Desfazendo gênero e debatendo o queer

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

De 04 a 07 de setembro acontecerá a segunda edição do Seminário Internacional Desfazendo Gênero em Salvador, Bahia. O seminário tem como objetivo discutir as questões de gênero, sexualidade, feminismos e a militância LGBT de uma forma geral. O tema desse ano será “Ativismos das dissidências sexuais e de gênero” e a organização quer reafirmar mais uma vez seu compromisso com o enfrentamento das “normatizações, normalizações, naturalizações e binarismos sobre as diversidades e/ou dissidências sexuais e de gênero”.

O evento vem ganhando espaço no cenário acadêmico e no ativismo de uma forma geral, pois é possível perceber que o seminário tenta fazer uma diálogo entre esses dois lugares. Para tanto, o Desfazendo conta com participação de importantes teóricas, além da presença de vários coletivos feministas e LGBT que farão apresentações e performances.

Uma das presenças mais esperadas no Desfazendo Gênero é da filósofa Judith Butler que desembarca no Brasil pela primeira vez. Além do evento em Salvador, Butler também terá outros seminários e compromissos no Brasil, entre eles o I Seminário Queer – Cultura e subversões das identidades em São Paulo. A vinda de Butler é muito esperada por várias teóricas e militantes feministas.

A filósofa Judith Butler. Imagem: divulgação.
A filósofa Judith Butler. Imagem: divulgação.

Butler ficou conhecida pelo seu livro Gender Trouble (Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade), em que faz importantes críticas e questionamentos ao feminismo contemporâneo. Esse livro é considerado uma das primeiras obras sobre Teoria Queer, junto com Technologies of Gender (A Tecnologia do Gênero) de Teresa de Lauretis. Nesse livro, Butler também desenvolve os conceitos de performatividade e perfomance, além analisar diversas tecnologias que constroem as identidades. Segundo a autora:

“[…] que possibilidades políticas são consequência de uma crítica radical das categorias de identidade? Que formas novas de política surgem quando a noção de identidade como base comum já não restringe o discurso sobre políticas feministas? E até que ponto o esforço para localizar uma identidade em comum como fundamento para uma política feminista impede uma investigação radical sobre as construções e as normas políticas da própria identidade?” (BUTLER, 2012, p. 9 e 10)

Recentemente, Butler deu uma entrevista esclarecendo algumas confusões em relação a sua teoria. Algumas pessoas acreditam que Butler está dizendo que gênero é apenas “vestir uma roupa”, além de acharem que perfomance de gênero seria pura e simplesmente “virar” algo. Contudo, o que Butler teoriza é muito mais complexo, pois ela tenta tirar o gênero e a sexualidade de um lugar natural e inato. Ou seja, não existe uma identidade verdadeira ou original. Não existe uma mulher de verdade ou homem de verdade, estamos todos imitando uma ideia de gênero.

“Esses atos, gestos e atuações, entendidos em termos gerais, são performativos, sentido de que a essência ou identidade que por outro lado pretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corporais e outros meios discursivos. O fato de o corpo gênero ser marcado pelo performativo sugere que ele não tem status ontológico, separado de vários atos que constituem sua realidade. Isso também sugere que, se a realidade é fabricada como uma essência interna, essa própria interioridade é efeito e função de um discurso decididamente social e público, da regulação pública da fantasia pela política de superfície do corpo, do controle da fronteira de gênero que diferencia interno de externo e, assim, institui a “integridade” do sujeito”. (BUTLER, 2012, p. 194 e 195).

Além do livro Gender Trouble, existem outros livros de Butler que tratam das questões de gênero e sexualidade, como Undoing Gender e  Bodies That Matter, que ainda não tem tradução para o português, mas é possível que essas traduções sejam feitas para o próximo ano. Portanto, Butler é uma autora muito comentada e que causa certas “tensões” dentro dos feminismos.

As Blogueiras Feministas estarão no Desfazendo Gênero e no I Seminário Queer para cobrir esses eventos. Além de Judith Butler, o I Seminário Queer também conta com a presença de Marie-Hélène Bourcier, importante teórica francesa que escreveu o livro QueerZones. Para além das presenças das teóricas queers, dizem por aí que esses eventos serão tiro, porrada e bomba e que lá vai começar o apocalipse queer. Fiquem ligadas nas redes sociais das Blogueiras Feministas para saber mais sobre os eventos!