Muitas mulheres votam, mas poucas são eleitas: precisamos mudar essa realidade

Bancada feminina no senado em 2011 - foto de Waldemir Rodrigues - Agência Senado
Bancada feminina no senado em 2011 – foto de Waldemir Rodrigues/Agência Senado

No Brasil, as mulheres votam desde 1932 e desde 2000 são a maioria do eleitorado. Atualmente as mulheres brasileiras têm ainda maior nível de escolaridade e somam quase metade da população economicamente ativa do país. Mesmo diante desse quadro, ainda existe a subrepresentação de mulheres nas esferas do poder executivo, legislativo e judiciário.

Atualmente, a bancada feminina no congresso nacional conta com 45 deputadas (8,77%) e 12 senadoras (14,81%). Temos 2 governadoras (7,40%), 133 deputadas estaduais (12,85%), 504 prefeitas (9.8%) e 6.511 vereadoras (12.53%).

Em primeiro lugar, devemos nos perguntar: por que a presença de mulheres é tão pequena no poder? Para algumas pessoas essa pergunta, por si só, é descabida. Existe um pensamento arraigado de que as mulheres não foram talhadas para a política e que esse número apenas reflete “democraticamente” uma característica “natural” delas. E nós, blogueiras feministas, combatemos esse pensamento (machista, por sinal) e nos colocamos para analisar quais são as estruturas sociais que impedem ou dificultam o acesso das mulheres aos cargos políticos.

Barreiras
As dificuldades começam na vida privada: culturalmente as mulheres são responsáveis por uma longa jornada de trabalhos domésticos, não remunerados. Quando a mulher ingressa no mercado de trabalho recebe, em média, salário menor que os dos homens para desempenhar funções semelhantes e encontram dificuldade de ascender profissionalmente. Com todas essas atribuições sociais, como ter tempo de ingressar na política?

Quando a mulher consegue chegar aos partidos políticos, encontra problemas como o descumprimento da lei* que determina cota de 30% de candidaturas femininas e também o de financiamento para as campanhas femininas.

Para a socióloga Fátima Pacheco Jordão, do Instituto Patrícia Galvão, essa baixa representação na política se deve a diversos aspectos e, dentre eles, a própria dinâmica dentro dos partidos: “Pessoalmente acredito que os partidos têm temáticas estreitas, que não abrangem as temáticas das mulheres, dos jovens, dos negros. Além disso, a hierarquia dos partidos é mais seletiva do que até a participação nos parlamentos: a filiação de mulheres e a freqüência delas nos diretórios é muito alta. Porém nos postos de poder, nas executivas, é muitíssimo baixa”.

A questão da temática das políticas para as mulheres também foi abordada pela nossa blogueira Luka. Segunda ela, é preciso avaliar de que forma elas estão inseridas nesses espaços e se existem condições para fazerem avançar pautas feministas:

“É importante localizar este debate de mulher e poder junto a violência machista, pois sem uma política casada entre as ações afirmativas e uma política de formação feminista mais contundente se avança muito pouco, pois não queremos ir para os espaços de decisão para secretariar os homens, mas sim dirigir e formular linha política, pois só realmente na tarefa de formulação e direção é que efetivamente conseguiremos disputar a não secundarização das nossas pautas.”

Voto feminino
Imagem divulgada pelo blog Ilha da Lindalva, que usou como base um selo americano comemorativo de 1991.

Temática feminista
A blogueira feminista Soraia Mendes se candidatou para vereadora em 2000, numa cidade do Rio Grande do Sul. Ela conta que na época nenhuma mulher foi eleita num total de 21 vereadores. Soraia avalia: “Penso que há um conjunto fatores [que dificultam o acesso da mulher aos cargos políticos]: a falta de financiamento é um problema do sistema como um todo”.

Por outro lado,  Soraia alerta: “Sustentar a plataforma feminista é um entrave ainda maior. Os “companheiros” até escutam as mulheres que analisam a conjuntura e apresentam propostas sinalizando temas “centrais”. Entretanto, quando a discussão que propomos parte da necessidade de reformas profundas, dificilmente somos ouvidas, que dirá, apoiadas internamente”.

Reforma política
É por tudo isso que existe uma forte corrente dentro do feminismo que defende uma ampla reforma política para minimizar essas barreiras que impedem o acesso da mulher aos poderes. E é preciso manter aceso esse debate para que mais mulheres participem de fato das políticas e promovam mudanças nessas esferas de poder.

Mas enquanto a reforma política não acontece, que tal conhecermos quem são as mulheres que estão se candidatando hoje? Que tal apoiarmos as candidaturas das mulheres que estão aí, enfrentando todas essas barreiras? Elas estão precisando de nosso apoio, sem dúvida.

Para fazer com que mais mulheres nos representem, precisamos apoiar uma reforma política que ofereça mais condições para as candidaturas das mulheres. Precisamos continuar lutando pelas mudanças na vida privada (divisão de tarefas domésticas, equidade de salários), que também trazem reflexos para a vida política. E por fim, convido todos a observarem as mulheres que já estão aí, candidatas nas próximas eleições, a despeito de toda a falta de incentivo, a despeito da conjuntura desfavorável, batalhando por nossas ideias feministas. Mulheres que levam a pauta feminista para os espaços de poder merecem nosso apoio!

Opinião pessoal
Regra geral, gosto de votar em mulheres, quando isso é possível. Algumas de nós, blogueiras feministas, somos candidatas. No entanto, o coletivo de blogueiras feministas decidiu que não irá apoiar nenhuma delas, para não apoiar nenhum partido em específico e correr o risco de apoiar um partido ou coligação que apresente propostas contrárias às pautas feministas. Essa é uma decisão do coletivo.

Até respeito, mas pessoalmente discordo, e sou minoria, faço questão de repetir para não deixar margem para dúvidas. Pela atual conjuntura não existe um só partido totalmente feminista, que dirá que não tenha coligação em algum grau com partidos que defendem propostas claramente machistas. Deixar de apoiar uma candidatura de uma mulher e que tem pautas feministas por esses motivos elencados, é deixar que mais uma vez homens e suas pautas contrárias ao feminismo continuem ocupando esss espaços de poder. E se dentro dessa conjuntura partidária caótica (e desfavorável para as mulheres) ainda temos mulheres que assumem a pauta feminista como bandeira, são essas que vou apoiar.

*A Lei 9.504, de 30/9/1997, estabelece normas para as eleições, dispondo que os partidos ou coligações reservem o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Anteriormente, a Lei 9.100, de 2/10/1995, já previa uma cota mínima de 20% das vagas de cada partido ou coligação para a candidatura de mulheres