Deformar-se não é uma vitória contra o patriarcado

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Esses dias, muita gente compartilhou no Facebook o depoimento de Débora Adorno do dia 13/03/2015, relatando como se livrou de uma situação de assédio ostensivo numa rua de Belo Horizonte. Nas palavras dela:

Então, a coisa é que ao andar nessa rua comecei a receber muitas, mas muuitas cantadas mesmo, principalmente dos vendedores mas também dos caras passando.. Cara, a maioria das mulheres aqui entendem perfeitamente do que eu to falando mas homens, ces não tem noção de como é isso de fato, de como a gente se sente invadida, incomodada, oprimida.. é horrível, mesmo. Eu fiquei tensa, fiz o que sempre faço nessas situações, fecho a cara, olho fixamente prum ponto no horizonte e tento andar o mais rápido possível. Mas como falei a rua estava cheia, estava congestionando e eu fui obrigada a passar devagar e ficar escutando de um à tudo, ficar sentindo os caras me olhando dum jeito pervertido horrível. Naquele momento eu tava me sentindo tão impotente, tão presa.. quase sufocada mesmo… E não importava, não tinha nada que eu pudesse fazer pra parar aquilo, eu não ia bater boca com um bando de homem no centro, eu não ia mandar nenhum deles toma no cu, simplesmente porque eu tenho medo. Medo de me baterem, de me ameaçarem, de passarem a mão em mim, medo de mil coisas.. simplesmente não dá.

Foi aí que um cara que passava na direção contraria da minha veio me olhando escrotamente, me encarando, e dai antes dele falar alguma coisa eu fiz a careta do dentinho. O cara estranhou e passou reto. (Pra quem me conhece sabe que esse dentinho é quase como a minha marca registrada, kekeke, sempre faço de palhaçada mesmo..) Aí eu pensei tipo, “nóo beleza, vou continuar fazendo o dentinho”. CARALHO. Ces não tem noção, de um segundo pro outro eu parei de receber cantada, tipo, NENHUM CARA MAIS MEXEU COMIGO! Os caras olhavam e rapidamente desviavam o olhar, provavelmente pensando que eu tinha alguma deformação ou doença.

Nessa hora choveu um arco-iris dentro de mim, porque de uma hora pra outra não era mais eu quem estava desconfortável, de uma hora pra outra não era mais eu quem estava desviando o olhar, não era mais eu quem estava apertando o passo!!! E eu me senti TÃO bem, tão segura, tão dona da situação, e cara, eu tava mesmo! Saí dessa rua específica e continuei o caminho até meu ponto de ônibus feliz demais e com o dentinho lá a mostra e NENHUM cara mexeu comigo, absolutamente NENHUM, em um caminho de uns 10 minutos pelo centro da cidade. Amigos, isso é muita coisa, isso é coisa pra caralho!!!

Enfim, eu queria compartilhar isso com vocês e principalmente com as mulheres que passam por isso diariamente. Hoje eu senti que eu venci o patriarcado, mesmo que só por alguns momentos, hoje eu senti que dei um tapa na cara dessa cultura invasiva de cantadas de rua, hoje eu me senti confortável andando sozinha no centro. Então é isso, até que a sociedade mude eu vou fazendo meu dentinho, vou feliz, vou empoderada e VOU ENCARANDO OS HOMENS, FAZENDO COM QUE PELO MENOS UMA VEZ NA VIDA SEJAM ELES QUEM DESVIEM O OLHAR.

O que ela chama de “dentinho” significa projetar a arcada dentária superior, o que lhe dá um aspecto considerado “feio” pela sociedade ou nas palavras dela: os homens pensavam que “tinha alguma deformação ou doença”. Nossa intenção não é criticar a Débora por usar isso como tática, o relato dela é bem desesperador, mas sim propor uma discussão sobre a lógica que está por trás da aprovação desse tipo de reação.

Foi ótimo que ela tenha se livrado dos assediadores? Sim, com certeza. Porém, ao fingir que tem uma “deformação ou doença”, ao visualmente emular uma aparência que não é considerada atrativa, que assusta, estamos desrespeitando mulheres que tem deformidades ou deficiências. Então, essa não pode ser uma solução para vencer o patriarcado se oprime outras mulheres. Mesmo que essa não seja a sua intenção. O preconceito cotidianamente não é reproduzido com intenção racional, mas sim porque está presente em nossos modos de agir e enxergar o mundo.

Essa ação subverte as expectativas do assediador? Sim, mas a que custo? Ridicularizando quem tem dentes saltados? Reproduzindo a ideia de que essas pessoas não são atraentes? Por que esses homens desviavam o olhar? Por que não a assediavam com o “dentinho”? Por que tinham asco? Eles passaram a respeitá-la ou a temer uma possível “loucura”? Há várias maneiras de fazer algo inesperado quando sofremos um assédio: pular, latir, fazer polichinelo, enfiar o dedo no nariz, mas por que escolhe-se mudar a aparência para que o assediador passe a nos temer? E por que será que o olhar firme de uma mulher não causa esse temor? A mensagem final nos parece ser que ridicularizar a própria aparência é uma tática válida e apoiada.

É preciso que o feminismo esteja atento para questões particulares de determinados grupos de mulheres. As mulheres com deficiência ou deformidades sofrem muito preconceito, fazer um “dentinho” pode não ser nada para quem quer se livrar de uma situação de violência nas ruas, mas e quem tem um “dentinho” permanente, como se sente ao ser olhada nas ruas? Quem é vista diariamente como “louca” pela sociedade, por ter um comportamento abrupto ou por não conseguir conter emoções, como se sente ao sair em locais públicos?

Simular ter uma deficiência ou deformidade não é uma tática divertida ou irreverente para quem lida com isso todos os dias, para quem não tem como esconder essas “imperfeições” que tanto chamam a atenção das pessoas. A partir desse caso, várias pessoas relataram que fariam o mesmo, ou que ficam vesgas ou pensam em fazer uma cicatriz no rosto para afastar os assediadores. Pergunte a qualquer pessoa que seja vesga, que tenha uma grande cicatriz visível, que tenha vitiligo, que tenha um braço mais curto que outro ou a uma cadeirante, como essa pessoa sente o olhar das pessoas diariamente? Há uma grande invisibilidade das deficiências — inclusive no feminismo — porque isso é considerado ruim ou a pessoa tem que ser obrigatoriamente vista como um exemplo de vida, especialmente quando o mundo inteiro é capacitista e limita sua mobilidade e experiências.

A sociedade esconde as deficiências e deformidades das pessoas. Aplaude ensaios fotográficos de mulheres que fizeram mastectomia por causa de câncer, mas dificilmente as enxerga como seres sexuais, com desejos. Mesma coisa com pessoas que são amputadas, que caminham ou movimentam os braços de forma diferente ou que passam grande parte do tempo numa cadeira de rodas ou numa cama recebendo cuidados. Um bom exemplo recente, é a fashionização de Frida Kahlo. Há milhares de imagens de Frida em camisetas, canecas, páginas dedicadas a seu estilo, mas quase nada se fala sobre sua deficiência e deformidades, mesmo esse assunto sendo tema de diversos trabalhos da pintora.

Frida Kahlo pintando na sua cama. Foto de, Anônimo (1940), do Museu Frida Kahlo. Divulgação da exposição 'Frida Kahlo – As suas fotografias'.
Frida Kahlo pintando na sua cama. Foto de, Anônimo (1940), do Museu Frida Kahlo. Divulgação da exposição ‘Frida Kahlo – As suas fotografias’.

O capacitismo não está necessariamente no ato de fazer um “dentinho” mas sim no discurso que apoia esse tipo de ação, que a celebra, que a chama de “melhor tática”. Porque as pessoas que são dentuças não são celebradas e chamadas de irreverentes. Elas são cobradas diariamente para que se adequem aos padrões estéticos da odontologia. Ter uma doença ou uma deformidade, ter uma cara “feia” ou fazer careta não livra as mulheres do assédio. As pessoas podem não saber como o capacitismo funciona, mas ele está entranhado em cada ação social que exclui as pessoas com deficiência do convívio social porque seus corpos não são norma.

É importante reagir ao assédio e pensar em ações que o combatam, tanto individualmente como em conjunto com outras mulheres. Surpreender um agressor pode ser a reação para aquela pessoa naquele determinado momento. Porém, é dever do feminismo não enxergar como solução algo que oprime outras mulheres, especialmente aquelas que já estão excluídas da sociedade.

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