Eu leio, tu lês?

Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Castro Alves, “O Livro e a América”. In: Espumas Flutuantes.

Um dia desses alguém pediu licença e se desculpou por me interromper a leitura. Era meu horário de intervalo e eu estava sentada na cantina da faculdade onde trabalho, dando mais bola pra um dos volumes da trilogia Millenium do que para o pãozinho na chapa e o suco que estavam à minha frente. O homem, de uns 60 anos, disse que estranhou vendo alguém lendo alguma coisa naquele lugar, e quis saber o que me mantinha tão absorta. Conversamos por uns quinze ou vinte minutos sobre literatura, trocamos dicas de leitura. Terminei de lanchar e voltei para a biblioteca, pensando na primeira coisa que o moço (era um professor da faculdade) disse: “não é comum ver gente lendo aqui”. Opa, o que será que ele queria dizer com isso? Aqui na cantina? Aqui na faculdade? Eu voto nas duas, sinceramente. Não que as pessoas não tenham contato com livros lá onde trabalho, mas eu não costumo vê-las às voltas com literatura (Isso me lembra aquelas pesquisas sobre leitura em que o pessoal diz “sim, eu tenho o hábito de ler, eu leio a Bíblia todos os dias”).

Eu podia dizer que todo mundo anda lendo bastante, mas não ia ser justa, porque a minha impressão é de que em determinados círculos de convivência meus as pessoas leem mais do que em outros. Ou pode ser que o pessoal só não esteja comentando sobre o que lê, quem sabe? Mas a impressão que eu tenho – e boa parte dela trazida da minha experiência em sala de aula e em biblioteca escolar – é de que nosso número de leitores não andou aumentando tudo isso não, a despeito do crescimento de indivíduos alfabetizados, dos muitos projetos excelentes de formação de leitores, apesar das bibliotecas volantes, da iniciativa de bibliotecas no metrô paulistano. Confesso que gosto de ficar matutando sobre o assunto e de ficar caçando “culpados”, e eles existem em grande número: a inexistência ou a gestão equivocada de bibliotecas escolares, o preço dos livros, a colocação da leitura como obrigação nas escolas, a competição com a televisão e agora com o computador, as políticas de distribuição de livros que não se adequam ao público atingido por elas, a deficiência na alfabetização da população, a falta de uma cultura de leitura etc etc etc.

Mas aí o visitante de coração mais empedernido e paciência mais curta vai me dizer: você aí, que tem obsessão por esse assunto (é verdade, aquele post sobre As Horas também menciona leituras, leitoras, livros), por que isso?

Está na minha vida, está na minha pele. Foto de Deborah Capella.

Tenho tantos motivos pra falar sempre sobre o tema, dos mais afetivos aos mais racionais, passando pelo bom e velho corporativismo de bibliotecária…e não tenho problemas em explicar “por que tudo isso”. Você lê aí e me diz se não tenho razão:

– a leitura propicia um tipo de isolamento e introspecção insuperáveis. Naqueles momentos em que você precisa se resguardar do mundo lá fora, esfriar a cabeça, se transportar pra outra dimensão, esquecer o que acontece em volta…conte com um livro daqueles que te absorvem, te puxam pra dentro das páginas;

– tá difícil ler? Não tem o hábito? Não consegue se adaptar? Mude de gênero. Já ouvi gente dizendo “não consigo ler, tenho hiperatividade” e respondi “experimente poesia. Experimente crônicas, contos”. Não é possível que você não encontre alguma coisa que te agrade. Já dizia nosso velho guru Ranganathan, “todo leitor tem seu livro”. É um universo gigantesco e democrático, o dos livros;

– ler te coloca em contato com gente muito interessante. Sem ilusões, é claro que o mundo está coalhado de imbecis que são leitores vorazes, mas a chance de encontrar gente dizendo coisas interessantes sobre um assunto que te agrade é maior, e trocar ideias sobre leituras é um negócio delicioso;

– ler mais ajuda a pensar mais. É efeito direto daquilo que eu disse primeiro, de se perder na leitura, de deixar a cabeça desligar do resto. Não existe coisa melhor que poder divagar. É higiene mental;

– ler estimula a criatividade: conversa-se melhor, escreve-se melhor, cria-se melhor. O contato com as ideias que estão ali escritas, a possibilidade de recriar cenas, diálogos, imaginar vozes, pensar em desfechos novos, a comparação com outros cenários ou personagens ou situações…tudo isso é possível. Sem essa de “opa, mas não posso ver o filme que dá na mesma?”. Não dá na mesma não, porque a imagem mental que você forma quando lê alguma coisa, a sensação que aquilo te desperta no momento da leitura, nada disso pode ser reproduzido num filme. Claro que há casos em “bate” que o que você imaginou e o que apareceu na tela. Mas sigo achando que a imagem mental é pessoal e muito mais valiosa. Então ficamos combinados, leia primeiro, depois veja o filme;

– ler te faz dar o bom exemplo: se você tem filho(s), sobrinho(s), aluno(s), afilhado(s), se tem contato com meninada, é certeza que já sentiu os efeitos da falta de leitura de toda uma geração. Se não sentiu, aguarde, tá quase lá. Os estudos relacionados à formação de leitores repetem, um atrás do outro, que a leitura deve começar cedo pra que vire hábito (eu gosto mais de falar em prazer, hábito me remete a obrigação, na verdade), que a convivência com leitores também faz uma tremenda diferença. Já pensou, que feio, eu quebrar o pau com o meu filho que tem que ler não-sei-o-quê pra prova daqui a uma semana, e ele me aponta o dedão falando “é, mas você também não lê”? Que feio. Dar presente pra criança é difícil? Descomplique: dê livros, desde miudinha (eu me pergunto o que pensam as mães dos coleguinhas do meu rebento, que faz questão de ir à livraria escolher presente pros amigos aniversariantes). Passeio em livraria com criança é gostoso, principalmente se ela tiver espaço pra sentar, folhear livrinhos, escolher, ouvir uma historinha (aqui na nossa cidade, Bauru, isso está fora de cogitação. As três livrarias não são atrativas nem pra adultos, quanto mais para crianças. Ah sim, e são do mesmo dono. Viva a compra online! Viva o Sesc, com suas estantes bem recheadinhas e seus tapetes e pufes coloridos!). Meia horinha com a criança e uns livrinhos não é perdida, mas é ganha – imagine que ela vai crescer, vai começar a ler coisas que você leu ou está lendo, e vai dar pra conversar com ela a respeito! E por fim, ler com criança é uma delícia, atesto e dou fé;

– a leitura te faz ganhar aquele tempinho besta que escorre pelos dedos em filas, salas de espera, horinhas mortas, momentos de insônia. Carregue um livro na bolsa, no porta-luvas. Coleções de bolso estão mais populares (embora não tão baratas como gostaríamos e embora em alguns casos a qualidade da edição seja inversamente proporcional à pechincha);

– ler te deixa com a mente ágil, ler incrementa seu vocabulário, ler aumenta sua bagagem de conhecimento – que, como sabemos, não ocupa espaço. Você não se torna uma pessoa crítica e combativa (nem mentalmente – porque a gente sabe que há aquel@s que têm vocação para a ação e aquel@s que não, e não há problema algum nisso. Problema é omissão, problema é ficar de boca aberta vendo o mundo girar, é bater palminha pra tudo, achar que tudo é “maior legal” ou que “ah, mas eu nem ligo” ou “não faz diferença pra mim”) sem leitura. Estou MUITO convicta disso. Mas posso ouvir argumentos contrários, se alguém se dispuser a apresentá-los :);

Então é basicamente isso. Você começou a ler esse texto achando que não tinha muito a ver com os temas que costumam aparecer aqui no Blogueiras? Ledo engano: nossas ações são continuamente perpassadas por essa atividadezinha tão bem falada e tão pouco praticada.

Você lê? O quando você lê? O que você lê? Como você lê? O que tem de bom sendo lido aí agora?