Minha sexualidade não é a coisa mais importante sobre mim

Texto de Iria Cabral para as Blogueiras Feministas.

Francamente. Eu tenho uma coisa íntima pra contar: minha sexualidade não é a coisa mais importante sobre mim.

Pode até ser a primeira coisa que você nota, ou a primeira coisa que você supõe, ou até a coisa que mais te incomoda… Mas sinto dizer que existem coisas mais significativas em mim. Tô dizendo isso porque toda essa briga por aceitação da sexualidade e do gênero alheio me soa íntimo demais. É como se eu estivesse lutando pra poder dar pra quem eu quiser, coisa que já faço sem a permissão de vocês há alguns bons anos. E conforme o tempo passa, continuo não precisando da permissão de vocês.

Já parou pra pensar que isso é assim com todo gay, lésbica, pan, bi…? E desde muito, muito tempo é assim. A gente não precisa que você aceite, assim como você não precisa que a gente aceite seu beijo hetero na rua. Ou seu sexo hetero. Nós apenas respeitamos.

Queria também deixar claro de forma mais educada aos heterossexuais que, o fato de eu gostar de mulheres não me impede de achar homens bonitos ou até gostosos. Eu não sou cega. E eu não sou menos lésbica quando digo que o Rodrigo Hilbert é uma delícia. Até dizer que “eu pegaria” um homem não ofende minha sexualidade, eu sou bem segura dela. Ao contrário de vocês que estão aí achando que beijo gay na TV faz “apologia à homossexualidade”.

Ato do Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo, 2013. Foto de Elaine Campos/ Marcha Mundial das Mulheres.
Ato do Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo, 2013. Foto de Elaine Campos/ Marcha Mundial das Mulheres.

Também queria pontuar que o fato de eu gostar de mulheres não faz de mim uma pessoa que se atrai por todas as mulheres do mundo. Quer dizer, de forma geral, faz sim. Me atraio por mulheres, mas não todas. Atração é um troço doido. Eu posso preferir a Tais Araújo ao invés da Juju Salimeni. Mas as duas ainda são mulheres, entendeu? Atração não é algo padronizado, não é regra. Quando eu entro no banheiro feminino do shopping e todos os olhares viram pra direção da sapatão que acabou de entrar… É bem incômodo. Se eu prestar atenção em você ajeitando o sutiã, já parou pra pensar que eu também uso? E que eu posso apenas ter gostado da cor? Já parou pra pensar que, ainda nesse banheiro de shopping, eu não estou “te olhando com malícia”. Malícia é “aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade.” Já parou pra pensar que a gente usa essa expressão horrível quando fala de atração sexual? Pois bem, eu não quero fazer coisas maliciosas com você. Nem coisas boas. Apenas quero fazer xixi.

Voltando pras coisas realmente significativas, você sabia que eu aprendi a falar inglês sozinha? E que eu consigo digitar de olhos fechados? Que eu conto meus dentes todos os dias? E que eu choro com músicas que julgo bonitas? E que eu já mijei um pouquinho quando levei o maior susto da minha vida? Bem, o que eu quero dizer é que existem coisas realmente engraçadas sobre mim pra você rir. Existem coisas realmente ruins sobre mim pra você poder julgar, se eu te der esse direito. Existem coisas realmente preocupantes sobre mim pra você dar conselhos. Minha sexualidade não se inclui em nenhuma delas. Minha sexualidade é minha. Meu vestuário é escolha minha porque é pago com o meu dinheiro. Dinheiro esse que sofre dedução de impostos, igual o dinheiro heterossexual. Quer dizer, eu tenho os mesmos deveres que vocês, mas os mesmos direitos não?

E ainda existe algo pior em ser lésbica, além de ter que ouvir “quem é o homem da relação?”: é ser mulher. Há quem diga que gays homens sofrem mais que as lésbicas. Mas tanto o sofrimento do gay quanto o meu, são pela mesma razão. O meu é porque a forma mais aceitável de “engolir” minha sexualidade, foi sexualizá-la. Coloca duas meninas muito gostosas em um vídeo e pronto. Todo mundo ama lésbicas. Batem punheta pra gente. Imaginam um ménage. Show de bola. Mas daí tem a lésbica gorda, né? A preta, a com dente zoado, a pobre, a de olho castanho. Até o que vocês demonizam tem padrão. O gay homem sofre tanto assim por quê? Porque é comparado com mulher. Então é diminuído em proporção semelhante.

Ando na rua fitando todos os donos da verdade. Pago uma camisa no caixa da loja e entrego o dinheiro pra dona da minha boca. Sou observada pelo meu “andar de homem” pelo servo de Deus. Sou apontada quando pego na mão da minha namorada pelo homem de bem. A policia da moral e dos bons costumes adora me desumanizar! E vocês ainda acham do fundo do coração que eu escolhi isso? Francamente. Honrem a inteligência que a seleção natural pressupôs sobre vocês.”

Autora

Iria Cabral tem 24 anos, vive no Rio de Janeiro. É feminista e lésbica assumida.