A heterocisnormatividade na construção de nossa personalidade

Texto de William Roslindo Paranhos para as Blogueiras Feministas.

“Doutor, é menino ou menina?”. Esta é a pergunta feita ainda nos primeiros exames quando estamos “grávidos”. A partir dai, começa o navegar pelos mares do consumo que alimentam as expectativas criadas frente à gravidez: mamãe compra as bonecas, os lacinhos, o rosa, o floral, o “feminino”; papai, por sua vez, corre até a loja mais próxima para comprar a camisa do time de futebol do coração no menor tamanho que possa existir. O doutor, ou mesmo a doutora, avalizam o destino macho ou fêmea no momento do parto e expressam a novidade: “É uma linda (e futura bobinha) menina!” ou “É um garotão (futuro comedor)”.

O processo heterocisnormativo — padrões pré-estabelecidos de gênero em consonância com o sexo biológico — foi iniciado na gestação e não se pode dizer que de modo inconsciente. São colocadas inúmeras expectativas na vida da criança, desejando um futuro certo dependendo do órgão genital que este ser venha à possuir. Se sorte tiver, virá com um pênis, já que a falta dele é um problema. É ele que manda; sem ele a mulher não consegue nada sozinha.

Já na escola, nos primeiros anos, é explícita a forma “pedagógica” de se explicar o nascimento: “A sementinha do papai foi colocada na barriga da mamãe, ai essa sementinha germinou e você nasceu”. Ora, uma árvore não surge do nada, ela precisa que uma semente seja plantada em terra fértil, com condições climáticas, para que então possa germinar e tornar-se uma árvore. Dentro da lógica da sementinha, o homem é o grande responsável pela concepção.

Tais colocações baseiam-se no poderio assumido pelo sistema patriarcal, que assume proporções consideráveis numa época paralela ao desenvolvimento da ciência, quando a mulher passou de deusa – pelo fato de possuir a divindade da gestação – à um forno, onde se é colocado e retirado o pão pronto. Os aspectos machistas baseiam-se nas “brilhantes” descobertas de que na gestação a mulher não seria “nada” não fosse o homem, e foram incorporados aos constructos sociais que tornaram-se intrínsecos em nossas culturas, junto com o processo de medicalização do parto. Esses elementos retiram da mulher seu protagonismo e poder de decisão no processo da gravidez.

É instaurada, já na infância, essa relação de co-dependência da mulher para com o homem. A mulher é quem dá a vida ao homem, mas sem o homem ela jamais teria conseguido engravidar. Em momento algum na escola, nem mesmo em séries fundamentais e médias, dentro dos planos de ensino, as questões reprodutivas que, cientificamente comprovadas podem ocorrer sem a presença física masculina, são fruto de parâmetros até então discutidos por homens e mulheres machistas.

Escola Municipal. Foto de Carolina Paes/G1.

Encontramos na escola um dos primeiros espaços de contato social da criança. Geralmente ocorrem ali suas primeiras experimentações políticas e culturais. Um local onde deveria se sentir livre para observar, analisar, conviver e discutir com o outro, visto que em casa geralmente somos, ou pelo menos há mais imposições para sermos, todos iguais, que pensam igual, que analisam igual, criando uma unidade familiar. A escola pode ser um espaço onde as oportunidades se abrem frente à criança, dando-lhe a oportunidade de conviver num mundo possuidor de um leque de escolhas, de vivências e de informações infinitas.

Porém, nem sempre isso acontece, porque a escola também está inserida na estrutura machista social. Pautando-se no pensamento de Michel Foucault no que tange a sexualidade e as relações de poder, analisa-se que machismo já inicia seu processo de contaminação social e de construção sexista e heterocisnormativa, através da educação ortodoxa, num método preventivo ao surgimento de futuras/os feministas que venham apautar a igualdade social.

Até os sete anos já devemos ter desenvolvido o entendimento do sexo, temos pênis ou vagina, de identidade de gênero, meninos usam bonés e meninas laços; de orientação sexual e identidade sexual, meninos gostam de meninas e vice e versa. E aqueles cujo desejo não seguem uma linha tão “normótica” e não cumprem com os adágios sociais, como ficam?

Aquele que se sente um “estranho/estranha no ninho”, numa perspectiva humana, por destoar daquele padrão menino X menina, não é mensurado o alto grau de repressão que tais ensinamentos podem lhe acometer num momento onde as funções cognitivas e psicológicas estão se desenvolvendo e se estruturando na personalidade do ser para toda uma vida. Verdadeiras tragédias interiores iniciam pelo fato de que esses pequenos não suprem os desejos, os anseios e aquilo que lhes foi ensinado como correto. A primeira pergunta é: “O que está acontecendo comigo?”.

Ainda devemos continuar ocultando as verdades que, simplesmente, de hora pra outra, aparecerão na mente, no coração, no desejo e na vontade das crianças, colocando-os numa zona de conflitos internos? Devemos exigir que todos e todas se adequem ao que a heterocisnormatividade determina? A sociedade não deve ser cada vez mais plural e inclusiva? Não há caminho errado para ser o que se é. Não há trajeto mais ou menos aceito. Existem sim atalhos, que podem, ou não, serem escolhidos. Porém, o importante é ter como objetivo um mundo de mais justiça social e direitos igualitários.

Autor

William Roslindo Paranhos é estudante de Psicologia e Pós-graduando em Estudos de Gênero e Sexualidade pela Universidade Federal de Santa Catarina. Militante em movimentos sociais LGBT, realiza estudos e palestras combatendo os conceitos binários e sexistas.