Por que é mais fácil reclamar do feminismo que lutar pelo fim do alistamento obrigatório?

Texto de Simone Pinheiro.

É bem comum vermos nas redes sociais mensagens com dados, sem referências ou fontes, usadas para difamar o feminismo. Dizer que o feminismo não luta pelo fim do alistamento obrigatório é só mais uma dessas reclamações. Recentemente, vi um comentário que juntava diversas reclamações:

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A partir daí, pensei em comentar brevemente cada uma dessas afirmações.

“90% das brigas judiciais por guarda e pensão são ganhas por mulheres”. Sim, culturalmente é um reflexo de que as mulheres são as responsáveis pelas crianças e aos homens cabe cuidar dos custos financeiros, o que acaba sendo a realidade da maioria das famílias brasileiras. Recentemente, foi aprovada a lei que determina a guarda compartilhada como regra, mas isso não garante por si só o bem estar de filhos de pais separados. Há que se considerar que muitos homens abandonam seus filhos, por diversas razões e que nem sempre uma separação ocorre de forma amigável. Além disso, a pensão alimentícia é um direito do filho ou filha, portanto, não importa se é homem ou mulher, mas sim o quanto cada um recebe (e adivinhe quem recebe menos na maioria dos casos). É analisado o custo para o padrão de vida que a criança leva, e então dividida a despesa de acordo com o salário de cada um dos responsáveis, as leis para pensão são bem rigorosas tanto para homens quanto para mulheres.

“De cada 11 mortes por violência, 10 são de homens”. A quantidade de morte violentas é maior entre os homens, especialmente jovens negros, segundo dados do Mapa da Violência. A questão é que não são mulheres quem matam os homens, este não é um crime de gênero por si só. Os homens morrem nas ruas, mas as mulheres morrem em casa, em decorrência da violência doméstica. São geralmente mortas por conhecidos, ex-companheiros e até mesmo familiares. Quando leis para combater a violência doméstica são feitas, não se está negando as mortes violentas de homens, o que se busca é proteger as mulheres de um comportamento padrão em nossa sociedade.

“Homens são apenas 40% nas universidades”. No Brasil, 55% das pessoas que entram na faculdade e 59% das que a terminam são mulheres. É mais comum que homens abandonem os estudos por falta de interesse ou por entrarem no mercado de trabalho. Porém, esses dados não revelam as mudanças que ocorreram no ensino superior nos últimos anos, há mais ofertas de cursos, especialmente de humanas, que são majoritariamente frequentados por mulheres. Elas são maioria – representando de 52% a 77% do total de títulos – nas áreas de Educação; Humanidades e Artes; Saúde; Ciências Sociais, Direito e Administração; e Serviços. Tornam-se minoria, no entanto, nos setores de Engenharia, Manufatura e Construção (28%); Ciência (38%); e Agricultura (41%). E, quando se analisam as pessoas que atuam em funções de nível superior, 91% dos homens estão empregados, contra 81% das mulheres.

“Não tem dia internacional, nem hospitais especializados”. Dia internacional: 19 de novembro. Dia nacional: 15 de julho. Em São Paulo, desde 2008 existe o Hospital do Homem e novas unidades tem sido criadas no território nacional.

“E muito menos leis que beneficiem apenas por ser homem”. Sou impossibilitada de comentar sobre o assunto pois não sei quais são as leis que beneficiam mulheres apenas por serem mulheres.

“O câncer de próstata mata proporcionalmente o mesmo que o de mama, mas adivinhem onde são gastos mais com prevenção e campanha?”. Os custos de prevenção do câncer de mama são bem mais altos porque dependem de equipamentos que realizem mamografias. A forma mais eficiente de diagnóstico para o câncer de próstata é o exame de toque retal. Assim como existe o Outubro Rosa, também existe o Novembro Azul que divulga a importância da prevenção do câncer de próstata.

“Homens são 80% dos moradores de rua e cometem 90% dos suicídios”. Em 2008, uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) mostrou que os principais motivos pelos quais essas pessoas passaram a viver e morar na rua se referem aos problemas de alcoolismo e/ou drogas (35,5%); desemprego (29,8%) e desavenças com familiares (29,1%). As mulheres costumam ser vulneráveis a violência sexual nas ruas, por isso em muitos casos preferem não sair de casa, mesmo sofrendo violência doméstica. O Brasil é o 8º país com mais suicídios no mundo. Segundo relatório da OMS, em países desenvolvidos a prática tem relação com desordens mentais provocadas especialmente por abuso de álcool e depressão. Já nos países mais pobres, as principais causas das mortes são a pressão e o estresse por problemas socioeconômicos.

“O exército é obrigatório apenas para os homens”. Sim. E, para muitas feministas o ideal é que nem houvesse exército, muito menos alistamento obrigatório. Então, se isso afeta diretamente os homens, esperamos que façam campanhas para acabar com essa obrigação. Com certeza diversos grupos feministas irão apoiar.

“Licença maternidade é de 180 dias e pais pegam apenas 5 dias”. O feminismo apoia diversas propostas que aumentam a licença-paternidade e flexibilizam as regras, permitindo que pai e mãe dividam o período de licença entre eles e até com outros familiares, para incluir cada vez mais novas formas de organização das famílias.

“Trabalhamos 5 anos a mais para aposentar”. Mulheres em sua imensa maioria vivem uma dupla jornada. Não só trabalham fora, como também são responsáveis por grande parte do trabalho doméstico. Segundo pesquisa do IBGE, mulheres gastam 23,9 horas da semana cuidando de afazeres domésticos, enquanto os homens ficam com apenas 9,7 horas. Se a jornada de trabalho normal no Brasil é de 40 horas semanais e a mulher trabalha em casa, sem remuneração, por 24 horas por semana, no fim do ano ela trabalhou 1.147 horas, enquanto o homem, apenas 465. Multiplique pelos anos até a aposentadoria, e aí você saberá a razão da diferença.

“Morremos 8 anos antes”. Os homens morrem mais cedo principalmente por não irem regularmente ao médico e não fazerem exames preventivos. Homens jovens morrem mais cedo por estarem expostos a violência nas grandes cidades. Não vou comentar a frase sobre o Titanic porque se formos entrar em assuntos históricos o texto (e o machismo) não terá fim. Quanto a cargos de lixeiros, pedreiros, trabalhadores de minas de carvão, etc., me falem sobre domésticas, babás, prostitutas, faxineiras, etc.

Para finalizar, é óbvio que homens sofrem preconceitos e vivem desvantagens, especialmente quando observamos questões sociais como raça, classe social, sexualidade, deficiências, entre outros fatores que perpetuam a exclusão social. Porém, o feminismo é uma luta que tem como foco as mulheres. Portanto, não esperem que também as mulheres iniciem a luta por questões que afetam diretamente os homens. Já temos muitos problemas com os quais lidar. Criticar o feminismo porque ele não milita por causas masculinas é querer que a mãe resolva tudo. Não há nenhuma luta feminista impedindo que sejam feitas campanhas pela prevenção ao câncer de próstata ou a suicídios. Diversos grupos feministas apoiam denuncias do genocídio de jovens negros. Mas parece ser mais fácil reclamar do feminismo do que lutar para mudar.

O machismo causa problemas para os homens também, como cobranças para “provar a masculinidade”. A maior parte das reclamações vindas de homens são causadas pelo machismo e pela diferenciação dos sexos, mas mesmo assim muitos procuram defender essa ideologia e torna-la ainda mais presente. Não adianta reclamarmos da situação atual se não estivermos nem ao menos dispostos a reconhecer a origem do problema.

+ Sobre o assunto:

[+] FAQ Feminista – Algumas respostas para as questões mais frequentes direcionadas às feministas sobre os direitos das mulheres. Por Aline Valek.

Autora

Simone Pinheiro estuda desenvolvimento de sistemas e tradução, no tempo vago costuma ler e escrever.