CPBR9: militância feminista e a participação das mulheres em eventos nerds

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

O primeiro Campus Party que eu fui foi em 2009, um ano depois de ter me formado, quando estava começando a participar de eventos de tecnologia. Lembro que fiquei deslumbrada pelo tamanho do evento, pela diversidade de termas e por uma infinidade de fatores que até hoje não sei se consigo descrever completamente.

Eu achava simplesmente mágico sair da minha bancada da área de software livre, ver um monte de gabinetes customizados por todos os lados, me distrair com um helicóptero controlado por controle remoto construído ali, bater papo com o pessoal de imagem e som e depois ainda tentar lugar na fila pra jogar rock band. Enquanto isso ouvia notícias sobre um grupo que ia usar telescópios para observar algum fenômeno astronômico que ia acontecer naquele dia. Resumindo: prato cheio para qualquer pessoa nerd de diversas áreas.

Esse evento também é conhecido pela grande quantidade de patrocinadores e anunciantes que distribuem brindes e aproveitam para fazer propaganda focada nesse público. E daí que estava eu caminhando em algum momento e vi duas mulheres vestidas de coelhinhas da Playboy. Por um segundo eu parei e fiquei observando, me perguntei se tinha alguma novidade tecnológica envolvendo o site deles, se tinha algum algo nerd relacionando que eu não tava sabendo, e finalmente me liguei: a maioria esmagadora dos participantes eram homens. E seguindo a lógica heteronormativa alguém achou que fazia muito sentido fazer propaganda de uma revista de nus femininos em um evento nerd. Tinha outra revista que eu não lembro fazendo o mesmo, e é claro muitos homens saiam babando e assediando as mulheres que estavam fazendo propaganda da revista.

Nessa época ainda não estava envolvida na militância feminista, mas mesmo assim era bastante visível a assimetria na participação: faltavam mulheres palestrando, as poucas participantes na maioria das vezes estavam com namorados, e enquanto isso existiam várias mulheres expondo produtos. Como não estava acompanhada fui abordada diversas vezes como se fosse algum tipo de monstro alienígena que se materializou ali. A sentença estava dada: eu estava sozinha enquanto mulher e amante da tecnologia.

Depois de passar por outras situações constrangedoras em outros eventos de tecnologia resolvi me afastar, só fui tomar coragem novamente em 2012 para voltar a Campus Party. Já fazia parte do Blogueiras Feministas, fui apresentada a outras minas nerds incríveis e sabia que não éramos um grupo pequeno, apenas compartilhávamos dos mesmos desconfortos. Nesse evento a participação das mulheres tanto enquanto palestrantes como participantes já tinha aumentado significativamente os temas se voltaram muito para que acontecia na internet também. Pude acompanhar uma mesa redonda sobre feminismo na rede e uma palestra sobre a importância de incentivar pessoas a contribuir e a participar de comunidades de software livre por uma das pouquíssimas mulheres a palestrar numa das áreas voltadas à desenvolvimento. Luciana Fuji, que inclusive encontrei nessa edição de 2016 e ao comentar que existiam várias mesas do tipo desabafou: Agora posso falar do que eu realmente gosto: Software Livre!

Nos anos seguintes um conjunto de fatores diversos me afastaram da campus, mas este ano finalmente pude participar novamente. E tomei um susto, no bom sentido. Haviam tantas mulheres palestrando que eu tive que delimitar os temas das palestras que eu ia acompanhar para aquelas que se voltavam mais a participação e representação das mulheres e o feminismo e não eram poucas! A quantidade de mulheres e meninas participando era bastante grande também. Sempre que sentava numa bancada achando que ia acabar sendo a única mulher ali, logo mais sentavam duas, três. Parece que houve uma diminuição na quantidade de patrocinadores, mas o resultado positivo é que também não havia tantas mulheres sendo objetificadas para apresentar produtos. Gostaria de ter em maiores detalhes os números comprovando minhas impressões, mas a organização do evento não me passou quando solicitei.

Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira
Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira

Nas palestras que acompanhei houve uma grande diversidade de temas, projetos, iniciativas voltadas para a participação de mulheres e, mais importante, em muitos momentos se levantava a necessidade de focar em outras regiões do país, em mulheres negras, periféricas, lésbicas, bissexuais, transexuais. Das que não pude acompanhar tinham iniciativas focadas na participação de crianças na tecnologia, sobre maternidade nerd e também nas necessidades de pessoas com deficiência.

Mas claro nem tudo são flores. Além de diversos problemas de infra-estrutura que vêm desde o primeiro evento que participei que envolvem banheiros distantes, comida cara e nada saudável, e palcos mal planejados e mal distribuídos (por terem uma distribuição confusa e estarem muito próximos o som de uma palestra acaba invadindo o espaço da outra), ainda teve uma restrição nova que impedia de levar comida para dentro do evento que levou a uma situação bem absurda com uma das palestrantes que estava tentando comprar comida para seu bebê.

Outro grande problema foi com relação a distribuição das palestras que envolviam os temas que eu buscava, muitas delas ficavam em horários absurdos no meio da madrugada, o que dificultava a participação de quem não estava acampando no evento (já que algumas palestras começavam depois da meia noite e o ultimo ônibus para o metro funcionava até as 22h). Além de geralmente ficarem em espaços menores e de menor visibilidade. Parece inclusive que algumas não tiveram transmissão por streaming por conta do horário que aconteceram. Em um ambiente tão hostil para as mulheres e outras minorias como um evento de tecnologia, palestras que debatem violência contra as mulheres deveriam ter lugar de destaque.

Pelo menos, apesar dessas limitações, a maioria das palestras e oficinas que fui tinham uma participação razoável. Com destaque a uma oficina para criação de personagens mais diversos para games ministrada por Rebeca Puig e Alice Mattosinho que foi bastante concorrida, tendo inclusive uma grande quantidade de homens participando. E também da palestra da Thaisa Storchi Bergmann, uma astrofísica brasileira que falou sobre buracos negros, que esteve no palco principal e estava completamente lotada.

Outro ponto a se observar é a heterogeneidade do posicionamento com relação ao feminismo por parte das palestrantes. Algumas não titubearam em se declarar feministas, outras tiveram muitas reservas quando questionadas, outras ainda diziam que não tinham muito interesse pela militância, ainda que seus projetos fossem claramente feministas. Dessa forma é possível perceber que temos muito ainda o que caminhar com relação a conscientização das mulheres com relação a necessidade de combatermos o machismo. Mas o começo já estamos fazendo: estamos nos organizando e nos apoiando e assim ganhando espaço e visibilidade.

Abaixo segue a lista das palestras que participei com alguns links dos respectivos projetos e iniciativas e links que tratam da participação de mulheres na tecnologia:

27-01

17:30
Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games

18:30
A representação da mulher na cultura pop
links:  MinasNerds, Collant sem decote, Who’s Geek, Think Olga

23:00
PyLadies Brasil: Projetos e Experiências das comunidades brasileiras
link: PyLadies

28-01

10:30
Quebrando estereótipos: Aprenda a criar de personagens para games
link: Collant sem decote

14:30
Empreendedorismo feminino na geração Y
link: Jogo de damas

15:30
Hackerspaces feministas: reduzindo a desigualdade de gênero na tecnologia
link: MariaLab Hackerspace

21:15
Ativismo feminista em redes
links: Casa de lua, Minas Programam, KD Mulheres

23:00
Robótica: Uma forma lúdica de atrair meninas para a tecnologia
link: /MNT (Mulheres na Tecnologia)

29-01

00:00
Estimulando a participação feminina no Mercado de TI
link: CODE GIRL

11:45
Empatia e Ética nos Games
link: MinasNerds

14:30
O mundo real de volta ao relacionamento online

23:00
Garotas CPBr | O que fazer para permanecer firme no caminho das ciências exatas
Link da mesa no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FFA5xoyD47Q
link: Garotas CPBr

30-01

01:00
Garotas CPBr: A influência da Tecnologia em cada faixa etária
links: Garotas CPBr, /MNT (Mulheres na Tecnologia), Mulheres, Tecnologia e Oportunidades, Mulheres na computação

11:45
Delas pra elas: tecnologia e segurança. Sai pra Lá e ONU mulheres.
links: Onu Mulheres, Sai pra lá

13:00
Buracos Negros Supermassivos e seu papel na Evolução do Universo
link: Para mulheres na ciência

16:30
O Software Livre como ferramenta para a inclusão de mulheres na tecnologia
link: Mulheres, Tecnologia e Oportunidades

E mais iniciativas que estiveram presentes que não pude acompanhar (se faltarem mais por favor postem nos comentários):
Meninas também Jogam, Rails Girls, PAC MãePrograMariaWomen Up Games

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