#OcupaEstudantes – A faísca da revolução

Hoje, blogs, sites e colunistas estão abrindo seus espaços para que estudantes de São Paulo possam falar, usando suas próprias vozes, sobre a experiência que estão vivendo de se juntar e lutar contra o projeto de reorganização das escolas da rede pública de ensino do Estado de São Paulo. Todos os textos serão reunidos pela hashtag #OcupaEstudantes. Temos a honra de abrir espaço nas Blogueiras Feministas para Nathalia Vercinskas, aluna da Escola Estadual Romeu de Moraes.

A faísca da revolução

A “reorganização escolar” imposta pelo governador Geraldo Alckmin e seu gabinete — sim, imposta, já que não houve nenhuma espécie de diálogo com as comunidades — tem sido alvo de ferrenhas discussões. Como forma de protesto, alunos de todo o estado começaram a ocupar suas escolas e ir às ruas, tomarem o que é seu por direito.

Para entender a causa, é preciso voltar para o começo de tudo.  É importante saber da dimensão da manipulação feita por parte do Estado e da mídia aos professores, diretores  e pais de alunos, que só se mostraram contra essa nossa forma de protesto devido ao fato de terem sido usados como marionetes do Sr. Geraldo.

Estudante protesta em frente à escola estadual Fernão Dias, na zona oeste de São Paulo, contra a reorganização da rede estadual de São Paulo. Foto de Lucas Lima/UOL.
Estudante protesta em frente à escola estadual Fernão Dias, na zona oeste de São Paulo, contra a reorganização da rede estadual de São Paulo. Foto de Lucas Lima/UOL.

Sou aluna do segundo ano do ensino médio regular na Escola Estadual Romeu de Moraes no bairro da Lapa, zona Oeste de São Paulo. A nossa ocupação ocorreu no dia 26 de novembro de 2015 e foi uma conquista suada. Houve uma tentativa de ocupação no dia anterior (25/11), porém, sem sucesso, devido a certos professores que fizeram um cordão de isolamento, impedindo os alunos dos 1ºs e 2ºs anos do ensino médio de entrarem no prédio com a desculpa de que apenas os 3ºs anos fariam a prova SARESP, em pleno dia letivo.

A diretora da escola disse aos alunos que queriam ocupar que no dia seguinte seria feita uma assembleia para decidir o que iríamos fazer. Ela convocou alunos, professores e pais (sic) para votarem no dia seguinte.  O resultado de tudo isso é que havia (pasmem) apenas duas mães de alunos do período da manhã, poucos professores e muitos alunos desinformados.

O que ocorreu naquela manhã não chegou nem perto de uma assembleia. A diretora simplesmente subiu em um banco da quadra, sem microfone, e disse algumas palavras que não foram ouvidas por quase ninguém devido ao fato dela não ter usado um equipamento de áudio decente. Após isto, ela pediu que quem fosse contra a ocupação se direcionasse para um lado da quadra e quem fosse a favor, para o outro.

Os alunos a favor da ocupação foram até a diretora e explicaram que queriam que aquilo fosse feito de maneira justa. Então, reunimos em uma sala dois representantes de cada classe, para debater sobre o assunto ocupação.

Muitos alunos contrários à ocupação, que outrora foram manipulados por professores, mudaram sua opinião no dia seguinte, quando souberam do que se tratava o movimento e por que queríamos fazer parte dele. O Romeu de Moraes em si não iria fechar definitivamente. O que seria fechado ali era o ensino médio. Escolhemos entrar no movimento com intuito de abraçar a causa, assim como inúmeras outras escolas como a E.E. Manuel Ciridião Buarque, também localizado na zona Oeste de São Paulo.

Desde que ocupamos o prédio, ficou claro para toda aquela gente que ali estava, independentemente da sua postura como aluno dentro de sala de aula, que aquilo era um ato de carinho e responsabilidade para com a educação e a nossa escola. E tem sido assim em todas as ocupações. Por mais que nós estudantes (e até alguns professores que nos apoiam) estejamos sofrendo ameaças e represálias de grande parte da comunidade, da polícia militar e da mídia, nosso objetivo é claro: não sairemos até que este decreto seja revogado, para o nosso bem e da comunidade.

Para que tenhamos uma sociedade melhor, precisamos ser mais do que alunos ou aprendizes. Precisamos de uma formação que nos torne pensadores, que nos prepare para a vida e não apenas para um vestibular. Nós, estudantes secundaristas do Estado de São Paulo, mostramos a que viemos. Mostramos que podemos, sim, ter voz.

E isto é só o começo.

#TáTendoOcupação #NãoTemArrego #RecuaGeraldo

Autora

Nathalia Vercinskas, 16 anos. Escola Estadual.Romeu de Moraes.