Desonra: o corpo dos outros

Texto de Carol Fontes.

Sempre escrevo sobre publicidade porque acho que precisamos aprender a ver além da mensagem inicial. Por mais que digam que não há uma informação por trás de tudo aquilo.  Hoje resolvi fazer algo diferente, como estudante de Letras costumo ser “obrigada” (nunca no sentido no ruim da palavra) a ler livros para provas, trabalhos, etc. Nesta semana tive que ler o livro “Desonra” de J. M. Coetzee à luz do pós-modernismo (você pode ver o trailer do filme aqui).

O autor sul-africano, onde a narrativa se passa, conta a história de um professor universitário que vê sua carreira arruinada depois do envolvimento com uma aluna e por isso resolve passar um tempo com sua filha, que mora no interior. David Lurie tenta se adaptar a rotina, aos hábitos do lugar e se esforça como ajudante de uma mulher que não sendo veterinária só pode dar um consolo aos animais: uma morte digna. Ele e sua filha acabam sendo atacados por três homens, ateiam fogo ao seu corpo e estupram Lucy, a partir daí o estilo que já era seco se torna cada vez mais insuportável de tão descritivo e frio.

Estuprar uma lésbica é pior que estuprar uma virgem: o golpe é maior.

Não pretendo debater a frase acima (dor não pode ser mensurada ou comparada), mas é a partir desse momento que os questionamentos do personagem se iniciam e que o estupro é debatido no livro. O momento do abuso em si não é contado, como se toda a história estivesse sob a perspectiva de David que passa todo o tempo da invasão trancado no banheiro, mas a angústia e sensação de vazio que ele provoca permeiam toda a narrativa.

Cena do filme ‘Desonra’ (2009), baseado no livro de J. M. Coetzee.

Já li, infelizmente, muitos relatos de abusos sexuais, mas nunca tinha me sentido tão atingida, como se eu estivesse vazia também. Num certo momento o pai abraça a filha, mas “ela fica dura como uma estaca em seu abraço, sem ceder nada.”, é como se algo muito importante tivesse se partido dentro dela, “paciente, silenciosamente, Lucy tem de encontrar o seu próprio caminho de volta da escuridão para a luz.”

Nem quando a filha diz para David: “Você não estava lá. Não sabe o que aconteceu”; ele percebe que não há como um homem imaginar um estupro. É claro que isso pode acontecer com eles, mas em casos muito raros, homens não costumam andar na rua olhando por cima do ombro com medo de perder muito mais que um celular, eles não precisam temer que antes de terem suas vidas arrancadas numa guerra seus corpos sejam usados como se nem fossem humanos, eles não vivem em estado de alerta, “pensa que entende,mas não entende. Porque não consegue entender.”

Na verdade, a questão vai muito além do estupro, ela também tem a ver com o fato de as relações entre brancos e negros ainda serem muito tensas na África do Sul. “É a história falando no meio deles”, ele arrisca, afinal. “Uma história de exploração. Pense nisso, se ajuda alguma coisa. Pode ter parecido pessoal, mas não era. Vem desde os ancestrais”.

No fim, Lucy acaba acreditando que ser violada ou viver com o medo de que isso possa se repetir é um preço a ser pago por sua independência, por continuar em suas terras, “talvez eles entendam assim; talvez eu entenda assim também. Eles acham que eu devo alguma coisa. Se consideram cobradores de um débito, cobradores de imposto. Por que eu deveria poder viver aqui sem pagar? Talvez seja isso que eles dizem a si mesmos”. Não é, Lucy, não precisa ser, os homens não tem direito sobre nossos corpos, eles não podem justificar suas ações através de nossas roupas ou de nossas atitudes. Não somos deles e não precisamos ser.