O problema dos relacionamentos abusivos é a idade dos homens?

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Semana passada, a Revista Capitolina publicou o texto: Relacionamentos com caras mais velhos e o que há de errado com eles. E nós sentamos para discutir. Tanto nós, como várias mulheres que conhecemos, nos relacionamos com homens mais velhos quando jovens, até mesmo adolescentes. Então, primeiro, nosso objetivo é dialogar com o texto e refletir sobre outras perspectivas. Segundo, temos consciência que nossas experiências pessoais não podem ser usadas como régua para medir todas as pessoas.

Um grupo de jovens mulheres e uma mulher com um bebê passando ao lado em Dresden,  Alemanha. Foto de Jorge Royan/Wikimedia Commons.
Um grupo de jovens mulheres e uma mulher com um bebê passando ao lado. Dresden, Alemanha, 2007. Foto de Jorge Royan/Wikimedia Commons.

Um turbilhão de perguntas

Sabemos que há uma cultura que fetichiza mulheres jovens e adolescentes. Também sabemos que é bem mais comum encontrarmos relacionamentos em que o homem é mais velho que a mulher do que o contrário. Concordamos que relacionamentos abusivos podem ocorrer em situações de diferentes relações de poder. Porém, nossa principal pergunta é: o problema está na estrutura dos relacionamentos e na maneira como a sociedade ainda aceita relações abusivas ou o problema está na idade das pessoas?

Por ser a Capitolina, sabemos que o público-alvo são adolescentes. E depreendemos do texto um estereótipo de homem mais velho: um homem com dinheiro. Um homem que possui carro, dinheiro para levar essa garota a restaurantes e dar presentes a sua família. Esse homem pode ter de 18 a 50 anos ou mais. Então, nossos primeiros questionamentos foram: qual diferença numérica é aceitável ou inaceitável? Dois, cinco, quinze anos? Essa diferença numérica deixa de ser inaceitável quando a mulher completa 16, 18, 21 anos ou nunca? Estarem em diferentes momentos da vida é determinante? Por exemplo, se a mulher mais jovem trabalha enquanto o homem mais velho ainda está na faculdade? Se relacionar com alguém da mesma idade diminui as chances de um relacionamento abusivo?

O texto se concentra especificamente em relacionamentos heteronormativos e não negamos que há relacionamentos abusivos entre homens mais velhos e mulheres mais novas, mas isso é regra? Em todas as relações heterossexuais há obrigatoriamente uma hierarquia em que o homem está no topo? Estar numa relação em que a adolescente decide fazer sexo com um homem mais velho pressupõe uma coação? Quando adolescentes, sempre que estamos numa relação, somos fracas, dependentes e vulneráveis? Onde fica nossa autonomia?

Não negamos o lugar de privilégio do homem em nossa sociedade. Porém, repetimos: onde fica nossa autonomia? Como ensinar mulheres jovens a reagirem ao machismo se reproduzimos um discurso de que somos ingênuas em nossos relacionamentos? Não temos desejo? Não podemos fazer sexo em troca de presentes? Não podemos sentir prazer com isso?

Às mulheres jovens que tiveram relacionamentos que consideram satisfatórios com homens mais velhos, o que dizemos a elas? Que são alienadas do seu desejo? Que sabemos mais que elas o que se passou em suas relações? Que elas foram abusadas mesmo que não se deem conta? As mulheres não podem ser protagonistas das suas histórias?

Ao conversar com uma amiga sobre um relacionamento do qual ela não quer sair, mas que não gostamos, simplesmente devemos mandá-la terminar a relação? Ou podemos escutar e procurar entender como ela descreve a relação, o que ela supõe estar obtendo de satisfatório? Os sentimentos e perspectivas dela nessa relação não devem ser importantes? Não é possível mudar dinâmicas dentro de um relacionamento por meio de nossa mudança de comportamento? Como construímos nossa educação sentimental?

Como o próprio texto diz, há diversos aspectos que fazem um relacionamento ser algo delicado. Especialmente pela idealização que há do amor, como uma poção mágica que nos garantirá felicidade vitalícia, e da estabilidade como objetivo final das mulheres num relacionamento. Porém, as pessoas envolvidas chegam com suas próprias dinâmicas, manias, receios, desejos, medos, expectativas e construções sociais. Então, onde fica o discernimento e reflexão crítica dessas jovens mulheres que estão nessas relações com homens mais velhos? Ao colocar na conta da idade os motivos de uma relação abusiva, até que ponto excluímos e invisibilizamos histórias abusivas que não possuem nenhum fator considerado condicionante?

Ao classificá-las como ingênuas e manipuladas, estamos dando quais direitos as mulheres jovens e adolescentes de serem protagonistas de suas escolhas? Estamos respeitando suas sexualidades ou apagamos esse traço em prol da ideia de pureza e idealização? Buscamos protegê-las de quê? Não se pode fazer sexo com um sujeito babaca e mesmo assim se sentir bem porque se escolheu isso?

Algumas perspectivas

Nossos desejos e escolhas são construídos socialmente, somos observadas e vigiadas, mas acreditamos que há maneiras de subverter isso. E, algumas vezes, para algumas mulheres, isso passa por relacionamentos com homens mais velhos, com homens comprometidos, com homens explicitamente machistas. Em qualquer relacionamento são estabelecidas relações de poder. E, é bem comum, que a relação de hierarquia entre gêneros esteja presente cotidianamente, emergindo em qualquer tipo de relação, seja entre vizinhos, parentes ou jovens que fazem sexo. Também sabemos que há relações abusivas entre casais homossexuais. Então, até que ponto a idade do homem é fator determinante? Mulheres mais velhas se relacionando com homens mais novos estão menos sujeitas a abusos?

Não acreditamos que o feminismo tenha o poder de evitar que as mulheres entrem em relacionamentos abusivos. As relações humanas são extremamente complexas. Acreditamos que o feminismo é capaz de ajudar as mulheres a reconhecerem esses relacionamentos como abusivos e que não deve haver receio ou vergonha em pedir ajuda para sair deles. Porque, para muitas mulheres não é um cara mais velho, pode ser a mãe, um irmão, um amigo ou amiga que suga nossas energias. Por mais que muitas mulheres tenham experiências parecidas, é importante respeitar nossas individualidades.

No texto, temos de um lado o estereótipo de um homem que — como é plenamente aceito pela sociedade e pela família da garota — provavelmente é branco, rico, heterossexual, sem deficiências e cissexual. Do outro lado, temos como estereótipo, jovens mulheres ingênuas que só se sentem especiais ao terem um homem do lado. Reforçar homens e mulheres nesses papeis por meio de um alerta para essas jovens nos ajuda em quê? Ajuda na emancipação das mulheres? Ajuda a reconhecerem características de relacionamentos abusivos? Ou estamos apenas fazendo essas jovens terem medo de homens? Nossa maior preocupação deveria estar no fato de serem abusivos ou de serem mais velhos? O foco é a violência ou a diferença de idade?

Podemos concordar que adolescentes são mais vulneráveis, alegar sua falta de experiência. Mas isso não significa dizer que elas não tem capacidade de decisão, que devem negar desejos ou se privar de vivências apenas porque um possível parceiro é mais velho. É importante questionar o discurso social que coloca as mulheres como troféus e faz com que os homens as queiram assim, quanto mais jovens, mais valiosas. O discurso social da beleza, juventude e aparência que é direcionado as mulheres e o do sucesso profissional, designado aos homens, formam um “casamento ideal”. Os homens não podem ter sua masculinidade contestada, então seus desejos são forjados na busca por mulheres menos experientes, que não os desafiem. As relações, quase sempre, passam por variados fatores com foco menor na vontade consciente.

Há inúmeras dinâmicas de poder em relações que vão além do gênero como grau de instrução, poder aquisitivo, raça, etc. Muitas vezes nos deparamos com pessoas que vivem relações que nos colocam dúvidas. Por exemplo, num relacionamento entre uma mulher jovem branca, escolarizada e bem financeiramente com um homem cadeirante mais velho, com menor instrução e que mora num bairro da periferia, há como dizer quem oprime e quem é oprimido automaticamente? Esse exemplo pode não ser o mais comum, mas a construção de um feminismo mais inclusivo também passa por não invisibilizar diferentes formas de relação em prol da generalização.

Acreditamos que estando fora de um relacionamento não temos como avaliar completamente as dinâmicas internas. Não acreditamos no poder do intrínseco, de estabelecer que alguma coisa é necessariamente de um determinado jeito. Então, o que propomos é dar informação para que jovens mulheres possam refletir e identificarem se suas relações são abusivas ou não. E, essa informação não passa por criar medo em relação a um estereótipo masculino, mas sim alertar que se você não se sente bem num relacionamento, algo pode estar errado e você tem todo direito de questionar isso.

Precisamos falar de relacionamentos abusivos entre homens mais velhos e mulheres mais jovens, claro. Mas precisamos falar disso com foco na identificação do abuso e nos elementos transversais que favorecem essa dinâmica de poder: a hierarquia de gêneros, a estabilidade financeira, a aceitação social, o acúmulo de vivências e não falar de dados numéricos como se eles tivessem valor em si mesmos. Também precisamos falar de relacionamentos bacanas em todos os formatos e com todas as idades, sem idealizações, para termos cada vez mais elementos para sair do modelo normatizado socialmente.

Acreditamos que as mulheres, especialmente quando jovens, precisam de autonomia e liberdade para tomar decisões e não de mais pessoas que lhes digam o que é certo ou errado.