Se você é contra o aborto, não aborte!

Texto de Elisangela Dalmazo para as Blogueiras Feministas.

Na China há leis rígidas de planejamento familiar e controle de natalidade, a conhecida “política do filho único”. Por causa dessa política de governo, gestantes sem permissão para engravidar podem ser obrigadas a realizar um aborto no caso de uma segunda gravidez ou quando são solteiras, porque o Estado chinês não permite às mulheres solteiras registrarem os seus filhos, negando-lhes acesso à educação, saúde e outros direitos.

O Estado chinês não respeita a decisão das pessoas para que as autoridades consigam atingir as suas metas de controle populacional, sem se preocupar com a vontade das mulheres. Aqui no Brasil “democrático” vivemos uma realidade diferente, mas tanto o Estado como a sociedade intervêm nas escolhas das mulheres, obrigando-as muitas vezes a ter uma gestação indesejada, condenando-as a se arriscarem em abortos clandestinos e até mesmo morrerem por não as darem direito à escolha. Mas o que esses casos distintos têm em comum? A falta de domínio dessas mulheres sobre o próprio corpo.

Marcha das Vadias na praia de Copacabana, Rio de Janeiro. Foto de Júlio César Guimarães/UOL.

A cultura machista é o grande vilão desses abusos contra as mulheres. A luta por espaço, por respeito, por dignidade ainda será árdua para a maioria delas. A discussão contra o aborto é o meio mais direto e ditador da sociedade impor o seu poder de controle sobre a vida das mulheres, determinando como elas devem se comportar, o que podem fazer e como devem se calar. No entanto, o que os “defensores da vida” não percebem é que existem problemas muito mais graves acontecendo em torno desse “crime” que tanto condenam. A negligência está aí o tempo todo, mas somente as grávidas são responsabilizadas por isso.

O governo é negligente quando não dá apoio e estruturas a essas mulheres e suas famílias. A sociedade é negligente quando não faz nada para mudar essa realidade e exigir mais políticas públicas. As pessoas não se importam em saber como essas mulheres engravidaram, como vivem ou porque se arriscam a realizar procedimentos clandestinos colocando em risco a própria vida. Muitos homens são negligentes quando não assumem seu papel de apoiar as mulheres, deixando-as sob a custódia de uma sociedade machista e preconceituosa. Muitas pessoas estão abortando nesse momento, ao condenar uma mulher e decidir o que ela deve fazer com o próprio corpo e com a própria vida.É fácil ser contra, principalmente para os homens, que em sua maioria não passarão pela experiência de engravidar sem querer. Afinal, a culpa é sempre da mulher!

Essas mulheres, vítimas de preconceitos sociais desumanos e de um sistema político patriarcal, precisam ter seus direitos respeitados. Políticas de planejamento familiar, acesso a métodos contraceptivos, atendimento especializado em casos de violência sexual e aborto legal e seguro. Porém, o que ocorre é que são obrigadas a salvar a própria vida dos julgamentos de uma sociedade hipócrita, que ao mesmo tempo que condena o aborto apoia medidas de extermínio da juventude, especialmente negra. Os ditos “pró-vida” vão estar sempre em defesa da “vida” do feto, mas são essas mulheres que estão inseridas na sociedade, são elas que têm família, são elas que têm uma vida real que pode mudar drasticamente, são elas que precisam de defesa.

Mas ai sempre vem aquela pergunta machista: “por que não se cuidou se não queria engravidar?”. E eu respondo: pelo mesmo motivo que você nasceu com esse pré-conceito deformado sobre a vida alheia. Por mais que existam formas de prevenir uma gravidez, elas acontecem, as pessoas são humanas e não seres perfeitos. Acidentes simplesmente acontecem. Isso quando não é um estupro ou outros casos de violência sexual. Ter um filho deve ser uma decisão com ampla possibilidade de escolha, justamente porque isso reforça a responsabilidade das pessoas em relação as crianças.

Defender a vida é um discurso vazio, porque ninguém é a favor da morte. E, em casos como o do Brasil, em que as mulheres são obrigadas a realizar abortos clandestinos, quem morre muitas vezes é uma mulher que tem outros filhos. No que sua opinião contrária a legalização do aborto está ajudando nas vidas das mulheres? No que a criminalização do aborto no Brasil tem ajudado a sermos uma sociedade mais justa e igualitária?

Todos são a favor da vida, por isso que o aborto deve ser legalizado. Isso garante não apenas dados mais confiáveis em relação a prática que geram políticas públicas melhores para evitar que as mulheres cheguem na decisão de fazer ou não um aborto, mas também pode garantir a vida de muitas de mulheres que morrem todos os anos, vítimas de abortos ilegais. Iria garantir o respeito e a liberdade a todas as mulheres.

Pra você que é contra o aborto, não aborte! No Brasil é crime ser obrigada a fazer um aborto e continuará sendo, mesmo com a legalização. Faça o que acha certo para sua vida. Aproveite a liberdade que tem de ter sua escolha. Mas não condene uma vida que desconhece e um corpo que não te pertence.

Autora

Elisangela Dalmazo é estudante de Música na UFPR. Produtora audiovisual desde 2010. Acredita que a conscientização de um mundo melhor pode ser algo levado às pessoas através das palavras e das artes.