Internet, inclusão e acolhimento

Texto de Barbara Lopes.

A internet é social. As redes sociais concentram boa parte do tráfego na rede, o Facebook já superou o Google nos Estados Unidos e, somado a outras redes, como o Twitter, Orkut e emails, cria uma situação em que conversar se tornou a principal atividade dos usuários de internet. Mas há uma diferença entre o Facebook e o Twitter: no primeiro, conversamos majoritariamente com nossos amigos; no Twitter, podemos entrar em (ou atravessar) conversas com pessoas que não conhecemos, através das hashtags, dos Trending topics, de retweets de pessoas que conhecemos. Podemos ampliar nossa rede.

Para o feminismo, essa é uma diferença crucial. Em parte, a exclusão que as mulheres sofrem em diversos ambientes, on e offline, se deve à dificuldade de entrar em grupos masculinos fechados entre pessoas que já se conhecem. O machismo não é só a rejeição da participação feminina por ser feminina, é também a rejeição de novos elementos. Um caso emblemático são as comunidades de software livre. A exclusão das mulheres não necessariamente acontece por meio de manifestações explicitamente machistas.

Uma das poucas mulheres a ultrapassar essa barreira e ganhar respeito no mundo da tecnologia é a americana Gina Trapani, criadora do blog Lifehacker, uma referência na área, fundadora de empresas e uma das pessoas que mais admiro nesse meio. Recentemente, ela publicou um post em seu blog pessoal sobre a presença de mulheres e de homens não-programadores nas comunidades de software aberto, que traz uma citação do designer de experiência do usuário Vitorio Milano. Ele diz:

Eu acho que o problema de o software aberto não ser capaz de lidar com não-programadores em seus projetos é o mesmo de seu violento sexismo: a cultura de software aberto não é feminista. Feminismo é, fundamentalmente, sobre igualdade para todos, não apenas mulheres, e designers de qualquer gênero são tão excluídos quanto mulheres programadoras, porque não é um ambiente igualmente acolhedor. Não há no software aberto uma percepção do valor de aconselhar, facilitar, disciplinar os usuários inadequados, treinar os recém-chegados ou usuários não-técnicos, etc., coisas que são necessárias para apoiar tanto designers de qualquer gênero como mulheres em qualquer papel.

É possível objetar que mesmo as comunidades feministas muitas vezes reproduzem mecanismos de exclusão e que o feminismo trata de um tipo específico de discriminação. Mas esse é um ponto que merece atenção. Se as pessoas não se sentirem à vontade para expor dúvidas ou opiniões divergentes, se houver regras demais que travem a participação, ou de menos, que permitam a atuação livre de trolls e sádicos, o ar pode se tornar irrespirável. É um equilíbrio delicado (na nossa lista, contamos com moderação ao mesmo tempo atenta e discreta da Srta. Bia; mas a tarefa é de tod@s). O lado bom é que ser gente fina é contagioso: quem é bem acolhido geralmente também se torna acolhedor – é o que Gina defende ao explicar como procura a diversidade em suas atividades. E construir esses ambientes não passa apenas pelas pessoas, mas também pela tecnologia, como mostra o exemplo inicial do texto.

Há um paradigma do feminismo que diz que o privado também é público. As feministas questionam essa separação, afirmando que o que acontece dentro dos lares também tem caráter político e merece atenção pública, como é o caso da violência doméstica. Da mesma forma, a esfera política também reflete relações interpessoais: a vida pública também é feita de coração e a hostilidade não é só um atributo individual, é uma estrutura política. Prestar atenção a essas relações, tanto na internet como fora dela, e enfatizar para que sejam mais favoráveis à participação de gente nova é uma das tarefas pelas quais passa o feminismo.

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