Alguns seriados e personagens feministas

Texto de Danielle Cony.

Sei que tem muita gente da nossa comunidade que adora novelas, mas desculpe-me, realmente não consigo assisti-las. Acho que o que me incomoda de fato é o texto, os roteiros. Acho os personagens muito rasos, maniqueístas e me causa uma certa irritabilidade. Então, posso dizer que não assisto um capítulo de novela há mais de uma década. Mas tenho uma queda por seriados.

O criador do seriado House disse (quando esteve no Brasil) que é na tv que os roteiristas possuem mais espaço para criar. Que no cinema os altos orçamentos e investimentos limitam muito a capacidade de experimentação e, que somente a televisão possui espaço para tal. No Brasil isso é um pouco diferente. A tv aqui é o mainstream. E o cinema é o experimental. Não é a toa que gosto tanto do cinema brasileiro. Realmente gosto de ver boas histórias e um certo ar de experimentação. Porque acho tedioso demais ir assistir algo onde você já sabe como será o final.

Mas estou me alongando muito. Então, aqui vai a minha lista de melhores personagens femininas em seriados.

Mona Robinson.

10. Mona Robinson (Katherine Helmond – Who’s the boss?)

Esse seriado não passou no Brasil, exceto pelo canal à cabo. Basicamente a trama era a história de uma mulher bem sucedida, que se divorcia do marido, e arruma um homem para ser babysitter do seu filho. Mona é mãe da personagem principal. Uma mulher já idosa, mas cheia de vida. Ela possui namorados diversos e explicita seu apetite sexual mesmo após a menopausa.  É uma mulher tão liberal e divertida que chega a ser uma exceção como personagem.  Mona é dona de seu corpo, de suas vontades e de sua sexualidade, mesmo na terceira idade.  Não é a personagem principal do seriado, mas com certeza sua presença é tão forte que chega a roubar a cena.

Betty Suarez.

9. Betty Suarez (America Ferrera – Ugly Betty)

Betty é feia. Betty é desengonçada. Betty é humana. É impressionante como a única personagem “feia” (porque vamos combinar a America Ferrera faz esforço para ficar feia) é a personagem mais bela do seriado. Betty resolve todos os problemas que aparecem na frente, precisa contornar as politicagens e sabotagens para que a edição da MODE sempre esteja nas bancas. Betty é eficiente, divertida e humana. E nos faz lembrar como esse mundo da moda é oco.

Lisa Cuddy.

8. Lisa Cuddy (Lisa Edelstein – House)

Cuddy é médica, diretora de hospital e mãe. De quebra ela ainda administra um relacionamento com o House, que é o cara mais egocêntrico e infantil do universo.  É a única que consegue argumentar e não ser (tão) manipulada por ele. As vezes me irrita seu jeito “perfeito” de ser, mas vamos combinar que ela é uma mulher de muita força. Se não se posicionasse de forma assertiva ela não consegueria fazer as coisas do seu jeito.

Miranda Hobbes.

7. Miranda Hobbes (Cynthia Nixon – Sex and the City)

Miranda é uma mulher bem sucedida e que de repente se vê apaixonada por um bartender. Num outro momento ela se vê grávida do mesmo. Sem grande infra-estrutura, Miranda acaba tornando-se mãe sem muito ter desejado isso.  Seu relacionamento é sempre confuso porque não há um modelo de estrutura familiar tradicional. Miranda, uma personagem tão racional, tão lógica (e a menos fútil de todas) se vê envolvida por um homem que não tem a mesma ambição que ela. E como gerenciar um casamento e uma familía com tantas diferenças? De forma confusa Miranda acaba fazendo as coisas do jeito que dá. Um dia de cada vez.

Bette Porter.

6.  Bette Porter (Jennifer Beals – The L Word)

Ver Bette Porter tão sexualmente resolvida, tão determinada em seus relacionamentos e tão dona do seu próprio nariz, faz com que questionemos a nossa própria sexualidade. Bette Porter é a Fonzie feminina. Cool, inteligente, bem sucedida e dona da própria vida. Tem como não se apaixonar?

5.  Miranda Bailey (Chandra Wilson – Grey’s Anatomy)

Miranda Bailey.

Miranda Bailey é uma personagem negra, baixinha e gordinha. É a melhor cirurgiã geral do Seattle Grace, hospital fictício do seriado Grey’s Anatomy. Miranda gerencia as cirurgias e os internos. É sempre a pessoa que está lúcida nos momentos de crise e dá bronca em quem quer que seja. Ela literalmente fala o que vem a cabeça. É erroneamente intitulada de “nazi” por falar o que pensa e argumentar brilhantemente.  É lindo ver uma negra, sem os atributos “padrão de mercado” ter um papel tão importante e humano num seriado.

4. Lisa Simpson (Yeardley Smith – Os Simpsons)

Lisa Simpson.

Lisa é a filósofa dos Simpsons. Ela está sempre pronta para questionar o status quo, o comportamento e o mundo do jeito que é. Lisa é brilhante, talentosa, mas sempre aparenta ser invisível. Quantas vezes não nos sentimos como Lisa? Questionamos o mundo e quando argumentamos somos tratadas como uma criança, porque o “mundo é assim mesmo”. Lisa é ecológica, humanista, questionadora e adora os animais. Não é a toa que é considerada a chata do seriado. Só nós e o Matt Groening (criador da série, que já afirmou que ela é sua personagem favorita) é que gostamos dela. Porque a Lisa nos faz pensar…

3. Olivia Benson (Mariska Hargitay – Law and Order: Special Victms Unit)

Olivia Benson.

Tem como não gostar da Olivia Benson? Sua profissão é caçar estupradores e colocá-los na cadeia! Olivia sempre consegue se colocar no lugar da vítima. Ela investiga cuidadosamente crimes de violência sexual. Sem dúvida a detetive Benson é uma mulher com uma agenda feminista num ambiente altamente machista (delegacia de polícia). Seu único defeito é ter uma queda por seu parceiro machista, Elliot Stabler. Mas de qualquer jeito ela possui um olhar feminino sob a violência doméstica e sexual. Acho essa personagem (e a temática do seriado) muito importante para a discussão de direitos humanos e violência contra a mulher.

2. Dana Scully (Gilliam Anderson – Arquivo X)

Dana Scully.

Scully é investigadora, médica e cientista. Se ela fosse homem com certeza sentaria da cadeira de diretora-assistente. Como ela é mulher, no clube do bolinha do FBI, ela vai ser a babá do agente Fox Mulder. Um investigador excêntrico que gosta de ficar caçando homenzinhos verdes.  É óbvio que Scully é impressionantemente competente, inteligente e dona de uma capacidade de argumentação sublime. E acaba tornando concreto, embasando cientificamente as teorias paranormais de seu parceiro. É interessante ver a sintonia dos dois e o respeito mútuo, mesmo possuindo visões antagônicas do mundo. Scully é uma nerd. Técnica e acadêmica, ela rouba boa parte das cenas. Seu maior defeito é ser católica (o que sendo uma cientista acaba sendo bem contraditório). Mas não tem como não gostar da Scully enfrentando a alta cúpula do FBI, argumentando ou enfrentando o sexismo dos policiais estaduais nas investigações.

1. Alexandra Cabot (Stephanie March – Law and Order: Special Victms Unit)

Alexandra Cabot.

Eu gostaria de ser Alexandra Cabot quando crescer. Vê-la argumentar é um show de maestria. Alexandra é promotora do seriado Law and Order-SVU e, se Olivia Benson prende os estupradores. Alexandra tranca-os em jaulas e joga a chave fora. Seus diálogos em corte, suas estratégias argumentativas, suas manobras políticas para defender as vítimas de crimes sexuais são de tirar o fôlego. Foi uma pena quando ela saiu do seriado para ir trabalhar na ONU, defendendo mulheres em crimes de guerra. Tem como não tê-la como referência?