Em defesa da pluralidade do pensamento feminista

Texto de Marcelli Cipriani para as Blogueiras Feministas. 

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Imagem do vídeo The End of Gender: Revolution, Not Reform.

A popularização do feminismo contemporâneo, especialmente potencializada pela internet, têm se expressado por uma dinâmica dúbia no fortalecimento do movimento, em sua intrínseca multiplicidade: se, por um lado, a constituição de redes propicia a democratização da informação e do conhecimento, a criação de relações e de identificações, o estabelecimento de resistências e de articulações diversas, por outro também facilita o surgimento de saberes mais palatáveis acerca dos feminismos, de fácil digestão e alicerçados em dados abstratos, muitas vezes equivocados. A partir da formação política feita por “memes” (conceitos e ideias simbolizados em imagens, por exemplo), por frases de efeito e pela divulgação de quadros explicativos, surgem pequenos manuais que, a despeito de visarem à facilitação da compreensão teórica – que é de suma importância – terminam por, frequentemente, veicular assertivas nebulosas e até alimentar a criação de desafetos entre mulheres. A tabela colacionada a esse texto, bastante popular em páginas e em blogs feministas, é um exemplo dessa situação. De início, é importante a percepção de que o pretenso resumo reduz as (inúmeras) visões sobre gênero a, exclusivamente, “radical” e “pós moderna”, com essa última sendo a adotada pelo tal de “feminismo liberal” – normalmente confuso em sua definição, ao menos por parte da militância feminista que toma, de forma falha, qualquer coisa que não pode ser enquadrada em “radical” como “liberal”.

Isso nos traz alguns questionamentos importantes: quer dizer que a perspectiva de gênero de Martha Nussbaum é a mesma que a de Paul B. Preciado? Nussbaum, feminista que se aproxima de pautas liberais, alude, dentre outras coisas, ao risco de dissolvermos totalmente a ideia do que é ser mulher, no sentido de não podermos demandar políticas públicas específicas para mulheres – o que muito mais se coaduna com a noção de algumas feministas radicais do que com a daquelas consideradas “pós modernas”. Preciado, por sua vez, ao constituir-se como um dos mais conhecidos teóricos daquilo que toma-se por “queer”, alinha-se com autores como Judith Butler e Michel Foucault, tratando acerca da desconstrução do sistema binário de gênero, no qual a matriz heterossexual é norma compulsória e assegurada mediante apenas dois sexos e dois gêneros correspondentes, coerentes, desconectados e opostos entre si.

Quer dizer, ainda, que o liberalismo e a pós-modernidade se equivalem? Quanto a isso, sabemos que o período que se convenciona chamar de “pós-moderno” está alicerçado na dissolução da ideia de um futuro necessariamente melhor, garantido pelo avanço histórico e pela superação de um passado indesejado (como coloca o marxismo clássico ou o iluminismo, por exemplo), assim como na negação de uma explicação universal da história. Por outro lado, o liberalismo se constitui – por intermédio de uma amálgama de interpretações – em momento muito anterior à crise de meta-narrativas percebida, pelos adeptos da pós-modernidade, após a queda do muro de Berlim, e por sua decorrente negação de um futuro progressista como o esperado pelas teorias e pelos discursos modernos.

Quer dizer, ademais, que o feminismo liberal pode ser traduzido pela mera junção entre o feminismo e liberalismo, e que não existe absolutamente nenhuma subversão do liberalismo clássico com a colocada, nele, de pautas que interessam às mulheres feitas pelas próprias mulheres? Em face disso, teríamos que ignorar todas as introduções, feitas no cerne do próprio liberalismo, focadas na necessidade de percepção quanto à pauta feminina – dado que o mesmo também modificou-se, assim como atualizou-se, a partir do acúmulo feminista que, durante o século XIX, surgiu de forma incipente no Brasil e já passava a tomar corpo na Europa e nos Estados Unidos. O feminismo e o liberalismo, no final dessa época, apareceram como doutrinas “irmãs”, no sentido de que os primeiros movimentos feministas (brancos e de classe média) se concentraram justamente na demanda pela universalização de pautas liberais para as mulheres (como liberdade, participação política e propriedade). Entretanto, de lá para cá, as transformações que transcendem o espectro original são incontáveis, não se podendo relacionar literalmente uma época com a outra.

Quer dizer, ainda, que pós-modernidade (que abarca variadas definições, mas que Fredric Jameson, por exemplo, define como momento global do capitalismo), pós-modernismo (estilo que surgiu na arquitetura e, posteriormente, espalhou-se para as demais artes) e pós-estruturalismo (tendência que, na produção intelectual, se refere à radicalização das perspectivas estruturalistas) são (além de, todos, liberais) coisas iguais? Quer dizer que utilizar os poderes do Estado para demandar o pessoal como político, no que diz respeito ao combate da violência doméstica, é algo “pós-moderno”, pois liberal, e não radical? Quer dizer que feministas radicais não compactuam com a ascensão de mulheres a cargos políticos, já que tal seria pauta essencialmente liberal? Quer dizer que, nessa pós-modernidade, tão criticada por sua “abstração” e por sua “dissolução das verdades”, existe algo como número “ideal” de gêneros? Quer dizer que feministas “pós modernas” e “liberais” não acreditam na subordinação de mulheres por homens como forma de opressão? Quer dizer que toda a gama gigantesca de teóricas e de teóricos que não são reivindicados (pelo próprio feminismo radical) como radicais, defendem o mesmo tipo de estratégia política – no caso, a “rejeição do sistema binário”?

Quer dizer, adicionalmente, que o feminismo interseccional (comumente chamado de “liberal” ou “pós-moderno”, pois não radical), ao insistir na necessidade de recortes no feminismo, reforça o “liberalismo”? Quer dizer que o próprio feminismo liberal, ao tradicionalmente lançar mão das leis e das políticas públicas como instrumentos de redução às violações que vitimam as mulheres, também reforça, nesse âmbito, o individualismo? Quer dizer que todas as reformas já consolidadas até então são vistas enquanto pouco importantes – como se não tivessem sido elas, também, as responsáveis por incluir a mulher no mercado de trabalho, pelo reconhecimento de prerrogativa de voto feminino (no Brasil, conquistado apenas em 1932), por superar as normas machistas do direito de família do Código Civil de 1916 e as do Código Penal de 1940, ainda que as mesmas tenham aberto o terreno para reivindicações dos demais feminismos contemporâneos?

Todas essas perguntas são colocadas com o intuito de que possamos refletir, mais do que nunca, acerca do reconhecimento das potencialidades que as vertentes feministas nos concedem, criticando-as e apropriando-as segundo as dinâmicas sociais (sempre mutáveis) em cada espaço e tempo. Em tal âmbito, demonizar ou simplificar a complexa gama presente em escritos múltiplos não só é um erro teórico, como, em última instância, também colabora para que sacralizemos algumas teorias no lugar de outras, limitando suas críticas e tornando-as inférteis (porque os postulados viram estáticos, muitas vezes até dogmáticos).

A questão da mulher (e a de gênero como um todo), na realidade material, é profundamente multidimensional (político-institucional, cultural, simbólica, econômica, etc.) e carrega problemáticas variadas, com “remédios” e estratégias de combate igualmente variadas (e Nancy Fraser já nos mostrou um pouco disso ao escrever sobre a necessidade paralela do reconhecimento da diversidade feminina e da redistribuição de renda em face das mulheres, independentemente das críticas ou da complementações que se possa fazer à autora). Observamos, na atualidade, apontamentos e questionamentos legítimos em inúmeros feminismos, sendo possível que compactuemos com alguns e não com outros, no lugar de necessariamente termos que alinhavar nossas concepções na concordância plena com postulados estáticos e exclusivos a uma só vertente.

É relevante destacar, nesse espectro, que nenhuma teoria social ou política dá conta de explicar todas as dimensões de uma dada realidade: em verdade, uma teoria diz respeito à aproximação seletiva dessa realidade, no lugar de uma reprodução fiel à mesma. Ou seja, independentemente da teoria que adotarmos, ela sempre apresentará pontos descobertos ou tratados com menor profundidade e cuidado e, ao as escolhermos, também estaremos escolhendo elementos que consideramos mais importantes (ou mais palpáveis à análise) em um dado momento e espaço. Isso não muda, entretanto, a possibilidade de elegermos nos orientar, em última instância, por um ou por outro feminismo (como a partir de princípios e de demandas gerais, caso do acolhimento de travestis e de mulheres transexuais, dentre outras situações).

Essa abertura – mais a um mosaico em constante reflexão do que a pacotes teóricos prontos e não permeáveis – se dá porque nem todas as nossas políticas cotidianas precisam ser encaradas como se fossem teses acadêmicas, respeitando um paradigma absolutamente coerente, que não abre espaço para o uso conjunto ou pontual de contribuições de Donna Haraway, bell hooks, Audre Lorde, Simone de Beauvoir e Pierre Bourdieu, por exemplo, naquilo em que cada uma ou cada um eventualmente traz e no contexto em que seus escritos possam colaborar. Não se trata, nessa seara, de fazermos uma colcha de retalhos na interpretação da sociedade, mas de percebermos que ela não se apresenta como um bloco fechado em si mesmo, explicável (e combatível, em seus problemas) totalmente por teoria tal ou qual.

É claro que os feminismos (e os movimentos de gênero) são um campo de disputa, assim como o é qualquer outro campo. É claro que, entre eles, existem divergências importantes, quase essenciais (no sentido de certos pressupostos, como a questão transgênero). Mas, também, parece claro que precisamos superar a absoluta ausência de diálogo que, aparentemente, está se desenhando entre mulheres que se aproximam de um ou de outro ponto nesse imbróglio interno, criando, muitas vezes, falsas divergências ou afastamentos a priori (“se é do feminismo X é, de imediato, ruim; se é do feminismo Y é, de imediato, bom”). Vale lembrar, ainda neste ponto, que diversas autoras feministas bastante sólidas dialogam com frequência umas com as outras, ainda que façam parte de vertentes diferentes – como a já citada Martha Nussbaum, que recorrentemente cita Catharine MacKinnon como forte influência em sua própria compreensão do feminismo.

Evidentemente, o movimento feminista, como um todo, precisa aprofundar seu debate para além dos conhecimentos acadêmicos, bem como buscar formas de conceder um acesso mais democrático a esses conhecimentos e, ainda, construir ferramentas populares que permitam a imbricação entre teoria e prática. Entretanto, isso não será feito com a divulgação de informações “mastigadas” que não procedem mediante modelos fechados. É de se duvidar muito que os feminismos, lidando com as fragmentações (e as perseguições, e os desafetos) com que tantos movimentos da história também lidaram (e é só pensarmos no movimento dos trabalhadores, ou nas grandes inimizades criadas entre grupos ditos “de esquerda”) vai alcançar qualquer tipo de revolução. Não se trata de dizer “mulheres do mundo, uni-vos!”, mas de reconhecer a multiplicidade de mulheres como algo necessário de ser articulado, no lugar de absolutamente segmentado, pela vedação e pelo afastamento de plano. E, ainda que tal seja um grande – e dificílimo – desafio, conhecer as diferentes formas de lidar com esse tema tão vasto, evitando a disseminação de conteúdos equivocados e aptos a aprofundar ainda mais a produção de divergências inconciliáveis (e frequentemente falsas) pode ser um bom começo.

Autora

Marcelli Cipriani é graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Segurança e Administração da Justiça Penal (GPESC – PUCRS), e do Grupo de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Feminismos (GP-GSFem – PUCRS).