Mais internet, inclusão e acolhimento

O metrô de São Paulo é o mais cheio do mundo. Na hora do rush, isso significa que bons hábitos não passarão impunes: os que tentarem entrar e sair do trem com calma, dar passagem, não empurrar os outros passageiros, etc., além de fracassar nessa tentativa, ainda vai ser empurrado e corre o risco de perder o trem. A regra explícita, em cartazes e avisos sonoros, é “não ocupe a região das portas”. Na prática, isso é impossível – não dá para escolher uma região dentro do vagão – ou pouco recomendado – quem o fizer pode não conseguir desembarcar na estação desejada. É difícil ser acolhedor com oito pessoas por metro quadrado.

São regras tácitas que, mesmo em conflito com o que é dito publicamente, aprendemos com rapidez. Meu texto anterior falava que as comunidades precisam ter uma prática permanente de acolhimento para promover a igualdade, inclusive de gênero. Afinal, para mudar uma situação em que as mulheres são minoria, vão haver novatas. Mas a maioria das comunidades tem, embutidos em mecanismos de conservação de status. Por isso, não basta apenas esperar que as pessoas adotem uma postura acolhedora se as regras do jogo não facilitarem essa postura.

Nas comunidades virtuais, parte dessas regras é incorporada na tecnologia, arquitetura e design da interface. São escolhas que refletem uma ideologia. Para citar novamente a Gina Trapani, um exemplo é a forma de preencher o campo “status de relacionamento” de um formulário, se com texto livre ou com um certo número de opções pré-definidas (a chamada lista drop down, pois é exibida como uma cortina que é baixada com as opções). Ela comenta o caso do Google Perfis e reclama por não poder dizer, com todas as letras, que seu status é “em um casamento gay”. No Facebook, a identificação do relacionamento é feita do mesmo modo e não há, sequer, a opção “em um relacionamento aberto”.

Não é segredo que o Facebook é extremamente conservador em relação a moral e costumes. As recentes denúncias de fotos removidas ou perfis bloqueados por mostrarem uma mulher amamentando ou gays se beijando mostram qual é a ideia de bom comportamento que rege o site. O Facebook também mantém um controle estrito da aparência do site. Não é possível trocar cores e imagens de fundo, como acontece no Twitter. É também o que norteia a política de privacidade do Facebook: seu fundador, Mark Zuckerberg, defende que compartilhar informações pessoais é parte de uma nova norma social e que o sistema apenas se adapta a isso.

Mas podemos argumentar que não é verdade que o Facebook simplesmente se adapta; ele também estimula uma regra em que a privacidade não é tão importante. Da mesma forma, ao oferecer um leque limitado de opções para definir o status de relacionamento, com a possibilidade de marcar apenas uma pessoa como alguém com quem se tem um relacionamento (mesmo que seja uma “amizade colorida”), o site contribui para tornar ainda menos visíveis constituições alternativas.

A internet oferece a possibilidade de se abolir ou pelo menos diminuir o impacto dos estereótipos de gênero. As comunidades virtuais crescem não a redor de limites demográficos de idade, sexo e local, mas a partir de interesses comuns, de novas identidades construídas, de afinidades descobertas. Mas por enquanto, temos artigos louvando a presença majoritária das mulheres em site de compra de artigos para bebês e nas redes sociais, onde encontram a oportunidade de serem ouvidas, ainda que principalmente por outras mulheres.

Para transformar em realidade essa possibilidade, precisamos que o feminismo ocupe o espaço virtual, para que as comunidades virtuais insiram, em sua arquitetura, mecanismos de inclusão, de acolhimento a recém-chegados, de respeito à diversidade, de espaço para vozes dissonantes. No Fórum de Internacional de Software Livre, que acontece entre os dias 29 de junho e 2 de julho em Porto Alegre, o grupo Feminino Livre discutirá as barreiras para as mulheres no mercado de tecnologia e a inclusão social através da linguagem do software livre. Essas discussões são cada vez mais necessárias.