Representações do aborto na TV

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em outubro, a Polícia Federal fez uma mega operação no Rio de Janeiro para desarticular uma rede que há anos realizava abortos clandestinos na cidade. Em setembro, o corpo de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, dois filhos, foi encontrado carbonizado dentro de um carro após ir a uma clinica clandestina. No mesmo mês, Elizângela Barbosa, 32 anos, três filhos, morreu num hospital com um tubo plástico em seu útero perfurado, decorrente de um aborto inseguro.

Por conta dessa operação, os telejornais passaram vários dias falando sobre o tema, enfatizando os valores cobrados — que chegavam até R$7 mil — e o fato de que eram realizados procedimentos em mulheres que já estavam no sétimo mês de gravidez. Nenhuma discussão sobre a legalização do aborto foi vista nesses programas jornalísticos, nenhuma informação sobre como seria a situação dessas mulheres se o aborto fosse legalizado, gratuito e seguro foi dita. É importante dizer que não há aborto no sétimo mês de gravidez. Com 25 semanas de gravidez já é possível realizar um parto prematuro. Aborto e parto são procedimentos diferentes. Isso só mostra o quanto a criminalização do aborto e sua ilegalidade lucram com a morte de mulheres e o quanto a mídia contribui para a desinformação.

A operação da Polícia Federal foi batizada de: Herodes. Rei da Judéia que, segundo a bíblia, teria ordenado a execução de todos os meninos da vila de Belém para evitar perder o trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”. Isso só contribui para que as pessoas façam a associação de que aborto significa assassinato, gerando cada vez mais desinformação. Também mostra que evitar a morte de mulheres não é o foco da operação. Afinal, quem se importa com essas mulheres? Com certeza não é a mídia e nem a polícia.

Além da cobertura em seus principais telejornais, semana passada, a Rede Globo teve dois momentos em que o aborto foi pauta.

“Nem que eu tenha que te colocar numa jaula, você vai ter esse filho”.

Na novela 'Império', Du (Josie Pessoa) interrompe jantar da família Medeiros e avisa que está grávida. imagem: Rede Globo/Divulgação.
Na novela ‘Império’, Du (Josie Pessoa) interrompe jantar da família Medeiros e avisa que está grávida. imagem: Rede Globo/Divulgação.

Na segunda-feira (27/10), na novela ‘Império’, Du (Josie Pessoa) descobre que está grávida de João Lucas (Daniel Rocha). Eles eram amigos, ficaram juntos uma noite e, ao contar o fato a família dele, declara que não quer ter esse filho. José Alfredo (Alexandre Nero) declara que se é neto dele, ela vai ter esse filho obrigatoriamente. Maria Marta (Lilia Cabral) o questiona, e num primeiro momento achamos que ela vai apoiar a decisão de Du por achar que é um direito dela, mas logo percebe-se que a preocupação é apenas com a herança da família, ela não quer mais um bastardo. José Pedro (Caio Blat), o irmão mais velho, afirma que João Lucas só poderá ter certeza se o filho é mesmo dele após um exame de DNA. Após sofrer todo tipo de desconfiança, pré-julgamento e injúrias, Du recebe um apoio mínimo de João Lucas, quando ele diz que confia totalmente nela, que não há necessidade de DNA.

Em outra cena, Du repete a José Alfredo e João Lucas que não deseja ter esse filho. Segue-se o seguinte diálogo:

Du: – Isso é um problema meu.

José Alfredo: – Do Lucas também. No caso, nosso.

Du: – O senhor acha que é o dono do mundo, né? Só porque um dia recebeu esse título de comendador que é puro enfeite. Mas comigo não cola. Nem o senhor, nem ninguém vai me obrigar a ter esse filho.

José Alfredo: – Que é meu neto.

Du: – Não interessa. Eu não quero esse bebê. Não quero. Foi um acidente. Eu sei o que é nascer numa família que não deseja ter um filho. Comigo foi assim. Minha mãe já tinha três filhos, eu nasci temporã, meu pai era contra. Ela só me teve porque teve medo de tirar. Fui criada como um lixo, um entulho no canto da casa. Não vou repetir esse lance. Prefiro ficar sozinha, livre, sem ninguém no meu pé. Eu não quero esse bebê. Não é a minha.

José Alfredo: – Tá certo. Não é a sua. E a tua, Lucas? Qual é? Eu quero um neto, não importa como ele foi gerado. E se o seu filho é o primeiro, deixa a moça de lado e vamos resolver nós dois. Você quer essa criança?

João Lucas: – Eu quero, Du. Na boa, sem sacanagem, eu quero esse filho.

José Alfredo: – Moça, você vai me perdoar, você pode espernear, mas nem que eu tenha que te colocar numa jaula, você vai ter esse filho.

Du não recebe nenhum tipo de apoio. É completamente ignorada em sua decisão, mais ainda em sua opinião e seu relato de como foi sua vida, além de ser ameaçada de prisão, caso leve adiante a ideia de não ter o filho. Porém, tudo é mostrado como se fosse o melhor para ela. Como se Du fosse uma jovem inconsequente que só quer chamar atenção. Tudo é pontuado por decisões imperativas de um homem, os olhos lacrimejantes de outro homem e a total falta de empatia por essa mulher, sobe o som com a música instrumental. Na sequência, Du e João Lucas conversam sobre seu relacionamento, ele é apaixonado por outra mulher, Du sabe que está completamente sozinha e diz que vai em busca de dar um jeito na sua vida.

A novela das 9 é um dos produtos que tem maior audiência na Rede Globo. É fato sua influência na cultura popular e na discussão de assuntos cotidianos. Por mais que o personagem de José Alfredo seja visto como um homem bronco e machista, não há nenhuma resposta contrária ao que ele determina. E, especialmente, o fato dele propor resolver o assunto entre homens, afirmando deixar a mulher de lado, mostra o quanto as mulheres são vistas como meras incubadoras. Também vale notar que José Alfredo refere-se ao bebê no masculino, como se um neto homem representasse sua continuidade, além de uma posse sua.

“O que leva uma mulher a fazer um aborto clandestino?”

Elizângela Souza, vítima de aborto clandestino, em imagem veiculada no programa Profissão Repórter da Rede Globo.

Na terça-feira (28/10), o Profissão Repórter teve como pauta: aborto clandestino. Na chamada do programa, chega a ser cômico ver Caco Barcellos perguntar: o que leva uma mulher a fazer um aborto clandestino? A ilegalidade, Caco? Você tem ideia do que é estar grávida sem desejar?

O programa tenta se mostrar “isento” ao abordar mulheres grávidas que moram no mesmo bairro que Jandira Magdalena; ao entrevistar pessoas que são a favor da legalização do aborto, como Renata Correa, produtora do documentário ‘Clandestinas’; e pessoas que são contrárias como as freiras que convencem mulheres a não realizar abortos. Porém, como disse a Gizelli Sousa, no texto ‘O jornalismo e o aborto’: “Não existe neutralidade quando a opinião majoritária é opressora. Ser neutro é oprimir. Para garantir a discussão sobre aborto, é preciso ouvir quem é a favor dele, porque quem é contra já tem palanque, palco, púlpito, voz”.

Maria Ângela dos Santos, mãe de Jandira, relata que também fez um aborto, mas que foi obrigada a isso pelo ex-marido. A ilegalidade do aborto marca a vida de várias mulheres.  Porque o Estado, que criminaliza a prática, abandona a própria sorte Jandira numa clínica clandestina e também abandona Maria Ângela ao não protegê-la do ex-marido. Com o aborto legalizado, Jandira poderia estar viva e Maria Ângela poderia ter apoio de profissionais de saúde para ajudá-la a denunciar o ex-marido e levar adiante a gravidez. Porque legalizar o aborto significa garantir o direito de escolha, tanto para quem quer levar a gravidez adiante como para quem não quer.

Talvez o único ponto positivo do programa foi mostrar o local absurdamente precário em que Elizângela Barbosa realizou o procedimento abortivo. Enquanto as pessoas não puderem interromper uma gravidez indesejada de maneira segura e legal, o que inclui atendimento médico e normatizações nos serviços públicos de saúde, não haverá plenitude de direitos para as mulheres.

A mídia, que no Brasil é uma concessão pública, é personagem fundamental para que o debate sobre o aborto no Brasil esteja tão raso. Com esses exemplos, ela reforça ainda mais a dicotomia do “a favor ou contra”, quando há uma questão principal: milhares de brasileiras recorrem a procedimentos ilegais para realizar um aborto mesmo sendo crime. Muitas dessas mulheres morrem, em sua maioria pobres e negras, por pura omissão do Estado, que não lhes garante o direito pleno de decidirem se querem levar uma gravidez adiante ou não. Enquanto a gravidez for compulsória e um filho tido como castigo por se fazer sexo por prazer, a liberdade das mulheres continuará cerceada pela jurisdição do Estado.

+ Sobre o assunto:

[+] Aborto na mídia – Debate no programa Observatório da Imprensa.

[+] Quem paga pelo aborto? Por Ligia Martins de Almeida no Observatório da Imprensa.