Espinha para se curvar

Texto de Georgia Faust.

Uma vez a Fernanda Montenegro contou que a mãe dela costumava dizer que os principais atributos femininos era caráter e espinha. Caráter ok, todos entendem. E a espinha, era para se curvar.

Isso me impressionou muito. Ficou na minha cabeça. Vejo mulheres, amigas minhas, treinando, com muita força, para serem essa “mulher de verdade”, com caráter e espinha. Me vi fazendo isso, no passado, mesmo com todo o suporte feminista que eu tinha. Mulheres que querem MUITO que seus casamentos dêem certo, e para isso elas tem que ser as tais mulheres de verdade. Suportando as grosserias, os machismos, as declarações preconceituosas, as traições em silêncio. Brigar, berrar, lutar para mudar as coisas é coisa de puta, dizem os machistas de plantão. Mulher de verdade tem modos, e ter modos significa sofrer em silêncio.

Imagem de Sarah Fagg no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

(abre parênteses) Mulher de verdade não faz barraco, reclamar com alguém que furou a fila é coisa de mulher barraqueira, de menor valor, leia-se: coisa de puta. Mesmo quando se tem razão, mulher de verdade não chama os holofotes para si, não reclama. Ser educada é abaixar a cabeça e ir embora, como uma verdadeira dama. Uma vez isso aconteceu com a minha ex-sogra, ela é uma senhora, ficou HORAS na fila do cartório, daí deu alguma merda que alguém furou a fila, não lembro direito… Ela ficou quietinha, esperou mais um tempo, depois contou em casa muito chateada, e o marido dela usou exatamente essas palavras: que ela fez certo, que ela não tem nada que ficar fazendo escândalo por aí, que se tivesse falado alguma coisa ele ficaria muito brabo com ela pois isso seria atitude DE PUTA. (fecha parênteses)

Pensando em casos onde amigas, conhecidas e amigas de conhecidas vivem, eu chego à conclusão que a luta feminista depende muito, mas muito mais dos homens do que a gente imagina. Depende deles nos darem espaço. Depende deles nos deixarem ser nós mesmas. Quer sejamos quietinhas, bocudas, revolucionárias, pacíficas, belicosas. E que não nos taxem nem de santas nem de putas. Porque é o fim do mundo que nossa melhor qualidade como companheiras seja ter espinha, sendo que não podemos nem exigir reciprocidade nesse ponto.

Essa questão da nossa espinha me faz lembrar também de quantas mulheres “aceitam o homem como ele é”, afinal, pessoas não mudam. E dá-lhe flexibilidade na espinha. Para se adaptar aos hábitos dele. Para se aproximar dos amigos dele. Para se enquadrar na rotina dele. Para se afastar quando eles precisam de um tempo para si. Para mudar os nossos planos pois a realização profissional dele é mais importante que a nossa. Dizem que as pessoas não mudam mesmo, mas eu vejo as mulheres mudando todos os dias. Se adaptando. Alterando comportamentos.

Conheço um cara especificamente que chega a ser cômico. Ele só se apaixona por mulheres modernas, independentes, falantes, extrovertidas, articuladas. Daí ele começa a namorar com elas. E daí começa a surtar. Porque namorada dele não faz isso. Namorada dele não faz aquilo. Namorada dele não tem amigo homem. Namorada dele não sai sozinha, mesmo que só com amigAs. Isso já aconteceu com três conhecidas minhas que acabaram namorando com ele. E se curvaram às exigências. E eu penso: o que levou ele a se sentir atraído por elas em primeiro lugar??? Porque as mulheres, quando namoram com ele, tem que deixar de ser aquelas por quem ele se apaixonou e virarem as míticas “santas”? Antes de serem namoradas, podiam ser super-mulheres e ele achava sexy a ponto de se apaixonar. Depois que vestiu a roupa de namorada, o único atributo que ele queria era a espinha. Pra aceitar todos os mandos e desmandos dele. É algum tipo de desafio? De “consertar” as meninas “erradas”? De fazer com que elas provem seu amor, jogando tudo para o alto para poder ficar com ele?

Eu não me incomodo em ter espinha. Mesmo. Não me incomodo em mudar meus planos, em ceder, em me adaptar. Não é disso que estou falando. Mas tem que ser por alguém que também tenha. Igualdade né? Não é disso que a gente sempre fala?