A publicidade das rainhas do lar e dos homens incompetentes

Texto de Maiara Amante para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, enquanto assistia televisão, vi uma propaganda de gás de cozinha. Prestei atenção porque nunca tinha visto aquela, onde aparecem apenas inúmeras mulheres cozinhando e no fim o slogan da marca. Fiquei revoltada! Por que mostrar só as mulheres cozinhando? Óbvio! (pensei), porque os estereótipos sexistas nos colocam como as rainhas do lar, aquelas que naturalmente sabem cozinhar e realizar todos os outros afazeres domésticos. Indignada, xinguei a propaganda de machista e meu namorado fez uma cara de: “que desnecessária essa tua indignação”.

Fiquei impressionada com a conduta dele, porque temos um relacionamento muito bom e, aos poucos, ele foi aprendendo que viver em conjunto é saber compartilhar as tarefas. A primeira vez que almocei na casa dele, após o fim da comida, as mulheres foram para a cozinha e todos os homens permaneceram na mesa, ele também. Nesse momento, fui muito contundente e falei que ajudaria a mãe dele, não porque sou mulher, mas porque sou educada e disse que esperava o mesmo dele. Ele se levantou e secou a louça.

Desde o início mostrei que, sim, sou feminista, e que nosso relacionamento seria baseado na igualdade. Ele e eu somos muito mais companheiros por causa disso. Acredito que revindicar mais a participação masculina nas tarefas domésticas nos ajuda a desfazer essa imagem de rainhas do lar. Mas, apenas isso não traz automaticamente a igualdade entre homens e mulheres. É preciso que as tarefas domésticas sejam vistas como deveres de todas as pessoas que moram ou trabalham num mesmo ambiente.

Esse episódio me lembrou uma outra propaganda que vira no dia anterior. Nesta, um homem que não sabia como cuidar do filho ligava para a mulher, perguntando o que ele deveria fazer para a criança parar de chorar. A mulher, ao atender o telefone, pedia para ele colocar a criança mais perto e, ao ouvir o choro, automaticamente ela sabia o que o menino queria — minha conduta: bati a cabeça na parede (sem força, claro), na frente do sogro e dos cunhados. É sério!

Mulher-Máquina. Imagem de Jessica Ledwich, peça do projeto fotográfico "Monstrous Feminine".
Mulher-Máquina. Imagem de Jessica Ledwich, parte do projeto fotográfico “Monstrous Feminine”.

Fiquei mais uma vez estarrecida com a falta de criatividade dessas propagandas e com o machismo. Vejo machismo todos os dias mas as propagandas há muito tempo revoltam-me ainda mais. Porque todo mundo vê e acha normal, acham que eu (e outras feministas) é que somos as loucas que se revoltam com tudo.

É propaganda de cerveja, de produto de limpeza, de mãe, mulher perfeita que sabe arrumar a casa e exerce os papéis de trabalhadora e escrava do lar, sempre com perfeição e “lindamente”. Porque mostrar mulheres diferentes não pode. Pode é objetificar, padronizar e estereotipar. Aquilo tudo que estamos cansadas de ouvir, todos os dias, desde que nascemos, da nossa família e da sociedade.

Porém, se tem uma coisa que também me incomoda é o fato de que muitos homens aceitam esse ridículo papel apresentado pelas propagandas. Qual papel? O papel de incompetentes, de que são incapazes de cuidar de uma criança, de que não sabem lavar uma roupa ou limpar uma casa. Sabemos que a grande maioria dos homens não participa ativamente dos serviços domésticos, só contribuem com aquela “ajuda” esporádica. Mas me espanta não acharem ruim essa imagem de quem não sabe fazer nada. Meu namorado não deveria se indignar também e tentar mostrar aos outros o quanto são preconceituosas essas propagandas?

Pergunto-me: será que os homens não percebem que, além das propagandas ferirem as mulheres, com esses papéis de objetos e de sabedoras naturais de tudo o que diz respeito à limpeza e ao cuidado de crianças, ao mesmo tempo, essas propagandas concluem que todos os homens são uns idiotas, loucos por corpos femininos, que não sabem cuidar de uma casa ou de filhos? Como podem ficar satisfeitos em serem retratados dessa maneira? Por esses motivos, fico mesmo revoltada!

Autora

Maiara Amante é feminista e bacharel em Direito pela UFSC.