Nosso Brasil se escreve com “S” e nosso movimento não é assim não

O Femen tem atuado de forma polêmica na Ucrânia na luta pelo fim da exploração sexual das mulheres. Desde que resolveu se abrasileirar, a polêmica também desembarcou por aqui. E não só por escolher o topless como principal forma de protesto, mas por causa da visão, digamos peculiar, que a integrante mais conhecida do grupo tem do feminismo.

A primeira vez que eu ouvi falar de Sara Winter foi na época da Cúpula dos Povos na Rio +20. Participei da Marcha das Mulheres, que repercutiu de uma forma muito interessante na mídia. Como muitas mulheres tiraram a roupa durante o protesto, a mídia ficou em alvoroço e no seu afã de tirar o caráter político do ato, elegeu como musa a Brígida, integrante do grupo Tambores de Safo e militante da Articulação de Mulheres Brasileiras.

Só que até ver as falas das meninas dos Tambores, o Fantástico dedicou uma parte da reportagem ‘Grupos feministas usam a nudez como forma de protesto‘ para falar da Sara Winter, que estava na Ucrânia, participando de um curso de formação do Femen e de protestos contra a Eurocopa. A princípio, me incomodou aquela coisa da Femen só ter mulheres loiras, jovens e bonitas, e de não ser muita gente, só uma ou duas ali esperneando algumas frases de protesto até a polícia chegar. Enfim, era só um incômodo.

Tambores de Safo na Cúpula dos Povos da Rio +20. Foto de Julia Zamboni no facebook.

Mas não é que a Sara virou quase uma celebridade? Deu entrevista para a Marília Gabriela, para o Superpop, para mais de uma reportagem do G1. Eu não vi nem li quase nada disso, mas tava aqui iludida achando que era uma coisa legal, dar tanta visibilidade para o feminismo.

Doce ilusão, a coisa começou foi a desandar. A presença da Femen Brazil (sim, elas escrevem com “z”) na mídia brasileira faz parecer que o Brasil nunca teve feminista, que estamos aprendendo agora como é ser ativista com a representante de um movimento ucraniano (tinha que ser Europa, claro). E que um dos problemas que assolam o país e prejudicam as mulheres é, pasmem, a pirataria de livros.

Achei ruim que a coisa virou isso, sabe? Eu não conheço nada de como o Femen atua na Ucrânia. Sequer conheço a Sara, nem sei se ela queria tanta atenção e visibilidade. Não sei o que ela conhece dos movimentos feministas pelo o país, se já teve a chance de militar em um movimento organizado, se tem interesse em dialogar.

Eu, particularmente, queria conversar com ela sobre o movimento feminista brasileiro. Porque o movimento que eu conheço é bem diverso, mas não a ponto de abrir mão de suas pautas históricas. Tenho certeza que seria legal discutir a questão de raça, porque as feministas negras têm ideias muito interessantes sobre as intersecções entre racismo e feminismo, que ajudam a perceber porque é um problema que todas as ativistas da Femen sejam brancas.

Ah, queria defender também que o movimento feminista é um movimento político, na medida em que para libertar as mulheres e livrá-las da exploração sexual, a gente precisa reivindicar e garantir direitos, formular políticas e se unir a outros movimentos sociais na luta contra as diferentes formas de opressão.

Por fim, falei todo o tempo na Sara nesse texto porque ela é a pessoa que mais aparece, que se coloca como liderança do grupo, e só está rolando incorporação de novas ativistas agora. Mas é importante pontuar que um movimento não é uma pessoa. Não é um problema protestar sozinhx, mas é complicado reivindicar para si uma identidade coletiva sem entender o que ela significa.  Como eu disse, o movimento feminista é muito diverso e seria legal se o Femen estivesse disposto a se juntar a nós nessa luta, e não fazer escolhas ou dar declarações que às vezes contrariam coisas importantes da nossa agenda de luta.

Nós estamos em um momento muito legal do feminismo, que renovou seu fôlego com a Marcha das Vadias. Só que vivemos em um contexto muito difícil de conservadorismo e, nesse caso, retrocessos dentro do próprio movimento não fazem sentido.