Rock n’ roll anti-sexista: Entrevista com Giordana Moreira

O Rio de Janeiro tem fervilhado com uma programação cultural bastante diversificada. Muita coisa a preços exorbitantes, é verdade, mas também muita coisa gratuita e interessante tem figurado na agenda cultural do estado. Mais interessante ainda é o movimento de organização de diversos grupos independentes (leia-se, sem apoio $ privado ou estatal) pra promover eventos fora do eixo Zona Sul-Centro, como é o caso do coletivo Norte Comum, na Zona Norte do Rio, e do coletivo Let’s Pense, na Baixada Fluminense.

O Let’s Pense foi além da agitação cultural: empunhou a bandeira do anti-sexismo e combinou gostosamente o rock n’ roll com uma proposta de educação não-sexista, procurando promover essa discussão através de formatos não tradicionais de debate, como fanzines, programas de web radio e, por que não, um festival de Rock n’ Roll maneiríssimo, com bandas que contem com integrantes mulheres.

Coletivo Let’s Pense no Circuito Roque Pense. Imagem: Festival Roque Pense.

Entrevistamos a Giordana Moreira, produtora cultural da Baixada e fundadora do Let’s Pense. Giordana faz parte do coletivo de grafitti Artefeito e combinou a proposta anti-sexista do grupo com a dinâmica de fanzine da Let’s GO, feita pelo fanzineiro Paulo Vítor. Daí nasceu o Let’s Pense, como ela conta aí embaixo:

O Let’s PENSE saiu da fusão entre a Let’s GO e a campanha Arte PENSE, do coletivo Artefeito, que já tinha uma política anti-sexista. Você pode contar um pouco sobre o Artefeito e sobre como surgiu a ideia de fazer uma campanha de grafitti por uma educação não-sexista?

Grafitti do Coletivo Artefeito. Imagem: Festival Roque Pense.

O Artefeito surgiu do projeto “Grafiteiras pela lei Maria da Penha”. Trabalhávamos difundindo a Lei 11.340 pelas comunidades da Baixada Fluminense. Quando conheci a cartilha da CAMTRA sobre a proposta de uma educação não sexista logo me identifiquei, porque na Artefeito nós focamos mais na educação do indivíduo, nas oficinas e intervenções, provocando a reflexão sobre as discriminações sofridas pelas mulheres e sobre como não reproduzir isso. Daí nos concentramos no artigo 8º da lei, que prevê no currículo escolar a discussão sobre gênero, e desenvolvemos atividades específica para a educação de meninas e meninos para a não discriminação. Além disso, muitas jovens ainda rejeitam a palavra feminismo, porque têm uma ideia equivocada e estereotipada sobre, então usamos o termo anti-sexista, e fomos muito felizes na campanha, com exposição, painéis na rua e oficinas.

Além do festival Roque Pense, o Let’s Pense também tem um trabalho muito legal com fanzines. Como rola a produção e a distribuição deles?

Fanzine do Let’s Pense. Imagem: Festival Roque Pense.

A primeira ideia foi o fanzine, em que eu escrevia sobre o sexismo e o Paulo Vìtor criava as artes em cima. Mas tivemos uma necessidade imediata de compartilhar com a galera, debater. Daí fizemos a oficina, um evento chamado “Jornada urbana por uma educação não sexista”, com uma banda de rock com mulheres. Foi só um instante para a galera colar e querer fazer mais mil coisas. Fazemos um fanzine por diversos motivos. Em uma data significativa, como o Dia da Educação não sexista, ou em um momento em que precisamos expressar nossa opinião sobre determinado assunto. Como foi o veto á cartilha anti-homofóbica em 2011, ficamos indignadas e lançamos uma edição. Também quando não estamos fazendo nenhum evento, que dá trabalho e exige recursos, fazemos e lançamos uma nova edição do fanzine, porque sempre precisamos estar nos movimentando. Não tem periodicidade certa, mas bimestralmente estamos com alguma atividade, seja fanzine, um novo programa de rádio, uma edição do circuito, uma oficina. A distribuição é feita em nossos eventos, ou outros através do nosso stand. Mas divulgamos o texto pelo blog, que qualquer uma pode acessar.

Você pode contar um pouco sobre a experiência da web radio?

Rock n’ roll feminino in doors. Imagem: Roque Pense.

A rádio surgiu por um único motivo. Fazíamos o circuito musical, o público comparecia em peso, levava os fanzines, assitia às bandas das garotas, mas precisávamos de um momento de debate, de reflexão mais profunda sobre o sexismo, além do fanzine que a galera lia em casa, sem conversa. Então uma web radio seria a união entre a música que todo mundo queria e o debate, mas sem a cara formal, com um mediador e uma mesa. Temos os apresentadores e reportagens, podemos receber artistas, ativistas para a conversa, e as rockers podem dar sua opinião também.

Atualmente, como é a dinâmica do coletivo Let’s Pense?

Temos uma dinâmica bem peculiar. As pessoas participam fazendo alguma coisa, seja tocando, agitando o evento, as artes, a produção, e então nos encontramos para pensar e organizar a atividade. Temos uma equipe executiva que pensa os projetos, mas é bem circulante, as pessoas participam conforme podem e querem, sem obrigação de nada. Eu, o Paulo Vítor, que faz as artes e também apresenta a radio, o Igor de Assis, que faz a produção técnica, e a Letícia Lopes estamos em todo o momento. Em especial a Letícia, pois é uma rocker de anos aqui da região e pela primeira vez encontrou algo que ela pode se expressar e fazer coisas qual se identifica, além de poder tocar bem alto sua guitarra e também produzir. E isso dá bem certo. Ultimamente temos mais necessidades de fazer oficinas, debates… A galera quer fazer um rock, mas também quer discutir e fazer alguma coisa a respeito do que é discutido.

Como tem sido a resposta da juventude e da população em geral da Baixada às ações do Let’s Pense?

Paulo Vitor e Giordana Moreira. Imagem: Roque Pense.

A Baixada Fluminense tem um público rocker muito grande, e muitas dificuldades de fazer acontecer. Quando rola um fanzine, um show, um programa de radio só com discotecagem, a galera curte, vai, apoia, ajuda. Essa proposta é nova, até muito ousada porque aqui ninguém tinha feito nada com esse público. Mas as meninas foram às reuniões, a equipe cresceu e a galera aderiu à ideia principal, que é a cultura anti-sexista. No festival Roque Pense!, que começou dia 21 de junho, 50 mulheres, entre rockers, skatistas, grafiteiras e cineclubistas se apresentaram durante os quatro dias de shows, fora a equipe de produção quase toda de mulheres. Tivemos 3000 visualizações no blog durante as transmissões ao vivo dos shows, soubemos inclusive de várias meninas que não puderam ir por que o pai não deixou, e que acompanharam pela internet. Nós protagonizamos o primeiro circuito de rock de bandas com mulheres da região, inédito e com uma excelente recepção do público, dos apoiadores e das artistas. A Baixada sempre surpreende e responde às iniciativas culturais. As rockers da Baixada e de fora ficaram muito felizes, se identificaram com a proposta. E os caras estão curtindo por que as garotas sabem fazer um bom rock and roll!

1º Circuito Roque Pense. Imagem: Festival Roque Pense

Quais você considera como sendo os principais problemas que o coletivo tem enfrentado e que vitórias você percebe até agora?

Os problemas são os clássicos da Baixada: falta de espaços físicos, incentivos público e privados locais. De resto, temos tudo: profissionais da produção, bandas bacanas, público grande e presente. As vitórias são as minas correndo pra ensaiar e se inscrever no festival, se movimentando, se identificando com a proposta e chegando junto para fazer alguma coisa. Acabei de voltar de Pernambuco, onde fui a convite do coletivo Flores Crew para compartilhar as estratégias do Roque Pense em uma oficina de empoderamento feminino na SOS Corpo. Vamos lançar o vídeo do projeto daqui a alguns dias e quero repassar o que aprendi em Pernambuco em uma oficina. Continuamos nossa saga para realizar as ideias que surgem, pois quanto mais gente, mais ideias e nosso compromisso é realizá-las, não ficar só no discurso.