Feminismos, hashtags e um elefante chamado Horton

Texto de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

Tenho lido muitos relatos e análises sobre as recentes campanhas feministas #PrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto. Opiniões sobre sua validade como instrumento de militância, sobre sua contribuição para o avanço do movimento, ou quais conquistas essas campanhas angariam. Sobre o que campanhas catárticas como essas trariam de bom e ruim, ou sobre esse tipo de ação ser o futuro do movimento feminista nas redes sociais.

Então, enquanto debatia sobre essas questões eu me lembrei de um filme que assisti muitas vezes com minhas crianças e que recomendo a todos: “Horton e o mundo dos Quem”. Adoro esse filme porque para mim a mensagem que ele traz de respeito mútuo e intrinseco a todos os seres, independente de seu tamanho, sempre foi algo que entendo ser importante ensinar para meus filhos.

Mas ai eu me peguei incomodada com a campanha do #MeuAmigoSecreto, com as coisas ditas em alguns status, com a forma que outras coisas foram faladas e tenho tentado entender o alcance das campanhas, a sua importância, a sua necessidade e como compreender esse feminismo que não me contempla, mas contempla a tantas e que tem surtido um efeito que todas as horas que passei escrevendo textos e respondendo comentários em blogs e fan pages não trouxeram.

Foi aí que lembrei do filme. No filme, o mundo dos Quem cabe inteiro dentro de um ínfimo grão de poeira. E por um motivo desconhecido, a voz de um dos habitantes desse mundo chega aos ouvidos de Horton, um elefante meio atrapalhado que mora numa selva. E, desse momento em diante, Horton toma como missão salvar a pessoa pequena que mora no grão. Outros habitantes que moram na selva acham que ele está maluco, que no grão não pode haver uma pessoa, não existem pessoas tão pequenas assim e tentam dissuadí-lo de continuar. Enquanto isso, no grão, as pessoas minúsculas não se dão contam de que fora do grão existe um mundo muito maior do que eles podem imaginar, e que esse mundo influencia o mundo delas também. A conversa então se estabelece entre o prefeito do mundo dos Quem e Horton, o elefante.

Cena do filme 'Horton e o Mundo dos Quem' (2008).
Cena do filme ‘Horton e o Mundo dos Quem’ (2008).

No decorrer do filme fica claro para nós, para o prefeito e para Horton que a salvação do mundo dos Quem não depende deles sozinhos. Eles descobrem juntos que sem a implicação de todos os habitantes do seu minúsculo mundo, sem as vozes de todos juntos, os habitantes da selva jamais os ouvirão e jamais pararão de perseguir Horton, que assim não será capaz de salvá-los. E é assim que acontece no filme, quando todos os habitantes do mundo dos Quem juntam suas vozes num coro uníssono, é aí que os animais da selva passam a escutá-los, num primeiro momento um ruído para depois se distinguir as vozes.

Para mim esse filme traz uma analogia perfeita para o que representam e ao que servem essas hashtags. Elas servem para dar voz aos feminismos. Para desnaturalizar comportamentos machistas inaceitáveis que são horrivelmente corriqueiros, para desnaturalizar falas preconceituosas e atitudes intolerantes, para educar os ouvidos de quem sequer imagina que existimos enquanto pessoas, para exigir a atenção de quem está acostumado a pensar que se está bem para si mesmo, então está bem para todos.

Essas hashtags estão aí para mim também, para nós, militantes. Para me lembrar que por mais que pareça natural, para mim, que esses relatos horríveis tratam da mais absurda violência machista, racista, homolesbobitransfobica. Há outros que sequer as percebem, ou que imaginam que as coisas são assim mesmo. Essas hashtags somos nós, mulheres do mundo, juntando nossas vozes num coro para sermos ouvidas. Essas hashtags nos fazem perceber o quanto o discurso é poderoso e o quanto modificá-lo é importante.

Para mim, para além de problematizar, simplesmente criticar ou diminuir a importância dessas campanhas deveria ser nosso papel, como militantes feministas, saber usar essas energias, saber acolhê-las e fazer delas um meio para alcançarmos as conquistas pelas quais lutamos. Saber ajudar a força dessas vozes a focar em objetivos, saber apontar as outras vozes que ainda não são escutadas e outras vivências que são ainda mais oprimidas. Trocar nossa própria perspectiva pela de quem sente-se agredida, mas não sabe o que fazer, não sabe ou não se sente forte o suficiente para responder. Abrir canais para concentrar forças, ser humilde o suficiente para amplificar as vozes que surgem, sem querer moldá-las ao que julgamos ser o correto, o melhor, o sério, o mais apropriado. E espero que a força dessas hashtags continuem e que não paremos de falar até que sejamos escutadas.

+Sobre o assunto: #MeuAmigoSecreto e a poética do feminismo. Por Alana Moraes.