Desabafo de uma mulher nem tão de aço

Este será um post desabafo. Já peço desculpas se fujo um pouco ao que costumo postar.

Isto posto…

Nas redes sociais, constantemente recebo marcações sobre casos marcantes, via de regra, escabrosos, sobre fatos envolvendo policiais, e pedindo minha opinião, minha manifestação.

Não me importo, pelo contrário, me sinto orgulhosa (não sei bem se é a palavra certa, mas, enfim, na falta de uma melhor, fica essa mesmo) de ser uma referência para tantas pessoas queridas, como Delegada de Polícia.

Também recebo, via e-mail por este blog, pelo twitter, Facebook e meu blog pessoal, alguns pedidos de ajuda e orientação.

Da mesma forma, não me importo, pelo contrário, agradeço imensamente a confiança em mim depositada.

Ainda, não sei se vocês sabem, mas sou professora, de Direitos Humanos, da Academia de Polícia Civil de Minas Gerais. Sim, isso mesmo.

Certa vez, um cartunista que admiro (admirava?) e de quem usava charges super críticas como referência, nessas aulas de Direitos Humanos, não só para “aspiras” mas também para policiais com anos e anos de carreira, ao ser mencionado pela arroba no twitter, por mim, sobre o uso de suas charges dentro desse contexto – Direitos Humanos para Policiais – disse que eu estava tentando ensinar um crocodilo a ser vegetariano . Respondi: “Prazer, sou uma crocodila vegana.”

Sim, eu ando armada. Não, não é para o seu fetiche. E não, eu nunca matei ninguém.

Porque coloco tais memórias?

Porque, nesta semana, um chefe de Polícia, do Amazonas, claramente, emitiu (ou supostamente emitiu, não posso afirmar, afinal, não sei TODO o contexto em que ele proferiu a fala) uma expressão extremamente infeliz. Infeliz, sendo eu, generosa com o colega e, em tese, superior hierárquico.

Segundo notícia veiculada, o delegado, Chefe da Polícia Civil do Estado do Amazonas, teria dito: “Essa questão [compra] da virgindade não foi detectada, até porque, quando uma menina começou com 13 anos, ela não era mais virgem. São meninas rodadas, exatamente, são meninas que tiveram passagens por vários clientes”, afirmou, em Manaus, o delegado-geral.”

E eu, ao comentar, me peguei pensando na importância do discurso.

A Jeanne já escreveu um post fabuloso, aqui mesmo, sobre isso. A palavra tem poder.

“Mas faz pouco tempo que descobri a força da palavra, em seu sentido mais amplo. Foi por meio do feminismo, de ver como a violência contra as mulheres se manifesta, principalmente, no campo do simbólico. Foi aí que vi a força da piadinha, do apelido engraçadinho, daquele meme bobinho que reproduz a dicotomia da mulher-pra-casar e da mulher-pra-transar. Vi a força reafirmadora do discurso na propaganda, nas revistas. E vi o quanto eu, mesmo querendo ser certa, errava. Porque reproduzia a linguagem sem questionar. Nós jornalistas sabemos – ao menos em tese – que a linguagem repetida sem questionamento vira clichê. O que aprendi no ativismo é o lado mais perverso do clichê: o estereótipo. Palavra repetida tem força de criação. De profecia. Forma o mundo e inventa categorias inteiras. Agrupa as pessoas de certas formas e não de outras, e o que poderia ser apenas uma escolha de conjunto acaba sendo a escolha de um mundo.”

Eu sou Delegada de Polícia, em Minas Gerais. Antes, fui advogada. Antes, bem antes, pensava em ser jornalista. Ler e escrever sempre foi um hábito. Sei bem o poder das palavras. Sei bem como as palavras machucam. Ou constroem. Como o discurso pode convencer, absolver e condenar.

Nem sempre, quando recebo pedidos de ajuda, ainda mais de pessoas que estão longe, consigo ajudar.

Nem sempre tenho a palavra certa para oferecer para quem pede auxílio.

Escolhi a militância recentemente, em virtude do contato com uma miséria que minha vida anterior, protegida, me escondia.

Na polícia não tem jeito: a gente é confrontada com o que há de melhor e pior na humanidade.

E sinto que, pelas minhas palavras, pelo meu discurso, posso ajudar. Ou posso me frustrar.

Com a minha militância virtual, aqui e em outros espaços, eu tento compensar, quem sabe, a impotência diante de um dia a dia que nem sempre é glamouroso ou mesmo emocionante.

Mulheres de Aço – imagem de divulgação – GNT

Ainda não assisti ao seriado da GNT, Mulheres de Aço. Apenas um trecho. Mas uma colega comentou que assistiu, e apesar de achar legal a abordagem, achou chato. Porque é exatamente a rotina de uma delegacia. Qualquer delegacia: horas de tédio, afogadas em papéis e cobranças, sem reconhecimento, sem valorização. Sem estrutura decente para trabalhar ( e olhem, as delegacias do RJ, onde se passa a série, que acompanha a rotina verdadeira de quatro Delegadas de Polícia, são bem arrumadinhas perto do que é a realidade desse Brasil. Eu, atualmente, não posso reclamar, em termos de prédio, equipamentos, estrutura física, material para trabalho – papel, tinta, carros, computadores, mas ainda assim, reclamo: a demanda é absurda, é sobre humana). E, junto com o tédio, os momentos de pura adrenalina. É quase uma trincheira, ainda que não goste de comparações com guerra.

E continuo tentando agir no micro: ajudar quem a gente pode. Acionar os órgãos competentes, tentar ser ágil na conclusão dos procedimentos, ser honesta, ser decidida, não ser violenta. Ser líder e referência positiva.

No entanto, não sou perfeita. Ainda bem, a perfeição deve ser bem monótona.

E ainda, mais importante: não sou a única. Sou, talvez, das poucas que se expõe, que dão a cara para bater, que mostra quem é, e como é, tentando me mostrar sem máscaras.

Mas, ainda bem, felizmente, não sou a única. O próprio fato de poder me manifestar, livremente, da forma como me manifesto, demonstra que existem, em todos os lugares, pessoas que acreditam em mim, e se acreditam em mim, acreditam nas causas que defendo.

Mesmo que não compreendam, ainda, se mostram abertos a um debate.

E volto ao discurso: eu falo, em sala de aula, sobre feminismo, racismo, homofobia. Tudo isso, obviamente, faz parte não só de uma temática de Direitos Humanos, mas de uma rotina de trabalho policial.

Lidamos com machismo, todo dia. Aquele machismo que mata, que espanca, que estupra, que humilha, que agride.

Lidamos com a homofobia. Com o racismo. Com o ódio e a intolerância.

E é fácil esquecer que existem, nas policias, pessoas que lutam contra isso, e que são essas pessoas, que estão de alto a baixo nas escalas de hierarquia, que permitem que eu possa ser como sou. Que possa escrever aqui, que possa não só divulgar a Marcha das Vadias, mas possa participar e mostrar minha cara e meu nome.

Essa semana, tive demonstrações do que há de pior e do que há de melhor nas pessoas, só em um pequeno círculo de policiais. E de aspirantes a policiais.

Não que eu seja boa, nem boazinha. Também sou falha, imperfeita, peco por orgulho e vaidade, peco por omissão, ainda que tente não ser hipócrita. Peco por pensamentos, atos e palavras. Sou agressiva, incisiva. Não me desculpo por isso, é por uma causa em que acredito. Mas as vezes, posso ultrapassar limites. Já ultrapassei. As vezes, dá para se desculpar. As vezes, não dá.

Mas me policio, sem trocadilhos, por favor, para não chamar a próxima de puta. Para não cair no preconceito de classe. Para não acreditar que estereótipos que se repetem sempre vão representar a realidade.

E aqui, eu encerro, com um apelo: não coloque, no mesmo saco, todos os policiais do mundo, até aqueles que você não conhece. Não cometa o mesmo erro pelos quais os policiais são criticados: categorizar e classificar pessoas em virtude de sua cor, de sua classe, de sua origem.

É difícil, mas é possível.

Se você é militante, procure se aproximar, sem medo, de uma unidade policial, de uma instituição que ainda possui uma imagem negativa, mas essa imagem não vai mudar enquanto não nos conhecermos uns aos outros, sem conceitos pré concebidos, sem julgamentos de todos por alguns.

Não sei se os bons são maioria.

Mas ainda que poucos, somos muitos.

Nos ajude a ajudar a sociedade a mudar, e a mudar junto com ela.

Juntos, podemos agir no macro, também.

 

(Pesquisando por imagens da série da GNT, achei uma crítica. Não vou tecer comentários, porque, apesar de positiva, tem que cair nos estereótipos de que já falei aqui e aqui)