A crise do cuidado ou a nova “briga” entre os sexos?

Se tem uma coisa interessante no mundo é que nunca perguntam para as mulheres o que elas acham sobre seus próprios problemas. E, não poucas vezes, ignoram aquilo que as próprias mulheres escreveram sobre eles. Estudam, conjecturam, mas sempre tratando a mulher como um objeto de estudo piagetiano, afinal de contas, interagir com o objeto de estudo é uma falta grave à imparcialidade empírica.

Um exemplo bem atual disso, que acabei de falar, é a “recente” crise do cuidado. Parece que os governos do mundo inteiro descobriram (só agora) o peso das atividades do cuidado que vinham sendo exercidas gratuitamente pelas mulheres a, digamos, muito tempo.

Explico. A crise do cuidado é o termo que vem sendo utilizado para tratar de uma série de temas que têm como consequência a recusa feminina em trabalhar de graça. Eu estou resumindo grosseiramente, pois a crise é bem mais complexa.

Quando eu digo trabalhar de graça, é que a crise do cuidado se consolida justamente quando os governos do mundo inteiro começam a se ver obrigados a fornecer uma série de serviços à população que antes eram providos somente pela benevolência feminina, como cuidado às crianças e aos idosos. Mas além dessa “rebeldia” feminina, faz parte da crise do cuidado também a queda da taxa de natalidade. Afinal de contas, famílias pequenas tem menos chances de terem uma criatura iluminada que se disponha a abdicar de muita coisa para cuidar dos progenitores.

[+] A Crise do Cuidado Sob a Perspectiva de Gênero.

Um ( ) sobre a taxa de natalidade: o que muitas pessoas não entendem sobre a taxa de natalidade é que uma família com dois adultos, para manter o equilíbrio, precisa ter pelo menos dois filhos, assim fica estável, mas não cresce. Essas duas crianças, quando chegarem à idade adulta vão trabalhar e contribuir para, inclusive, manter o benefício de seus pais.

Mas os problemas começam aí. É sabido que quanto maior a escolaridade de uma mulher, menos filhos ela tem. Esse conhecimento faz com que muitos governos tomem medidas para estimular a natalidade, como, por exemplo, pagamento em dinheiro para casais com filhos. Isso cobre os custos mais elementares de se ter um filho, mas porque isso não resolve o problema? Ou melhor dizendo, e o cuidado?

Atividade das doulas na maternidade municipal de Contagem/MG. Foto de Ronaldo Leandro/Prefeitura de Contagem

E eu acho que a questão mais importante a se responder/resolver é o “porque” ser mãe é algo tão desvantajoso em nossa sociedade? Quais são as recompensas sociais que nossa sociedade fornece a mulher-mãe além de uma vaga admiração? Porque a maternidade é colocada em termos de uma “altruísmo compulsório”? Será, por exemplo, que com o fornecimento de creches, os problemas vão ser resolvidos?

Anthony Giddens, sociólogo britânico, fala que com a saída da mulher para o mercado de trabalho ela amadureceu dentro da esfera pública e da privada, mas o homem ainda não sabe lidar com a esfera privada. Então, minha questão é: por que todos os esforços para se resolver a taxa de natalidade e a “crise” do cuidado se concentram na mulher? Por que tudo que tem a ver com família e ambiente privado necessariamente tem que se concentrar na mulher? Por que não obrigar o homem a exercer a paternidade?

A Priscilla comentou o assunto no post sobre creches e usou o termo “economia” do cuidado. É outro termo interessante, pois, quando o governo oferece esses serviços acaba pagando para as mulheres fazerem o que elas faziam antes de graça, visto que essas profissões são amplamente exercidas por mulheres (e consequentemente, mal remuneradas). Isso nos leva a outro ponto da crise. Quando o governo paga para as mulheres exercerem o cuidado, fixa um preço na atividade que é necessariamente baixo, pois, o governo pode ser considerado, mesmo no Brasil, como uma instituição controlada por homens ou um poder masculino.

Fazendo uma analogia, é como a pensão que o pai paga para os filhos, para não ter que se preocupar com eles. Dá o dinheiro todo mês, bate no peito e diz que é pai e se vê como um homem com H. Na minha opinião é isso que acontece. O Estado paga e a mulher fica com o problema nas mãos, pois é assim que se encara uma preocupação não egoísta com o outro na sociedade capitalista contemporânea – um problema.

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Autora

Adriana Mattoso é uma neurastênica reflexiva em busca de paz de espírito. Atualmente em trânsito, definitivamente sem destino. Para quem interessar, louca por literatura, feminismo e artesanato. Tentando levar todas essas paixões para o plano profissional.