Mudanças grandiosas podem começar do micro

Texto de Natália Ribeiro para as Blogueiras Feministas.

Dia desses, minha professora de Assessoria de Imprensa comentou que deu um forninho rosa para o afilhado dela de cinco anos. Não preciso nem dizer que ela foi mais rechaçada que a presidenta em dia de panelaço. A família toda caiu matando em cima do “grande absurdo”: onde já se viu uma tia dar um fogão – justamente na cor rosa – para o sobrinho? O que ela estava querendo? Que ele virasse gay? Jamais! Filho meu não toca em brinquedo de menina.

Fico me perguntando quantas pessoas ainda possuem esse pensamento arcaico como o dos familiares da minha professora. Não posso quantificar ao certo. No entanto, ouso arriscar que a maioria da sociedade faz parte desse grupo. Não sei o que é pior: achar que um forninho rosa é brinquedo de mulher ou ter medo de que o filho vire homossexual, como se homossexualidade fosse doença.

Vivemos numa sociedade machista e sexista que não pretende perder seus “valores tradicionais”. Como se não fosse bom mudar e ampliar como vemos o mundo e especialmente as pessoas. O patriarcado, palavra derivada do grego que pode significar ‘mandar’, ‘pai’ ou se referir a um território ou jurisdição governado por um patriarca, representa a estrutura social de autoridade a qual estamos subordinados em sociedade. Há um poder interno na sociedade que determina quais nossas posições sociais e que é estimulado por nosso sistema de organização social, tornando as relações entre as pessoas desiguais e hierarquizadas. O que é fundamental para que quem está no poder não perca seu lugar.

Penso que ser feminista significa lutar contra essa estrutura. Também penso algumas vezes que ser feminista deveria ser uma condição natural das mulheres, já que somos tão violentadas diariamente, tanto nos espaços públicos como nos privados. Já sei o que você está pensando: mas e as donzelas machistas, ainda tão presentes (infelizmente!) no mundo atual? Bom, o pensamento machista está espalhado por toda sociedade. Somos expostas diariamente a julgamentos e manuais de como as mulheres devem ser, viver e se comportar. Aposto que você que está lendo esse texto já ouviu quando pequena que menina não fala palavrão. O patriarcado é essa estrutura que está não apenas nas relações de trabalho e de violência mas também nos pequenos espaços do cotidiano.

Marcha das Vadias de Recife/PE 2015. Foto de Carol Botelho.
Marcha das Vadias de Recife/PE 2015. Foto de Carol Botelho.

O feminismo é uma das portas para questionarmos essas amarras do machismo e do patriarcado. E acaba se tornando uma luta diária, pois as pessoas insistem em reproduzir preconceitos, afinal é assim que conhecem o mundo. O pensamento binário, por exemplo, está presente em quase todos os âmbitos da vida moderna – e ele faz mais mal ao progresso do feminismo do que se imagina. Binarismo significa pensar pequeno: ou é hétero ou homo. Ou certo ou errado. Ou bonito ou feio. O mundo nos mostra uma infinidade de dualidades, que não têm a menor pretensão de se expandirem para, no mínimo, uma trialidade.

Para tentar dar um exemplo, julgamos o ser humano que é gay. Afinal de contas, se ele pega alguém do mesmo sexo, ele só poder ser homossexual, não é mesmo? Bissexualidade não existe no dicionário do preconceituoso: ou é sim ou é não. Gostar de alguém e, ainda assim, sentir-se atraído por outra pessoa – mesmo que seja de outro sexo – não é uma possibilidade. Mais absurdo ainda seria ter um caso de uma noite só com uma pessoa do mesmo sexo. Isso não pode existir e, se existe, significa – necessariamente – um comportamento homossexual. Algo que poderia ser simples, uma pessoa viver plenamente sua sexualidade com quem quiser em sua intimidade, acaba se tornando uma polêmica para definir o que pode ou não pode.

É fácil julgar e generalizar quem não está dentro dos padrões heteronormativos. É fácil para o patriarcado definir entre as mulheres quem é puta ou santa. O que está fora dos padrões será sempre excluído e não há respeito, muito menos tolerância. O que devemos fazer? Aceitar o julgamento da esmagadora maioria ou remar contra a maré?

Ao refletir sobre isso, sempre me dá uma pequena “coceira” para mudar a realidade opressora que ainda vigora. No entanto, há o comodismo de viver num mundo em que na maioria das vezes eu não sou alvo desses preconceitos. Porém, sinto que é preciso fazer alguma coisa, por maior que seja o pessimismo. A mudança deve começar em nós mesmos. Querer mudar o mundo como um todo é bem difícil, mas podemos pensar em ações pontuais mais diretas. Então, eu me propus como mudança interior: não julgar o outro. Assim, espero dar os primeiros passos nessa construção da revolução.

Autora

Natália Ribeiro tem 20 anos e é estudante de jornalismo na Universidade de Brasília. É amante da literatura e das boas produções audiovisuais – sobretudo os longas metragens. Você pode encontrá-la no Instagram, Facebook ou Twitter: @natiribeiro95.