Novos ares… Marcha das Vadias + Marcha da Liberdade BH/MG

Texto de Renata Lima.

Sábado, dia 18 de junho de 2011.

Dez da manhã, já estávamos, algumas mulheres, no Centro Cultural da UFMG, em Belo Horizonte,  fazendo cartazes. Na véspera, um outro grupo se reuniu em outro local, com a mesma tarefa.

Corremos para almoçar, em turnos, e às 13:10 estávamos saindo do Centro Cultural, em direção à praça Rio Branco (Praça da Rodoviária). Éramos seis, vestidas de todas as formas, andando, com cartazes contra o machismo e a violência contra a mulher, por uma rua semi-vazia, no sábado inesperadamente quente do final de outono. A reação das pessoas nas ruas era interessante: olhares curiosos, algumas palavras de incentivo, especialmente de homens. Motoristas que reduziam para tentar ler os cartazes.

Chegando na praça, para onde estava marcada a concentração, a partir das 13 hs, vimos uma pequena aglomeração. Algumas câmeras de TV, vários fotógrafos, da imprensa e independentes, que acompanhariam a Marcha das Vadias em Belo Horizonte.

Um repórter caricato, que depois descobri ser de um programa de humor, tentava entrevistar as pessoas. Parece que depois ele sacou que o tema era sério e acho que nem foi ao ar (corrijam-me se estiver enganada).

A “pequena aglomeração” foi aumentando, aumentando…

Começamos o trajeto, que passou pela Rua Guaicurus, tradicional reduto de prostituição na capital mineira. A ASPROMIG estavam presentes, e foram entrevistadas, e foi importante dar voz a essa categoria (profissionais do sexo?  Veja aqui) que está sempre classificada entre as “não-estupráveis” (não podem ser vítimas de estupro, já que são mulheres à margem de uma sociedade hipócrita e patriarcal, logo, não merecem sequer a proteção do direito penal, da polícia – que muitas vezes age de conluio com os exploradores – e nem do sistema judiciário).

A reação das pessoas, nesse região específica, foi indescritível; um misto de curiosidade e incredulidade. Mulheres, muitas com roupas curtas e “ousadas”, algumas corajosas de salto alto, portando cartazes, e dizendo, em pleno mercado do sexo: “A NOSSA LUTA É TODO DIA, MULHER NÃO É MERCADORIA” e “A NOSSA LUTA É POR RESPEITO, MULHER NÃO É SÓ BUNDA E PEITO”.

Havia homens também, apoiando e portando cartazes, como estes: “O CORPO É DELAS E NÃO NOSSO”. Nessa altura, calculo que já éramos mais de 300.

Marcha das Vadias de Belo Horizonte. Foto de Tulio Vianna.

Um grupo de homens trajados de mulher, com instrumentos de percussão, se juntou à Marcha das Vadias em algum ponto, e ficou por um período na linha de frente, mas logo percebeu que as protagonistas, naquele dia, éramos nós, e passou a acompanhar a Marcha e buscar mais informações.

Pouco depois, chegamos à Praça da Estação, um cartão postal de BH, que foi reformado, e, inacreditavelmente, vedado pelo atual prefeito, Márcio Lacerda, para ser o tradicional palco de manifestações que sempre fora. Há até um movimento que se denomina “Praia da Estação”, que tenta ocupar, contra a vontade dos Guardas Municipais, treinados em uma truculência para serem guardiões do senhor feudal, o espaço público da bela praça.

Na praça, espalhamos os cartazes, e pouco depois, começamos a receber os participantes da Marcha da Liberdade, que também ocorreria no mesmo dia.

À Marcha das Vadias, que já tinha cerca de 300 pessoas, se juntou a galera da Marcha da Liberdade, totalizando cerca de 700 pessoas.

Houve alguns incidentes, como o que ocorreu na frente da prefeitura, quando uns poucos manifestantes fizeram menção de entrar no prédio, e a reação violenta da Guarda Municipal, verdadeiros cães de guarda do prefeito Márcio Lacerda, teve que ser contida pela Polícia Militar, que acompanhou o evento, sem nenhum incidente até o momento. Ressalto aqui que a PM, se por ser bem preparada, se por se tratar de um evento imediatamente posterior ao julgamento da ADPF 187 pelo STF, agiu de forma exemplar nas Marchas ocorridas em BH no dia 18/06/2011.

A Marcha das Vadias, em Belo Horizonte, assim como a de Brasília, teve um cunho eminentemente feminista, sim! As reivindicações, os cartazes, as frases.

Ah, as frases!!! Uma das melhores foi a apropriação, por uma de nossas lindas vadias, a Stela, do famoso “hey, polícia, maconha é uma delícia’, que virou “HEY, MACHISTA, MEU ORGASMO É UMA DELÍCIA!” e foi gritado por tod@s!

Há tempos não participava de uma manifestação. E nunca, de uma manifestação como essa, pacífica, livre, diversa,  impulsiva, alegre e espontânea.

A convocação se deu principalmente pelas redes sociais da internet, especialmente essa, do Facebook

E a Debora Vieira, linda, atriz, diretora, mulher fenomenal, daqui de BH, deu um show na divulgação e nas entrevistas. Os cartazes da chamada ficaram divinos e inspiradores, e até o Latuff deu sua contribuição, com charges incríveis!!

A cobertura da imprensa foi razoável, uma das melhores que vi foi essa, mas a cobertura alternativa  foi fantástica!!!

Marcha das Vadias – Belo Horizonte, 18 de junho de 2011

Fizemos um dia belíssimo, com uma Marcha feminista, alegre, em BH, e em outras 41 cidades, jovens e adultos marcharam pela liberdade, pelo direito de expressar sua voz.

Ao final, vários manifestantes ocuparam a frente do antigo prédio do Governo de Minas, o histórico “Palácio da Liberdade”, e colocaram alguns cartazes nas grades.

Essa nova vitalidade tem assustado os setores estagnados da sociedade, e alguns órgãos de imprensa tentaram desqualificar os movimentos e os manifestantes. Ledo engano.

Essa Marcha, esse movimento, não vai parar. Ele decorreu do esgotamento, do cansaço, da revolta. Como disse um dos cartazes, da primeira Marcha das Vadias, a de SP, “Cansamos de engolir. Agora é hora de cuspir.”

Em BH, houve um cartaz dizendo: “FEMINISMO NÃO É O CONTRÁRIO DO MACHISMO”.

E em outro cartaz, estava escrito: MARCHA DAS FEMINISTAS

Então, é como disse o vídeo: vamos sair de casa, e construir a sociedade que a gente quer, de verdade!!!

Marcha da Liberdade – Belo Horizonte – 18 de junho de 2011 – No YouTube

E não podia ficar sem uma foto das Blogueiras Feministas de BH! Estávamos quase todas lá! Cynthia, Ludmila, Rane, Fernanda!

Este post foi escrito mais com emoção do que com razão.

Ainda há casos absurdos, como a jovem que foi estuprada por um bombeiro ou paramédico, na boate da Daslu, e vem sendo culpada, porque havia bebido.

Ainda há o juiz-pastor protestante que anula decisão do STF (!!!!)…

Mas eles não tem nem a razão, e nem a emoção…

A única derrota seria nos calarmos.

E isso, não faremos.