Virada Política: pensando sobre educação, adolescentes e feminismo

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

No fim de semana, aconteceu em São Paulo a Virada Política, quando pessoas, coletivos e instituições se juntaram para falar da política que vai mais além da partidária e que pode ser feita de várias formas por todos nós, em nosso cotidiano.

Estive lá junto com Martha Lopes, companheira da Casa de Lua, coordenando um bate-papo sobre Gênero na Educação. Contamos das nossas andanças por escolas, públicas e particulares, conversando com alunas adolescentes que estão se organizando em coletivos feministas ou na perspectiva do feminismo. Até já falei melhor sobre isso nos textos: ‘Assédio, cultura do estupro e adolescentes feministas’ e ‘Mulheres nos espaços dos homens: protestos e adolescentes feministas’.

Virada Política. São Paulo, novembro de 2015. Foto de Vanessa Rodrigues.
Virada Política. São Paulo, novembro de 2015. Foto de Vanessa Rodrigues.

A sala encheu e fiquei gratamente surpresa com a interação e o interesse das pessoas no assunto. Realmente acredito que muito dessa vontade veio por causa dos últimos dias, quando o feminismo ficou em evidência na mídia e, principalmente, nas redes sociais. Das diversas trocas que tivemos, alguns pontos foram bem instigantes e vieram ao encontro das minhas reflexões, ainda sem respostas: como os pais estão lidando com o envolvimento de suas filhas nas pautas feministas? Como os meninos, colegas, amigos, namorados, se inserem nessa ofensiva das adolescentes? É possível envolvê-los no ativismo? Como seriam essas ações?

Enquanto pensava, ia buscando inputs que pudessem nos ajudar na roda de conversa a encontrar algumas compreensões, ao menos. Sobre os pais, por exemplo, posso especular muito mais pela convivência com outros pais que com informações colhidas nas escolas. Eu mesma sou mãe de dois meninos, sendo que o mais velho tem 14 anos. Com quem converso, vejo nessa geração que está entre os 40 e 50 anos, em sua maioria com filhos adolescentes, muita admiração por um lado e bastante preocupação pelo outro. Eles até querem filhas empoderadas, independentes, atuantes. Ou mesmo filhos mais sensíveis e respeitosos com suas colegas, amigas, irmãs, primas e namoradas. Mas, esse desejo esbarra muito nas questões que envolvem sexualidade.

A preocupação com a violência sexual e o revenge porn se mistura bastante com as preocupações relacionadas a seus próprios preconceitos com orientação sexual. E também se confundem com a questão da identidade de gênero. Martha destacou que a sensação que tem às vezes é que as escolas estão menos preparadas para lidar com os pais do que com os próprios alunos. Os pais acabam sendo o problema, porque nesse caldeirão todos estão confusos. Já vi amigos progressistas com algumas fortes restrições sobre a quantidade de namorados ou namoradas da filha, ou sobre o tamanho de suas roupas, ou sobre certas tentativas de desconstruções de masculinidades dos filhos, como usar saia, por exemplo.

A questão é que tudo isso está sendo posto, né? Ou eles correm atrás de informação, de compreensão e de conversa com suas filhas, cada vez mais contestadoras, ou vão continuar sem entender muita coisa, reproduzindo comportamentos machistas e repressores. E educando seus filhos homens assim. Reitero que falo do meu círculo de convívio, que não é necessariamente o reflexo de alguma tendência.

De qualquer maneira, tudo isso acabou me lembrando de um dos relatos que ouvi numa escola pública de Parelheiros, quando Jéssica, de 16 anos, que está consolidando o grêmio em sua escola junto com outras 5 colegas da mesma idade, nos contou que a irmã mais velha viu seu nome pichado em tudo quanto é muro da região chamando-a de vadia. Seu pai foi o primeiro a apoiá-la, acolhê-la e a propor um mutirão de limpeza das paredes. O contrário de várias outras histórias que soubemos ou lemos, de famílias que reiteram a violência contra a menina que entra numa lista Top 10 Vadias, castigando-a ou acusando-a de provocar a situação. Empatia sendo aplicada em casa pode fazer bastante diferença.

Sobre os meninos, fiquei pensando muito na maneira como esses coletivos que conheci estão se configurando. Numa das escolas particulares que estive, o coletivo é formado por meninos também. Nessa de Parelheiros, também ouvi de Jéssica que ela quer os meninos nos assuntos de gênero, destacando que gostaria muito de realizar uma roda de conversa sobre redução da maioridade penal, porque ela também acredita que falar de gênero é falar desse assunto, já que impacta especialmente a vida de adolescentes homens, pobres e negros. A maioria de seus colegas, portanto.

Ou seja, ao menos nesses há interesse em envolvê-los no ativismo que elas estão tentando consolidar. Talvez, elas e eles, juntos, vão encontrando suas próprias respostas e caminhos de atuação.

Nós, na Casa de Lua, sempre conversamos sobre realizar projetos ou ações específicas para meninos, crianças e/ou adolescentes, justamente pra falar de gênero. Pra falar sobre o quanto o patriarcado tem impacto sobre eles, suas vivências, experimentações, desejos, anseios, jeitos de se relacionar com o mundo, de se relacionar entre eles e, principalmente, com as meninas. E também pra falar sobre seus privilégios, inclusive pra que eles não tenham que fazer meas culpas superficiais, equivocados e patéticos (e oportunistas?) no futuro. No final, acabamos postergando, pelo tanto de pauta que precisamos fortalecer entre a gente mesmo.

No entanto, essas indagações que surgiram na roda de conversa na Virada Política me trouxeram muitas dessas reflexões à tona outra vez. Sem resposta, joguei para o grupo que estava lá e jogo agora para o universo: o que poderíamos fazer? Como fazer?

Uma das pessoas levantou um assunto concreto que se poderia trabalhar na escola: gravidez na adolescência e aborto. Em Parelheiros, por exemplo, notei só de observar que a maioria dos alunos daquele turno que estávamos (noturno, do ensino médio) eram meninos. Já prevendo a resposta, mas querendo confirmar, perguntei se minha percepção estava correta, coisa que assentiram, e se isso se relacionaria com gravidez na adolescência, que também confirmaram. Falamos sobre o quanto a vida da menina é bem mais afetada, com ela sendo hostilizada na escola, com o menino evadindo de sua responsabilidade e sendo poupado pela família e pelos colegas da “culpa” daquela gravidez, que acaba recaindo 100% sobre a menina.

Aliás, sobre esse assunto, ouvi também algo que me deixou atônita: muitas delas me disseram que não podem ter nenhum mal estar físico na sala de aula porque há professores que as “acusam” de estar grávidas, demonstrando desrespeito, preconceito e uma vontade cruel de constrangê-las na frente dos colegas. É como se, para essas pessoas, seus “educadores”, a narrativa dessas meninas estivesse dada: aos 15/16 anos o destino delas será engravidar e sair da escola. E diante dessa constatação, parece que nada se pode fazer. Fico pensando no quanto essa postura desrespeitosa por parte de alguns professores reitera sexismo e machismo. E, principalmente, o quanto valida o clima hostil que se instala quando uma menina realmente aparece grávida.

Em algumas conversas em outras escolas, vi alunos preocupados com a expressão “feminista” sugerindo trocar por “humanista”. Vi a necessidade de expressar facilmente seu tédio e desprezo pelo que se estava discutindo (alguns fizeram questão de bocejar alto na nossa frente) e vi outros apelando pra zoeira. Confesso que esses eu até curti, porque mesmo na zoeira eles interagiram. Quiseram conversar, reagir ou mesmo revidar, demonstrando seus incômodos com algumas colocações que podem mesmo ser interpretadas como acusações pessoais a eles, mas ao menos indicaram estar atentos ao que estávamos falando.

Fico pensando que conversar é sempre um bom caminho inicial. O que os aflige? O que é ser adolescente, homem, principalmente nessa nova configuração que parece se estar se consolidando dentro de suas escolas e de suas relações? O que eles pensam sobre as demandas das colegas? O que eles pensam sobre assassinato de mulheres por seus namorados, companheiros e ex-companheiros? Por que isso acontece? O que eles pensam sobre listas de vadias, compartilhamento de fotos e vídeos íntimos ou, no extremo, estupros coletivos como soubemos que estão ocorrendo nos banheiros das escolas?

Por que isso parece divertido e permitido? O que, para eles, tem de confusão natural da idade, de construção cultural e de maldade? Como realizar uma conversa realmente potente quando os estímulos externos são tão ferozes, com supostos humoristas e personalidades das rede sociais com forte influência sobre eles, transformando tantas questões de violência contra mulher numa grande piada, por exemplo? Como desconstruir perversidades num contexto no qual ser perverso é cool?

Como é possível observar, as questões e as dúvidas são muitas. E, realmente, não tenho respostas para elas. Gostaria muito de ouvir mais sugestões e de conhecer experiências que já estejam acontecendo por aí envolvendo os meninos e mesmo os pais. Entrem em contato com a Casa de Lua pelo Facebook e vamos pensando sobre isso juntos.

[+] Campanha #PrimeiroAssédio expõe tabu de violência sexual contra meninos.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.