Sobre o corpo e a dicotomia entre subjetivo e material

Texto de Éris Grimm.

Vamos falar sobre essa dicotomia que algumas pessoas insistem em manter:

(1) subjetividade, amigues, não é uma alminha desencarnada que paira como se fosse nossa sombra, só para ser objeto de juízo: “você vai pro céu / você vai pro inferno / você reencarna / etc”. Subjetividade é algo que existe no corpo. Se expressa pelo corpo. É algo que afeta o corpo, que muda o corpo. Sendo mais radical: subjetividade É corpo. Portanto, subjetividade é Material.

E corpo, amigues, é um objeto de interesse por parte de TUDO o que constitui as tramas econômicas da nossa sociedade capitalística. Porque é através do corpo que as pessoas trabalham nas fábricas, escritórios, lojas, etc. É através do corpo que as pessoas realizam trabalhos domésticos (limpeza, comida, cuidados, etc.). É através do corpo que as pessoas se reproduzem (e por conseguinte reproduzem mais corpos pras engrenagens do capital). É através do corpo que as pessoas formam unidades domésticas e instituições (tais como a família) encarregadas de educar/preparar outros corpos para serem socialmente úteis.

Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.
Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.

Se a gente entender que corpo e subjetividade são duas coisas intimamente ligadas
tudo o que afeta a subjetividade afeta o corpo, afetando assim fluxos de trabalho e consumo, tornando-se assim parte dos cálculos que estruturam a sociedade que nós vivemos.

(2) Você talvez seja bitoladamente incapaz de entender isso. Mas, a despeito do que você queira pensar, essa ligação entre subjetividade e economia é algo que praticamente todos os administradores de grandes empresas já entenderam. E fazem uso disso. É algo que todas grandes articulações políticas já entenderam. E fazem uso disso.

Não é à toa. Existe uma diversidade de sistemas midiáticos que investem PESADAMENTE (muita grana) veiculando imagens que atuam no nosso imaginário, nos nossos sentimentos de insegurança/bem-estar. Bem como, para além da mídia temos também aparelhos pedagógicos (escolas, igrejas, redes familiares) que trabalham constantemente a forma como nos comportamos, como sentimos, como nos afetamos.

Para dar só alguns exemplos: se existem imagens que bombardeiam constantemente as mulheres para que sintam-se mal com seus corpos, para que sintam desprezo pela gordura, para que aprendam que magreza é bonito (instituindo um contexto generalizado de gordofobia), isso se dá porque existem MUITOS interesses econômicos (da indústria médica, da indústria farmacêutica, dos profissionais de saúde) em lucrar com a gordofobia.

Que pessoas trans sintam-se constantemente humilhadas, inseguras… é uma questão subjetiva, sim. Mas há também um interesse farmacêutico, médico e das indústrias na fabricação desse medo e terrorismo em nossos corpos para nos venderem tratamentos, terapias, cosméticos, etc. que prometem corrigir todos os corpos que desviam do padrão prometido.

O medo constante que pessoas não-homens sentem em transitar pelos espaços públicos não nos afeta apenas emocionalmente — afeta também a transitabilidade dos nossos corpos pelo espaço, coisa que interfere diretamente nas nossas possibilidades econômicas.

A possibilidade constante de pessoas trans — bem como das pessoas bissexuais, lésbicas, gays — serem rechaçadas por suas famílias, não é apenas um “drama privado e individual”, mas afeta diretamente redes de apoio social e financeiro, forçando muitas dessas pessoas a situações de precariedade e subemprego.

Os efeitos “subjetivos” da transfobia, bifobia, da gordofobia (pra citar só alguns sistemas de opressão que costumam ser tomados como “meramente individuais”) não são simplesmente “dramas individuais”. São efeitos estruturantes de todo um sistema social/econômico no qual vivemos.

Lutar contra esse sistema implica lutar contra essas opressões. E lutar contra essas opressões implica construir mecanismos de resistência TAMBÉM contra os efeitos subjetivos dessas opressões. Que passa por construirmos outras formas de nos subjetivarmos, buscando modos de empoderamento que transgridam aqueles já cooptados pelas redes de trabalho e consumo do capital. Isso não é liberalismo. É luta anticapitalista mesmo, levada às últimas conseqüências. É luta antipatriarcal, também levada às últimas conseqüências.

O que algumas pessoas fazem, ao dizer que certas questões são “meramente subjetivas” frente a outras que seriam “verdadeiramente materiais” é criar uma hierarquia de opressões apagando a vivência de boa parte dos corpos que são oprimidas pelo patriarcado e pelo capital. Esse apagamento de vivências NÃO é anticapitalismo. Nem antipatriarcal. Não possui nada de transformador, nada de radical.

Resistência anticapitalista e antipatriarcal se fazem construindo apoio e potência TAMBÉM aos afetos e aos modos de subjetivação que possibilitem fugir e desviar daquilo que é lucrativo a quem está no controle. “O pessoal é político”.

Autora

Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook no dia 05/06/2015.