas: os chutes sistemáticos do tae-kwon-do ou as imobilizações do jiu-jitsu, por exemplo. Há as artes marciais de luta em pé, aquelas de luta no chão, as que trabalham mais com quedas. Elas não se equivalem e é bem difícil e polêmico compará-las. Nos anos 90, porém, um programa de televisão nos EUA resolveu colocar lutadores de diferentes artes marciais em combate.

A idéia inicial era colocar todas as artes marciais à prova e definir qual delas era a mais eficaz na luta. Valia tudo, tudo mesmo. A luta não tinha regras exceto que se houvesse nocaute ou “tap out” (que são uns tapinhas camaradas que significam nesse universo “hey, perdi, chega, não me mate por favor”) a luta acabava. O prêmio era em dinheiro, para quem ganhasse três lutas eliminatórias no programa, tarefa difícil dadas as condições precárias com que um vencedor poderia sair da primeira luta. Esse programa chamava-se Ultimate Fighting Championship – UFC. Com essa violência explícita toda esse campeonato foi proibido em vários estados dos EUA.

Foto de Chris Bardas no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Talvez a principal consequência de uma competição tão nonsense tenha sido a criação de uma arte marcial moderna, as MMA – Mixed Martial Arts, ou literalmente “Artes Marciais Mistas”. Essa nova modalidade surgiu quando a audácia da família Gracie, brasileira, em popularizar o jiu-jitsu brasileiro pelo mundo, passou a embasbacar o público do UFC. Como as técnicas de jiu-jitsu pareciam ganhar das técnicas de todo mundo, os lutadores logo se ligaram que, se pretendiam ganhar dos brasileiros deveriam aprender, além de suas artes marciais “de origem”.

O UFC gerou uma espécie de movimento que desembocou no conceito de um lutador multidimensional: que soubesse lutar no chão, em pé e derrubando (provocando quedas). Para isso, cada lutador precisava se aprimorar em técnicas de diferentes artes marciais. Desta forma nasceram as artes marciais mistas (MMA), que consistem basicamente em otimizar o combate e a luta utilizando-se de várias técnicas oriundas das diferentes artes marciais “tradicionais”. Com essa origem quase conjunta, o UFC acabou se tornando um evento onde lutava-se MMA, caso contrário não se podia nem sonhar em ganhar a competição.

No final da década de 90, o empreendedor Dana White comprou o programa de TV UFC e, com uma excelente visão estratégica de mercado, mudou as regras do jogo para que este pudesse ser novamente permitido nos estados onde era proibido, para que se dinamizasse e para que pudesse ser esportivizado. Com este movimento, junto a regras estabelecidas em outros campeonatos de MMA como o Pride ou o Strikeforce, o MMA pôde se tornar um esporte, sendo o UFC hoje sua maior potência. Hoje são três rounds de cinco minutos. Há categorias de peso, cinturões a serem disputados, pesagem oficial e uma série de mecanismos que permitem um negócio mais padronizado, com parâmetros mais justos.

O cenário é machista: um público esgoelante assistindo a dois marmanjos monstruosos de tão fortes e bem-treinados se enfrentarem entre socos, chutes, quedas, imobilizações, chaves. Mulheres de biquíni passando com aquelas placas dando um toque supertchan de ridículo. Os lutadores são homens, o público é homem, os juízes são homens. Essa é a imagem que sempre me veio à cabeça quando pensava em “vale-tudo” e outros tipos de luta, luta livre, etc. Comparava os lutadores, seus fãs e público das lutas e a própria luta ao próprio estado de natureza descrito por Hobbes em Leviatã: selvagem, animal, violento, etc (e olha que pratique kung-fu uns anos aí da minha breve vida).

Em 2010, descobri meu marido e, pouco depois, descobri que além de santista fanático ele era um assíduo fã de lutas e artes marciais, competições, etc. No início, óbvio, achei a maior bobagem do planeta. Foi até um pouco chocante, já que ele cozinha, lava, passa, é supermeigo e educado com todo mundo, carinhoso, romântico, super-pró-feminista e… voilá! Lá estava ele classificado naquele grupo que eu julgava não ter nada a ver com inteligência ou gentileza.

Aos poucos fui ficando curiosa, queria entender aquele negócio já que alguém — tão parecido comigo em tanta coisa — gostava tanto daquilo lá. Descobri então o campeonato UFC e, nele, um esporte dinâmico, moderno e divertido que configura no final das contas um belo de um espetáculo. No dia 05 de fevereiro de 2011 lá estava eu, num bar abarrotado de homens, com meu marido, tomando um chope caro só para poder acompanhar a “luta do século” entre dois brasileiros muito famosos e populares no UFC: Anderson Silva e Vitor Belfort. E entendendo tudinho, vibrando com o fabuloso nocaute daquela noite.

Antes que possam sair julgando tudo errado por aí, quero deixar claro que não sou uma pessoa violenta, não sei bater, não suporto a idéia de apanhar ou machucar alguém, jamais me envolveria numa briga de rua. O embate na minha vida é e sempre foi na comunicação, no intelecto, nunca no corpo. Acontece que, aos poucos, fui descobrindo que são três esferas diferentes dos campeonatos de MMA e luta/artes marciais como o UFC, que eu antes colocava no mesmo balaio: lutadores, juízes, técnicos, etc. – público e fãs – o próprio esporte. Toda aquela imagem de violência e selvageria que eu tinha simplesmente se desfez diante dos meus olhos.

Claro, a imagem do machismo continua em muitos momentos, mas não a associo mais organicamente ao esporte nem aos lutadores e nem ao público de forma geral. Lutadores como o Anderson Silva, por exemplo, magrelo e alto, voz fina, se recusa a aprender inglês; ou como o Toquinho, cuja humildade é tanta que ele não arrisca nem um passo mais ousado na própria carreira, desmontaram meu preconceito. Entender as origens do esporte, as regras, a organização, me fez defender inclusive que, ao invés de um esporte violento, estamos na verdade diante de uma domesticação civilizatória da violência (nada com mais sentido em nossa sociedade na qual a violência tem um papel central e da mesma forma a civilidade) que pode tornar-se uma forma produtiva de entender e viver a violência.

Então, no final das contas, percebi que os idiotas que acompanham o esporte (muitos machistões, misóginos, racistas, homofóbicos, etc.) são os mesmos idiotas que estão em qualquer lugar: no mercado de trabalho, em espaços virtuais na internet (oi, trollzada querida deste blog!), no trânsito… A diferença é que naquele espaço eles se sentem protegidos o suficiente para exacerbar suas podridões desumanas.