O feminismo na internet também é importante

Texto de Talita Santos Barbosa para as Blogueiras Feministas.

O feminismo não começou com internet, as mulheres estão aí militando há muito tempo. Porém, a internet tem sido um canal para a descoberta de novos horizontes, perspectivas e saberes. Com milhares de blogs, sites e vídeos, as pessoas buscam informações sobre variados assuntos, como culinária, moda, política e até movimentos sociais. E, neste contexto, se encontra o feminismo de internet, ciberfeminismo ou a militância feminista virtual.

A militância feminista na internet é vasta. Há sites, blogs, coletivos, perfis em redes sociais, grupos fechados e abertos onde mulheres das mais variadas vertentes feministas constroem, discutem, ampliam, promovem ações e geram assuntos pertinentes à militância. Nas movimentadas páginas e grupos do Facebook compartilham artigos sobre o movimento feminista, problematizam questões de machismo, misoginia e sexismo e assim passam a pertencer ao movimento feminista dentro do ambiente virtual.

Entretanto, há várias pessoas que questionam a militância virtual e chegam a afirmar que ela é inútil, pois acreditam que tal movimento não gere efeito algum e que o correto é participar de coletivos e movimentos fora da internet. Só que ao fazerem tais afirmações, os recortes não são feitos e, como consequência, as mulheres que encontram impeditivos para estarem presencialmente militando pelo feminismo são colocadas à margem do movimento. Por isso, é tão importante lembrar que nem todas as mulheres possuem tempo, condições, apoio ou estrutura para militar fora do ambiente virtual.

Portanto, desmerecer um movimento que, graças à internet, alcança milhares de mulheres todos os dias, não me parece a melhor estratégia. Pois, os diversos sites e comunidades de militância feministas que existem podem ser definidos como espaços físicos transpostos para o ambiente cibernético que, desta forma, facilitam a chegada do feminismo à vida de muitas pessoas em todo o país. Logo, os movimentos sociais que atuam no mundo virtual são tão válidos quantos os que atuam nas cidades físicas.

Marcha das Vadias de Belo Horizonte/MG, 2012. Foto de Pedro Triginelli / G1.
Marcha das Vadias de Belo Horizonte/MG, 2012. Foto de Pedro Triginelli / G1.

Para entender como funciona o processo de troca de informações e a militância na internet, é necessário entendermos alguns termos, entre eles: cibercidade, cibercultura e a interatividade. Assim, o filósofo francês Pierre Lévy, define o termo ciberespaço não apenas como a infraestrutura material da comunicação, mas também como o universo oceânico de informação que ela abriga. Desta forma, o ciberespaço funciona como uma transposição da vida social contemporânea, que são reestruturações do mundo real para o ambiente virtual. Pois, da mesma forma que há movimentos feministas nas cidades físicas, das mais variadas vertentes, no campo digital, há também blogs, comunidades e grupos de discussões feministas.

Já a cibercultura pode ser definida como as características de determinados grupos dentro do ciberespaço, onde tais movimentos se agrupam conforme os interesses, que os indivíduos que o compõem possuem em comum. “Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 11).

Por último, a interatividade é o que torna a militância virtual um espaço de aprendizado, compartilhamento e troca de saberes tão intenso e importante. Pois, segundo Pierre Lévy, o que melhor descreve esta interatividade é a possibilidade, crescente com a evolução dos dispositivos técnicos, de transformar os envolvidos na comunicação, ao mesmo tempo, em emissores e receptores da mensagem. Com a popularização dos computadores, notebooks e smartphones entre a sociedade, hoje é possível participar da militância feminista no ambiente virtual, seja com opiniões divergentes ou até mesmo novas informações.

A interatividade nas redes é regida pelo principio de que é possível ser mutável, efêmero, colaborador e não apenas espectador. Logo, o ciberfeminismo tem o mesmo valor e eficiência que o feminismo que milita nas cidades físicas. Porque as mulheres que militam virtualmente não são apenas espectadoras passivas, mas participam ativamente do movimento através da colaboração e compartilhamento de ideias e ao saírem do ambiente virtual não deixam de ser feministas.

Entretanto, sabemos que a desigualdade social ainda é enorme no Brasil e, como consequência, mulheres periféricas, majoritariamente negras e analfabetas, não têm acesso à internet. Além delas, mulheres indígenas, trabalhadoras rurais, mulheres com deficiências físicas também enfrentam inúmeras barreiras sociais e econômicas que impedem o ciberfeminismo de chegar até elas. Logo, vale lembrar que a importância da militância feminista na cidade física está também em expandir o movimento, sair dos ambientes restritos e ir de encontro a todas as mulheres.

Assim, todas as iniciativas do movimento feminista tornam-se importantes e podem se complementar. O virtual e o real precisam estar conectados para realizar ações mais efetivas. Cada movimento parece possuir suas especificidades e um público-alvo especifico, mas no fundo as possibilidades são inúmeras.

O virtual pode ser o caminho para mulheres que possuem escolaridade e não têm disponibilidade para ir às ruas militar, já os espaços presenciais podem fazer pequenas revoluções em bairros e grupos específicos de mulheres. Ao se unirem, conseguem aproximar todas essas mulheres, pois a comunicação é tão essencial quanto a presença, o conhecimento é tão importante quanto a liberdade. Portanto, ambos os movimentos são importantes e podem revolucionar o mundo através do feminismo.

Referências

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2009.

SANTAELLA, Lúcia. Navegar no Ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo, Paulos, 2004.

Autora

Talita Santos Barbosa é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo. Escreve no blog Oito ou Oitenta.