Depois da separação dos meus pais

Texto de Carolina Pombo.

Dentro do meu círculo familiar e de amizades, histórias de divórcios que acabaram com mães sobrecarregadas não são raras. É comum as pessoas acreditarem que as mulheres são capazes de assumirem sozinhas o trabalho de cuidar e educar as crianças depois de uma separação. É muito raro acreditarem que homens podem assumir a mesma função sem uma parceira. Em poucos casos litigiosos, os juízes decidem pela guarda compartilhada ou pela guarda paterna.

Na década de 1990, fui uma das primeiras meninas da minha turma da escola a viver a separação dos pais e a mudança radical da família. Eu tinha sete anos quando meu pai saiu de casa e tinha nove quando fui morar com ele e sua nova esposa. Durante esses dois anos de intervalo eu o visitava quinzenalmente e, às vezes, era surpreendida com sua presença em nossa casa. Testemunhava as brigas nas quais minha mãe falava da pensão alimentícia e da dificuldade em nos sustentar sozinha. Ele era engenheiro, empregado de uma empresa pública e ela tinha dedicado a maior parte do tempo do casamento às quatro filhas, sem uma formação profissional, apesar de uma pequena experiência como massoterapeuta.

Depois da separação minha mãe trabalhou como podia, fez cursos profissionalizantes, contando com a ajuda da filha mais velha e de algumas adolescentes que chegou a contratar em períodos variados para ficarem com as mais novas. Tivemos péssimas experiências com essas babás. Ela vivia com o dilema de se ausentar mais de casa para estudar e trabalhar ou ficar mais tempo conosco, com pouca esperança de crescer profissionalmente e ter uma remuneração mais satisfatória. Morávamos de aluguel e, num determinado dia, me lembro de tê-la acompanhado até a casa do proprietário para pedir mais um prazo para acertar os atrasados. Minha mãe pressionava meu pai a pagar a pensão e ameaçava colocá-lo na justiça.

Então, meu pai casou de novo e decidiu nos levar para morar com ele — assim, não seria obrigado a pagar pensão. Eu tinha uma relação superficial com ele, nada comparado à devoção que sentia pela minha mãe. Sofri muito porque quinzenalmente a via chorando. Era comum que ela se emocionasse em nossos encontros, sempre dizendo que estava com saudades. Porém, ela não tinha permissão para entrar na minha nova casa, nem mesmo em nossas festinhas de aniversário. Foram quase três anos assim. E ela conseguiu criar condições financeiras um pouco melhores, ainda que insuficientes para que voltasse a nos sustentar sozinha. Isso só foi acontecer porque meu pai desistiu de ficar conosco. Sua nova esposa não aguentou a barra de cuidar de quatro crianças e uma adolescente (porque ela mesma já tinha duas de seu primeiro casamento), quase sozinha (com a ajuda de uma babá e sem ajuda quase nenhuma do meu pai, que mal lavava os pratos), enquanto terminava o mestrado e trabalhava fora.

Voltamos para a casa da minha mãe e testemunhamos várias discussões acerca da tal pensão. Além de não comparecer a todas as visitas programadas, meu pai resistia ao máximo em contribuir financeiramente para nosso sustento. Isso só melhorou um pouco quando minha mãe finalmente foi à Justiça e ele teve que aceitar um acordo para pagar inclusive as pensões atrasadas, que passaram a ser descontadas direto de seu contracheque. Só que sua vida profissional passou a ser muito instável e ele passou a trabalhar sem carteira assinada, o que nos impedia de ter qualquer comprovação e expectativa dessa contribuição.

Mudamos de apartamento várias vezes, cada vez para um lugar menor e mais barato. Minha mãe não conseguia lidar com as incertezas dessa renda. Uma vez, num período muito difícil, ela nos levou até um internato católico, filantrópico, dirigido por freiras (minha mãe não era religiosa e nunca tinha sido católica), e nos contou, com lágrimas nos olhos e um esforço para sorrir, que estava pensando em nos deixar lá (eu e a minha irmã mais nova). Imediatamente, entrei em desespero e disse que não, de jeito nenhum eu ficaria longe dela de novo. É claro que ela nem insistiu. Ao invés disso, me levou para tirar a carteira de trabalho. Comecei a trabalhar com dezesseis anos, ao mesmo tempo em que estudava.

Tivemos outros momentos difíceis como esse ao longo da minha adolescência. Corri atrás para conseguir me formar no segundo grau (atual ensino médio) e passar no vestibular de uma faculdade pública, mesmo ouvindo minha mãe dizer repetidamente que eu deveria procurar um curso técnico e fazer um concurso público para ter estabilidade financeira e ser uma mulher independente. Mas eu queria me realizar e não somente me sustentar.

Foto de Carolina Pombo, arquivo pessoal.
Eu, minha mãe e minha irmã. Foto de Carolina Pombo, arquivo pessoal.

Conseguimos. Eu e minha irmã mais nova conseguimos seguir nossos sonhos profissionais, sem abandonar esse ensinamento de nossa mãe, de que temos que buscar a independência financeira. Mais do que isso, aprendi com sua experiência que se um dia tivesse filhos seria com um parceiro de verdade. Alguém que assumisse na mesma medida o trabalho da maternagem. Isso não dá pra ser garantido. Não há teste que qualifique a paternidade ou a maternidade. Não há formas de assegurar que o meu parceiro seja um pai presente, ainda mais num mundo onde é normal deixar a maior parte desse trabalho para as mulheres. Mas, a cada momento da vida em que me senti sobrecarregada com essa função, recuperei na memória os apertos que minha mãe viveu e lutei arduamente para não deixar que minha filha se tornasse quase exclusivamente dependente de mim. Esse é um constante e enorme desafio.

Esse desafio é produzido por tantos fatores que, como mãe e mulher, gasto uma energia incrível para superá-lo até hoje. É claro que o carinho e reconhecimento da minha filha me dá mais energia e, de certa forma, se tornou um dos maiores motores da minha carreira profissional. A maternidade tem seus ganhos… Mas, de maneira geral, a sociedade espera que a mulher assuma o trabalho da maternagem integralmente (inclusive sem recursos coletivos, como; creches, babás, ajudas familiares). Ela até admite que você precise de “ajuda”, mas mantendo-a em seu devido lugar: o de algo “extra”, o plus que algumas mulheres mais independentes podem e devem ter. E a sociedade ainda nos cobra um preço muito caro por isso.

Depois, tem as expectativas da escola, que geralmente recaem sobre as mulheres. Quando aparece algum problema, alguma reunião, alguma demanda em relação à criança é com a mãe que se fala, em primeiro lugar. Então, os recursos coletivos com quais contamos ainda são muito sexistas. No mercado de trabalho também esperam que essa mesma mulher se ausente mais, dedique-se menos e esteja constantemente preocupada com a família — o que afeta sua remuneração e expectativa de crescimento nas empresas. O desafio é ainda maior para as mães que se separaram e que têm que lidar com um ex-marido que é um pai ausente.

Uma vez, ouvi da mãe de uma amiga de adolescência que a minha mãe nunca poderia ter tido filhas! Ouvi assim, na lata. Fiquei super triste mas não reagi, porque ela parecia mesmo ter poder e motivos para emitir um julgamento como esse — a sociedade autoriza a qualquer pessoa a avaliar a maternidade alheia. Porém, minha mãe era e continua a ser uma das pessoas mais preciosas da minha vida, uma das influências mais marcantes em minha história.

Ela não podia me dar brinquedos variados nem roupas caras. Ela não me poupava do sofrimento que sentia. Muitas vezes, sofria com as dúvidas e as frustrações por ter abdicado sua carreira profissional em função do tempo de dedicação às filhas, e não nos escondia essa realidade. Ela foi verdadeira e muito batalhadora. Mas, no fim das contas, ainda foi julgada e condenada por não ter desempenhado a função central de sua vida da forma “padrão”. Até mesmo mulheres supostamente bem intencionadas tinham coragem de criticá-la por suas dúvidas e suas escolhas. Mas eu continuo feliz em ter aprendido muito com sua experiência e, em poder narrar hoje, em espaços feministas, do quanto ela é também fruto das opressões que a sociedade normaliza.

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Carolina Pombo é escritora, psicóloga e pesquisadora. Curiosa, inquieta e questionadora, escreve seus diários no Kaléidoscope e aprende diariamente a ser mãe feminista.

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