II Seminário Internacional Desfazendo Gênero

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

É importante começar esse texto falando sobre o local em que aconteceram a primeira (2013), a segunda (2015) e onde ocorrerá a terceira edição do Seminário Internacional Desfazendo Gênero: no nordeste.

Para alguns essa decisão da organização pode passar despercebida, porém, é necessário destacar que a grande maioria dos eventos acadêmicos acontecem no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Sul. O primeiro Seminário Internacional Desfazendo aconteceu em Natal/RN, o segundo em Salvador/BA e o terceiro acontecerá em João Pessoa/PB.

O Coordenador do II Desfazendo Gênero, Leandro Colling, disse em sua fala na abertura do evento que a escolha faz-se necessária para que as pessoas entendam que no nordeste também se produz saberes e culturas. Particularmente, considero uma escolha política, haja vista os recentes episódios de preconceito e xenofobia contra o nordeste e o povo nordestino na internet e nas ruas.

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A abertura do seminário contou com a esperada palestra da filósofa Judith Butler.  Mas, antes de sua fala, houve uma série de apresentações de drag queens que perfomaram várias músicas, entre elas destaco as de Maria Bethania. Contudo, a apresentação que levou o público a loucura foi a perfomance de “Run the world (girls)” de Beyoncé que foi mixada junto com outras músicas conhecidas, como “Ai como tô bandida” de MC Mayara.

Logo depois das apresentações, houve a fala de Leandro Colling e depois ocorreu uma última perfomance, que Leandro se referiu como o “nosso hino”: a música “Polka do Cu”, que foi tocada no belíssimo filme pernambucano “Tatuagem”. Fizeram uma referência a cena do filme, onde algumas pessoas entram peladas no palco. Ao terminar essa apresentação, Butler entrou no palco de um jeito inusitado, animadíssima com a música, entrou de costas também fazendo a dancinha da “Polka do cu”.

Em sua palestra, Butler tocou em pontos importantes. Seria necessário ouvir mais algumas vezes o seu discurso de forma atenta, pois ela toca em diversas questões. Uma delas é sobre como o conceito de precariedade já estava no seu livro Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Isso implica em diversas coisas, como por exemplo, em pensar que os corpos generificados, sobretudo aqueles que não estão em concordância com uma marcação compulsória de gênero que foi dada ao nascer, também estão envolvidos no conceito de precariedade.

Muitos falavam que Butler tinha parado de falar sobre gênero por conta de seus últimos livros, como “Vida Precária”, mas agora sabemos que colocar o gênero como uma questão é também falar de vidas precárias. Butler também discorreu sobre como a teoria pode ajudar a política e falou diversas vezes sobre redes de solidariedade para enfrentar as diversas violências que temos enfrentado. Ou seja, ela fala de uma política que saia de algo que seja apenas meu e que também perceba o Outro politicamente. Não se enganem, ela não está dizendo para amar a todos e não tecer críticas sobre posturas alheias. Também não se trata de uma possível “sororidade”. O que Butler está dizendo é que nossa política fica mais forte com redes de solidariedade, são essas alianças que fazem o “queer”, que dão medo naqueles que nos violentam.

Butler também falou sobre feminicídio, fazendo recortes na América Latina. Ela destaca que os feminicídios tem motivações diversas. Ou seja, não há apenas um motivador para o feminícidio que vai causar a mesma atitude em vários lugares. Não há um motivo universal para o feminicídio. Destaca que as mulheres tem tido poucas opções: subordine-se ou morra. Butler acrescenta: precisamos falar sobre femínicidio e nos organizar politicamente.

A meu ver, a discussão proposta por Butler foi muito boa. Fez recortes importantes e tocou em questões que ainda não são muito discutidas por Butler, como o feminicídio na America Latina. Para além de sua fala, preciso destacar a articulação de um evento acadêmico com a militância. Foi possível perceber que nesse evento os saberes não-hegemônicos, os saberes produzidos pela própria militância, os saberes que não tem títulos, foram respeitados e ouvidos. Dou ênfase a essa relação militância e academia pois é difícil ver essa dinâmica em eventos acadêmicos, onde o que importa mesmo é onde você fez o seu pós-doutorado. Contudo, no II Seminário Internacional Desfazendo Gênero foi dado o devido espaço aos saberes não-acadêmicos e acredito que isso merece grande destaque: cada vez mais a militância ocupa esse evento, transformando-o num evento plural.

Além dos debates da militância, também houve espaço para artistas-ativistas, como Solange, Tô Aberta, Ktrina Errática e o grupo feminista Pagu Funk, que animou todas as pessoas que estavam na festa oficial do evento.

Acredito que outro ponto a ser destacado, é que o coordenador do evento, Leandro Colling, disse que muitas pessoas não consideram o Desfazendo Gênero um evento feminista. Pergunto-me qual o motivo para tal afirmação. Particularmente, acredito que sim, é um evento feminista. Mas, não só. É um evento que é ocupado por vários corpos, pensamentos e discussões. Há uma forte discussão sobre várias questões, sejam elas feministas, sexuais, de gênero, de raça, de etnia, de classe, de capacitismo, entre outros.

Porém, é preciso ressaltar que houveram alguns problemas durante o evento. Vi postagens no Facebook de algumas pessoas trans denunciando a falta de sensibilidade e empatia na hora de pedir cédula de identidade para o cadastramento, o que pode ser um grande constrangimento. Essa mesma denúncia foi feita no primeiro Desfazendo Gênero. Pergunto-me por que ainda não foi pensado uma forma de respeitar o nome social, sem a necessidade desse constrangimento. Posto que é um lugar que discute várias questões ligadas as pessoas trans, é necessário discutir como o evento pode melhorar nesse quesito, para que não aconteça constrangimento de nenhuma forma.

Por fim, termino esse texto com uma pergunta que me fizeram na festa oficial do Desfazendo Gênero. Uma pessoa que não é brasileira e que estava sendo colocada a par de todas as dificuldades, violências e do conservadorismo que assolam o país, me perguntou: “Mas, o que estamos fazendo aqui se tudo isso está acontecendo?”.

No momento eu não tinha uma resposta. Perguntei como poderia estarmos ali naquele evento, ora debatendo, discutindo, como em um processo catártico, todos os problemas e retrocessos que estamos enfrentando em várias questões. Ora estávamos ocupando a rua de forma livre, celebrando nossos corpos, nossas resistências e nos tornando aquilo que Butler tanto dizia: uma aliança de forças, uma rede de solidariedade. Estávamos ali não para nos amar, mas para ocupar. E o fato desses corpos estarem juntos nos dava força para sair e celebrar, sem medo de ser punidas.

Pronto, a partir disso eu já tinha uma resposta: celebrar os corpos inconformados, desformes, que causam estranhamento, que não estão dentro de uma categoria normativa, que são punidos por exercerem sua liberdade sexual, que são regulados pelo Estado. Isso é sim um ato político. Que bom que existem eventos como esse, onde podemos fazer manobras políticas tão importantes e que nos dão alívio ao perceber que a solidariedade existe, que somos muitas e que não estamos sozinhas.