Feminista ou pró-feminista?

Texto de Bia Pagliarini.

Sobre o termo “pró-feminismo” (ou poderia ser qualquer outra coisa, como pró-transfeminismo). Eu não vejo nenhuma “utilidade” política relevante no uso desse termo. Ao contrário, eu vejo o uso desse termo como algo sintomático sobre a forma como lidamos com os movimentos sociais, em especial, os feminismo e os “sujeitos políticos”.

Foto de Fernando Frazão/ Agência Brasil.
Foto de Fernando Frazão/ Agência Brasil.

Primeiro, cabe aqui uma observação sobre a linguagem. A escolha de um termo, dada a identificação do sujeito com um discurso, não revela uma verdade escondida atrás das palavras, nem uma posição fixa e inequívoca. Não é porque algum homem se diz “pró-feminista” que necessariamente eu concordo com a forma como este homem entende o feminismo (incluindo aqui a questão do protagonismo). Não é porque um homem se identifica como “pró-feminista” que ele vai ser um “cara legal pro feminismo”. Não existe segurança ou verdade primordial na escolha de palavras. As escolhas de palavras indicam — frise bem a palavra — algo, não são meramente algo em si.

Então, aqui a gente teria que começar a discutir os sentidos que circulam sobre esse prefixo “pró”. Muita gente põe como necessário a questão do distanciamento dos homens do feminismo pela questão do protagonismo. Mas a questão que me vêm: protagonismo de um grupo exige a construção de uma exterioridade? Do meu ponto de vista, não. Falar sobre mulheres e pessoas trans* implica falar, sim, de um Outro privilegiado, sim. Mas não significa dizer que a exterioridade implicada no nosso discurso que constrói esse Nós seja de uma coerência mecânica, tampouco o Outro possui essa coerência. Senão estaríamos limitando o feminismo e a tomada de posição política a um sociologismo e um empirismo que não irá nos ajudar. É sobre deslocar as fronteiras do Eu e do Nós que o feminismo também deve atuar.

Logo, eu vejo, ao contrário, como esse prefixo “pró” pode significar uma domesticação e amortecimento da própria luta feminista. Se você se diz “pró” alguma coisa, ao invés da própria coisa, você se põe numa posição de exterioridade. Você pode lavar suas mãos. Eu não quero que homens e pessoas cis continuem lavando suas mãos e tendo o privilégio de manterem suas posições, suas identidades, até mesmo suas ontologias inalteradas. Se dizer “pró” é poder não se colocar de forma realmente afetada por aquilo que você julga “apoiar”. Meu transfeminismo não é feito para que homens e pessoas cis fiquem nestes mesmos lugares cômodos. É preciso construir deslocamentos. E isso significa questionar a identidade e a unicidade do Eu do sujeito cartesiano e racional.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 28/11/2014.