A condescendência cisgênero

Texto de Bia Pagliarini.

Os discursos de condescendência cisgênero colocam a nossa existência como passível de ser explicada — ou justificada — tendo em vista um modo de pensar cisgênero. Que coloca a cisgeneridade como escolha natural e esperada de todas as pessoas e coloca a transgeneridade como uma escolha descabida.

Então a “aceitação” das existências trans por esse viés ciscêntrico só se dá a partir de uma perspectiva que coloca a transgeneridade como um triste destino, como a última escolha do sujeito. Então, a pessoa só poderia “escolher” ser trans se ela de fato não tivesse nenhuma escolha, eis o paradoxo. Começa então a funcionar dispositivos de veridição de quem é trans de verdade, já que apenas em última instância alguém poderia escolher ser trans. Neste olhar, pessoas trans precisam ter “certeza” sobre suas escolhas, já que elas seriam tão ruins, que seria preciso estabelecer limites. Limites estes que interrogam as pessoas trans: “é isso mesmo que você quer pra você?”

Aqui entram meticulosas formas de governar as subjetividades, o poder entra como forma de estabelecer como a verdade deve emergir do sujeito, afinal, a verdade trans é uma verdade perigosa. Ela é administrada por formas de pensar que coloquem o sujeito a fazer pensar como sua forma de vida enquanto “última escolha”.

Binha, transexual, negra, praticante do candomblé e residente da comunidade de Caetés I, em Abreu e Lima, Pernambuco. Foto de Fabiane Lopes, parte do projeto fotográfico (Trans)cendência. O ensaio tem como objetivo dar espaço, vez e voz à identidade da mulher trans, através da de Binha.
Binha, transexual, negra. Foto de Fabiane Lopes, parte do projeto fotográfico (Trans)cendência. O ensaio tem como objetivo dar espaço, vez e voz à identidade da mulher trans, através da de Binha.

É preciso romper com este regime de produção de verdade. É preciso pensar a constituição da nossa subjetividade além destes sistemas de veridição de subjetividades que pressupõe escolhas ruins, impensadas, de um lado, que forçam a criações de justificativas para vidas consideradas inviáveis, incabíveis, exageradas… A vida das pessoas trans.

Não precisamos “ter certeza” do que somos para sermos. Não precisa “termos certeza” para que nossa vida seja legítima. Não precisamos inscrever na biologia a narrativa de um destino de sofrimento para que possamos ter a ousadia de viver diferentemente.

A fixidez é de ordem imaginária, eu não preciso falar que a transgeneridade está na minha essência — e aqui entram as “vontades de saber” acerca das infâncias de pessoas trans não como forma de reinventar e simbolizar uma narrativa a partir do presente, mas como forma de justificar a existência atual tida como abjeta. Eu não preciso me justificar. Colocar a minha vida nestes termos é uma forma de controle, e eu resisto a isto a partir do momento em que aponto para a sua não naturalidade.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 01/11/2015.